Tradução humana · Tradução de Monteiro Lobato (†1948) · Fonte: Wikisource · Domínio público
A ovelha estava trabalhando em catorze pares de meía ao mesmo tempo, fato que causou grande surprêsa à menina.
“Como pode lidar com tantas agulhas juntas?” pensou Alice consigo. Depois notou que cada vez mais a ovelha ficava parecida com um porco-espinho.
— Sabe remar? perguntou a ovelha, apresentando-lhe um par de agulhas.
— Sim, um pouco, mas não sei remar em sêco, nem com agulhas... começara Alice a dizer quando as agulhas se transformaram em remos em suas mãos e ela se achou numa barquinha entre margens dum rio.
— Pensa! exclamou a ovelha tomando outro par de agulhas.
Alice achou sem propósito aquêle “pena” e nada respondeu. Continuou a remar. Que água esquisita aquela! De vez em quando os remos mergulhavam fundo, sendo uma dificuldade tirá-los outra vez.
— Pena! Pena! continuou a ovelha tomando mais agulhas. Você vai pegar um caranguejo.
— Um caranguejinho! exclamou Alice contente. Que bom, que bom!
Mas a ovelha gritou encolerizada: — Não me está ouvindo exclamar “Pena, pena?” e passou a mão em mais agulhas.
— Sim, estou, respondeu Alice. Não sou surda e você já disse isso várias vêzes. Mas onde está o caranguejo?
— Na água. Onde mais? gritou a ovelha enfiando várias agulhas na lã, na cabeça, porque na sua mão não cabiam tôdas. E continuou: — Pena pena!
— Que história de tanta pena é essa? indagou Alice intrigada. Eu não sou ave.
— É sim. Você não passa dum ganso.
Aquilo ofendeu a menina, que emburrou por um minuto ou dois, enquanto o bote seguia seu curso, às vêzes por entre plantas aquáticas, às vêzes sob árvores que cresciam nas margens.
— Oh, por favor! Dê-me algumas das flôres tão lindas que crescem nestas árvores! Como são cheirosas!
— Inútil pedir “por favor” a mim, disse a ovelha sem tirar os olhos do seu crochê. Não fui eu quem pôs essas flores nas árvores, nem serei eu quem as possa tirar.
— Não é isso. Estou pedindo licença, para colhêr essas flores. Permite a senhora que o barco pare por um instante?
— Como posso parar o barco se é você quem está remando? Se você pára de remar, o barco pára também.
Vendo que era assim mesmo, Alice parou de remar e o barco seguiu a correnteza até meter-se entre os gua pés florescidos. Lá a menina debruçou-se e, completamente esquecida da ovelha, pôs-se a colhêr as flôres. Para isso inclinou-se até tocar com os cabelos na água, apesar do mêdo que tinha de que o bote virasse.
— Que linda! exclamou tentando colhêr uma flor que fugia da sua mão. Mas viu outra inda mais linda adiante. E outra mais adiante. Notou que as lindas, lindas, lindas estavam sempre mais adiante, de modo que nunca as podia alcançar. — As lindas estão sempre mais adiante exclamou ela por fim, com os cabelos molhados e desistindo da colheita. Tinha de contentar-se com as mais feias, únicas que pudera colhêr.
Mas, que pena! As flores colhidas fanavam-se ràpidamente porque eram flôres de sonho que se derretiam como a neve e ficavam aos seus pés como pingos de água suja.
Não muito longe dali um dos remos afundou nágua e não quis mais sair. Como Alice o puxasse com fôrça, o remo deu-lhe uma rabanada, que a lançou do bote para cima dos guapés.
Não se machucou e pôde pôr-se de pé imediatamente. Olhou em redor: a ovelha continuava no seu crochê como se coisa nenhuma houvesse acontecido. — Foi um lindo caranguejo que você pegou, disse ela quando Alice conseguiu pular de novo para dentro do bote.
— Foi? exclamou a menina admirada, a olhar em tôrno e no fundo do bote a ver se descobria algum caranguejo. Não o vejo! Que pena se me fugiu! Tanto que queria ter um caranguejo em casa...
A ovelha continuava no seu crochê, sorrindo com ar velhaco.
— Há muito caranguejo por aqui? perguntou Alice.
— Caranguejos e tudo mais, respondeu a ovelha. Há de tudo que se queira. Que deseja você comprar?
— Comprar! repetiu Alice em tom de admiração e mêdo, porque o bote, o rio, os guapés, tudo havia desaparecido num momento e ela estava de novo na lojinha da ovelha.
— Quero comprar um ôvo, disse por fim a menina timidamente. Quanto custa?
— Cinco níqueis. Dois custam um níquel, respondeu a ovelha.
— Então um custa mais do que dois? indagou Alice surprêsa, tirando a sua bolsinha de níqueis do bolso.
— Sim, mas você tem de tomar os dois ovos, se comprar os dois, disse a ovelha.
— Nesse caso dê-me apenas um, resolveu Alice pondo cinco níqueis sobre o balcão. “Eles podem estar podres”, pensou ela consigo, “e nesse caso meu sacrifício será menor.”
A ovelha tomou o dinheiro e o guardou numa caixa. Depois disse: — Eu nunca entrego as coisas que me compram nas mãos dos fregueses, por isso pegue você mesma o ôvo. Assim dizendo tirou ela duma prateleira um ôvo e o pôs de pé sôbre a prateleira mais alta.
— Por que será que faz isso? pensou Alice enquanto se dirigia por entre as cadeiras e mesas para onde estava a prateleira do ôvo. Mas a loja era muito escura e Alice teve de tatear.
“Parece que o ôvo foge à medida que me aproximo dêle!” pensou. Espere... Será uma cadeira êsse objeto que vejo na minha frente? Tem galhos!... Uma árvore!... Que esquisito, árvores crescendo aqui! E agora vejo um riozinho... Não pode haver no mundo loja mais estranha do que esta...
Quanto mais Alice se adiantava na direção do ôvo, mais se admirava, porque os objetos todos se iam transformando em árvores.
“Até o ovo é capaz também de deitar galhos e fôlhas!” pensou ela.
CAPÍTULO VI HUMPTY DUMPTY
O ÔVO COMEÇOU a crescer, a crescer e a tomar jeito de gente. Aproximando-se dêle Alice viu que tinha olhos e bôca. Por fim percebeu que estava parecido demais com HUMPTY DUMPTY para não ser o mesmo. “Tenho a certeza de que é êle! pensou a menina. Tanta certeza como se o seu nome estivesse escrito em sua cara.”
E o nome de Humpty poderia ter sido escrito cem vêzes em sua cara, tamanha era ela. Humpty Dumpty estava sentado, de pernas cruzadas à moda dos turcos, bem em cima dum muro tão estreito que Alice ficou admirada de como podia equilibrar-se ali. Humpty tinha os olhos fixos na direção contrária a Alice e nem sequer notou a sua presença.
— É tal qual um ôvo! exclamou a menina em voz alta, espichando as mãos para segurá-lo, certa de que iria cair dum momento para outro.
— Isso chega a ser desafôro! disse Humpty Dumpty depois dum longo silêncio, voltando os olhos para Alice enquanto falava. Ser chamado de ôvo! É demais!...
— Eu disse parecido com um ôvo, explicou Alice tìmidamente. Não disse que era um ôvo, apesar de que há ovos bem lindos, continuou, procurando remendar o dito.
— Há criaturas, disse Humpty Dumpty como falando consigo mesmo, que têm menos senso do que um bebê.
Alice não soube o que replicar a essa observação. Nem era caso de replicar coisa nenhuma, visto não estar conversando, pois Humpty quando falava nunca se dirigia a ela. Sua última observação, por exemplo, parecia dirigida a uma árvore. Em vista disso Alice murmurou consigo mesma:
Humpty Dumpty está sentado num muro:
Humpty Dumpty não demora a cair.
Todos os soldados e cavalos do rei
Não poderão de novo fazê-lo ao muro subir.
— Este último verso está muito comprido e feio, murmurou Alice a meia voz, esquecida de que Humpty Dumpty poderia ouvi-la. E ouviu.
— Deixe de estar a falar consigo mesma, disse êle, encarando-a firme. Em vez disso, diga-me o seu nome e o que anda fazendo por aqui.
— Meu nome é Alice...
— Que nome estúpido! exclamou Humpty Dumpty torcendo o focinho. Que quer significar?
— Nome significa alguma coisa? perguntou Alice incerta.
— Está claro que significa! disse Humpty dando uma risada. Meu nome, por exemplo, significa a forma que eu tenho — a bela forma que eu tenho! Com um nome como o seu você pode ter a forma que quiser.
— Por que está sentado aí sòzinho? disse Alice para mudar de assunto e evitar briga.
— Por quê? Porque não está ninguém comigo. Se estivesse alguém, claro que não estaria sòzinho. Que pergunta!
— Não acha que se estivesse aqui no chão estaria mais seguro? continuou Alice sempre com mêdo que êle caísse dum momento para outro. Êsse muro é muito estreito, e se você cai...
— Se eu caísse, continuou Humpty, o Rei me prometeu que ... Ah, você empalidece, menina! Sabe o que eu vou dizer, não é verdade? O Rei prometeu por sua própria bôca mandar ...
— Todos os seus homens e cavalos , concluiu Alice como quem sabia de cor aquela história.
Humpty ficou desapontadíssimo de ver que Alice sabia de tudo. — Você estêve escutando atrás da porta! berrou êle furioso. — Se não tivesse escutado atrás da porta, ou atrás da árvore, ou de dentro da chaminé, não poderia saber isso!
— Não escutei atrás de porta nenhuma! protestou Alice enèrgicamente. Li a história num livro.
— Bem, bem, exclamou Humpty mais calmo. Sei que êles escrevem essas coisas num livro chamado História da Inglaterra. Bem, mas agora olhe firme para mim. Saiba que eu falei com o Rei, eu, eu! Conhece alguém mais que haja falado com um rei? Mas para mostrar que não sou orgulhoso, vou permitir que você me aperte a mão, terminou Humpty arreganhando sorriso que lhe abria a bôca de orelha a orelha, enquanto espichava a mão para Alice. A menina apertou-lha um tanto ansiosa, sempre com mêdo que êle caísse com o esforço daquele sorriso tão grande. “Se continua a rir assim, os cantos da bôca se encontrarão na nuca, pensou ela, e nesse caso a sua cabeça fica partida pelo meio.”
— Sim! continuou Humpty. Com todos os seus soldados e cavalos!... Eles me colocarão aqui outra vez. Mas noto que a nossa conversa está caminhando muito depressa. Voltemos para trás.
— Tenho receio de não poder voltar para trás. Já não me lembro do ponto onde a conversa estêve, disse a menina com polidez.
— Nesse caso, comecemos de novo, sugeriu Humpty, e desta vez eu escolho o assunto da conversa. (“Ele fala como se conversa fosse um jogo qualquer!”, pensou Alice.) Assim sendo, continuou Humpty, vou começar. Que idade disse que tinha?
Alice pensou um instante e respondeu: — Sete anos e seis meses.
— Está errado! exclamou Humpty num triunfo. Você não havia dito isso!
— Pensei que me perguntou que idade o senhor tinha, explicou Alice.
— Se eu tivesse pensado nisso não o teria perguntado a você.
Alice, que não queria brigar, nada replicou.
— Sete anos e seis meses! repetiu Humpty pensativamente. Idade sem graça. Se houvesse pedido o meu conselho eu diria que ficasse nos sete — mas agora é tarde.
— Eu nunca peço conselhos a ninguém a respeito do meu crescimento, declarou Alice indignada.
— É orgulhosa assim?
— Quero apenas dizer que uma pessoa não pode deixar de ir ficando mais velha, queira ou não queira, disse a menina irritada de tanta estupidez.
— Uma pessoa concordo que não pode, retrucou Humpty. Mas duas pessoas podem. Com o auxílio de mais uma pessoa você poderia ter ficado nos sete anos.
— Que bonito cinto o senhor tem! exclamou Alice de repente. (“Chega do assunto idade, pensara ela. E se a conversa ia como num jogo, ora um dando o assunto, ora outro, achava ela que havia chegado a sua vez de dar assunto.”) Que belo cinto, isto é, que bela gravata, repetiu Alice sem grande certeza se se tratava de cinto ou gravata, porque era difícil distinguir se a cintura de Humpty era pescoço e se o pescoço era cintura.
Humpty nada disse por um minuto ou dois, embora fôsse evidente que estava em cólera. Quando afinal falou foi num resmungo:
— Que grande ingenuidade, não saber distinguir uma gravata dum cinto! disse êle.
— Reconheço que sou uma ignorante, desculpou-se Alice em tom tão humilde que Humpty amansou.
— É uma gravata, menina, e uma bela gravata, como você muito bem disse. Presente do Rei Branco e da Rainha.
— Deveras? exclamou Alice contente de ter escolhido um assunto que parecia contentar o homenzinho.
— Êles me deram esta gravata como presente de in-aniversário continuou Humpty amável, montando uma perna sôbre a outra e cruzando as mãos em torno ao joelho.
— Desculpe-me, mas não entendi bem, disse Alice intrigada. Que quer dizer presente de in-aniversário?
— Quer dizer um presente dado num dia que não é de aniversário.
Alice permaneceu pensativa por uns instantes. Depois declarou: — Eu prefiro os presentes de aniversário.
— Você não sabe o que está dizendo, gritou Humpty Dumpty. Quantos dias tem o ano?
— Trezentos e sessenta e cinco.
— E quantos dias de anos tem você?
— E se tira um de trezentos e sessenta e cinco quantos ficam?
— Trezentos e sessenta e quatro.
Humpty ficou na dúvida. — Prefiro ver essa conta feita num pedaço de papel, declarou.
Alice não pôde deixar de sorrir enquanto fazia num papel a conta.
Humpty tomou o papel e examinou a conta cuidadosamente. — Parece que está certa, disse
— Você está lendo de cabeça para baixo! advertiu Alice endireitando o papel.
— Realmente, murmurou Humpty de cara alegre. Estava-me parecendo muito esquisito. Mas, como ia dizendo, a conta parece certa — embora eu não tenha tempo para examiná-la cuidadosamente — e dela se vê que xistem 364 dias nos quais uma pessoa pode receber um presente de in-aniversário.
— De fato assim é, confirmou Alice.
— E um dia só em que possa receber presente de aniversário, não é? Logo, glória para você!
— Não sei o que quer dizer com êsse “glória”, objetou a menina.
Humpty Dumpty sorriu com desprêzo.
— Está claro que não sabe, nem o saberá enquanto eu não o disser. Glória quer dizer um argumento de escachar.
— Mas “glória” jamais significou isso, que eu saiba, senhor!
— Quando eu uso uma palavra, replicou Humpty com superioridade, ela significa o que eu quero que signifique — e nada mais.
— Mas a questão é se o senhor pode dar significado diferente às palavras...
— Engano seu, menina. A questão é saber quem é aqui o mestre, isso sim!
Alice estava muito tonta daquela trapalhada para poder replicar qualquer coisa. Calou-se, pois. Quem continuou a falar foi Humpty.
— As palavras têm gênio, algumas delas, sobretudo, como os verbos, por exemplo, que são muito orgu lhosos. Com os adjetivos a gente pode fazer o que quer, mas não com os verbos. Eu, entretanto, faço de todas as palavras o que quero. “Impenetrabilidade!”, eis o que tenho a dizer.
— Poderá fazer-me o favor de declarar o que significa isso? pediu Alice.
— Bravos! Está falando agora como uma boa menina, respondeu Humpty muito contente de si. Por “impenetrabilidade” eu quero dizer que já debatemos muito este assunto e que seria justo que você dissesse o que quer fazer agora, pois não podemos ficar neste ponto tôda a vida.
— É uma grande coisa fazer uma palavra significar o que a gente quer! murmurou Alice pensativamente.
— Quando eu faço uma palavra significar o que quero, pago-lhe sempre salário dobrado, explicou Humpty.
— Oh! exclamou Alice, muito atrapalhada de idéias para dizer qualquer coisa.
— Queria que você visse como aos sábados as palavras me rodeiam ansiosas pelo recebimento dos seus salários da semana.
Alice não teve coragem de perguntar com que moeda êle as pagava. Apenas murmurou: — O senhor me parece muito hábil nessa ciência. Poderia dar-me a significação da palavra “Jabberwocky”?
— Posso, sim. Posso explicar todos os poemas que foram escritos, bem como todos os que ainda estão por escrever-se.
Alice ficou bastante satisfeita com a resposta e lembrou-se dum verso sem pé nem cabeça que êle poderia decifrar.
Panfogo nas peiolhas da gire e ruma
Xuruxuxu mais potocauçu faz fiufirififiu
— Basta, para começar, interrompeu Humpty. Há muitas palavras difíceis aí. Panfogo significa quatro horas da tarde, tempo em que as cozinheiras começam a botar as panelas no fogo para o jantar.
— Muito bem, exclamou Alice. E peiolhas ?
— Peiolhas são peixes em forma de lagartos, um tanto parecidos com saca-rôlhas.
— Devem ser uns animais muito interessantes!...
— São, sim, confirmou Humpty Dumpty. Costumam fazer seus ninhos nos mostradores dos relógios e moram nos queijos.
— E gire e ruma ?
— Gire é girar como os piões. Ruma é fazer buraco na madeira como as verrumas.
— Bom, estou aprendendo, disse a menina. Creio que esta outra palavra, xuruxuxu , significa algum pássaro muito esquisito, com penas arrepiadas pelo corpo como uma vassoura com mêdo.
— Exatamente! exclamou Humpty. E potocauçu quer dizer uma espécie de porco-do-mato verde.
— E que significa fiufirififiu ?
— Significa um assobio com um espirro no meio. Mas eu queria saber quem ensinou a você êsse verso.
— Li-o não sei onde, respondeu Alice. Mas tenho na memória alguns versos mais fáceis, que aprendi com Tweedledum.
— Já que fala em versos, disse Humpty esfregando as mãos, posso provar a você que sou capaz de recitar versos tão bem como qualquer pessoa.
— Oh, não é preciso! berrou Alice com mêdo de mais versos daquela qualidade. Humpty não se incomodou com o protesto e prosseguiu:
— O verso que vou repetir foi composto especialmente para você.
Tendo de corresponder à gentileza, Alice não pôde impedir que êle recitasse. Sentou-se no chão e murmurou um “muito obrigada” bastante suspirado.
Humpty começou:
Agora que do inverno sinto a aragem
Canto êstes versos em vossa homenagem...
Mas interrompeu-se para uma explicação. Disse que não ia cantar, como estava na poesia, e sim recitar.
— Estou vendo, murmurou Alice.
— Se está vendo , gritou Humpty com severidade, quer dizer que você tem olhos que ouvem, o que é uma barbaridade. E continuou:
Na primavera, quando o mato cheira a incenso,
Com a minha débil voz eu digo o que penso.
— Faz muito bem! aparteou Alice.
No verão, ão, ão, quando os dias são longos
Talvez você compreenda, enda, os ditongos.
No outono, quando as folhas ficam amarelas,
Tomo pena e tinteiro e vou para as janelas.
— Hei de fazer o mesmo! aparteou de novo Alice.
— Nada de interrupções, que me atrapalha! observou Humpty. E continuou:
Mandei recado aos peixes
Dizendo o que queria;
Os peixes responderam
Naquele mesmo dia.
Responderam dizendo
Que noutra freguesia
Eu fôsse pregar pregos...
“Peixinhos sabidos eram êles!” pensou Alice consigo. Apesar de ter apenas pensado e nada dito em voz alta, Humpty adivinhou o seu pensamento e ofendeu-se. Parou o recitativo naquele ponto e com cara muito feia exclamou: — Até logo!
— Como até logo? gritou Alice. A sua poesia então acaba assim sem mais nem menos?
— Até logo! repetiu êle sêcamente.
— Nesse caso, disse a menina desapontada, só me cumpre responder que terei muito gosto em vê-lo de novo.
— Se novamente nos encontrarmos, não a reconhecerei. Estou certo disso.
— Por quê?
— Porque a menina se parece muito com tôdas as outras meninas que existem.
— Poderei parecer, observou Alice, mas tenho uma cara que é só minha, sem igual no mundo inteiro.
— Pois fique sabendo que não noto diferença nenhuma. É cara como todas as outras. Tem dois olhos, como tôda a gente, um aqui outro aqui. Tem nariz em cima da bôca e bôca em baixo do nariz. Tôda a gente é assim. Se tivesse um ôlho na testa e outro no queixo, então eu poderia distingui-la das outras meninas.
— Seria engraçado se fôsse assim! murmurou Alice, imaginando como seria sua cara se tivesse os olhos na testa e no queixo.
Humpty calou-se. Alice ainda esperou por uns momentos que êle dissesse alguma coisa. Vendo porém que havia fechado os olhos e estava como se já não a percebesse ali, murmurou outro “Até logo” e retirou-se lentamente, pensando pelo caminho que de todas as pessoas malcriadas que havia encontrado naquele país Humpty Dumpty era um dos...
Mas não pôde concluir o seu pensamento. Um estranho tropél começava a invadir a floresta.
CAPÍTULO VII O LEÃO E O UNICÓRNIO
A LICE VIU que soldados em quantidade vinham atravessando a floresta. No comêço aos dois, aos três; depois, aos dez e aos vinte e por fim em tamanho número que pareciam encher a floresta inteira. De mêdo de ser atropelada escondeu-se atrás duma árvore.
Pôs-se a observar. Notou logo que nunca em sua vida encontrara soldados cambaleantes como aquêles. Mal podiam ter-se em pé. Por qualquer coisinha caíam e quando um vinha ao chão, os de trás tropeçavam nêle e também caíam, formando-se assim pequenos montes de homens por tôda a floresta.
Depois surgiram cavalos. Como os cavalos têm quatro pés equilibravam-se melhor que os homens, que só têm dois. Mesmo assim tropicavam aqui e ali, e sempre que um cavalo tropicava o soldado que o montava vinha ao chão. A desordem crescia cada vez mais, de modo que Alice respirou quando se viu longe da floresta, num ponto onde se achava o Rei Branco, sentado na terra nua e muito preocupado com o que escrevia no seu livrinho de notas.
— Mandei o exército inteiro, disse êle alegremente logo que viu Alice. Não encontrou meus soldados pela floresta, minha cara menina?
— Sim, encontrei, respondeu Alice. Alguns milhares, creio.
— Quatro mil duzentos e sete, é êste o número exato. declarou o Rei lendo no livrinho a nota a respeito.
Não pude mandar todos os cavalos porque dois dêles são necessários ao jogo do xadrez, como você sabe. Também não mandei os dois Mensageiros, porque tinham ido à cidade. Espie a estrada e diga-me se avista algum dêles.
— Ninguém está na estrada, respondeu Alice.
— Quem me dera ter seus olhos, menina! exclamou o Rei num suspiro. Ter olhos que enxergam Ninguém e desta distância!... Eu mal posso avistar gente real.
Alice não prestou atenção àquelas palavras porque estava ainda de olhos fixos ao longe vendo se vinha alguém. — Vejo-o agora! exclamou por fim. — Vem vindo um mensageiro muito vagarosamente. Que engraçado! Vem escorregando, qual uma cobra, agitando as mãos, como remos.
— Já sei, disse o Rei. É Ciro. Ele costuma caminhar assim quando está contente.
Alice lembrou-se dum versinho popular sôbre a letra C, que era a primeira do nome dêsse mensageiro.
Eu amo o meu amor com C porque é Completo. Eu o odeio com C porque é Cavorteiro. Eu o alimento com com... com Cocada e Capim. Seu nome é Ciro e êle mora na...
— Ele mora na Caverna, completou o Rei ajudando Alice a achar uma morada cujo nome também Começasse por C. O outro mensageiro se chama Cairo. Como você sabe, é preciso ter dois mensageiros, um para ir e outro para vir.
— Não entendo, murmurou Alice. Por que um para ir e outro para vir? Quem vem pode também ir.
— É como eu disse, respondeu o Rei com impaciência. Preciso ter dois, um para levar e outro para trazer.
Nesse momento o Mensageiro chegou. Tão cansado estava que não pôde pronunciar uma só palavra, limitando-se a abanar com as mãos ambas enquanto fazia as mais horrendas caretas para o Rei.
— Esta menina ama você com C, disse o Rei apresentando-lhe Alice, na esperança de desviar de si a atenção do Mensageiro, cujas caretas lhe estavam causando pavor. Mas foi inútil. O Mensageiro ainda fêz caretas mais feias.
— Você está me apavorando! exclamou o Rei afinal. Sinto-me desmaiar. Uma cocada, depressa!
— Com grande surprêsa da menina o Mensageiro abriu a sacola que trazia pendurada ao pescoço e dela tirou uma cocada, que passou ao Rei.
— Outra! gritou êste logo que devorou a primeira.
— Não existe mais nada na sacola a não ser capim, Majestade, respondeu o Mensageiro.
— Serve capim, murmurou o Rei em voz sumida.
Alice respirou quando viu que o capim havia feito o Rei voltar a si. — Nada melhor do que capim para desmaios, explicou êle, enquanto engolia aquêle estranho remédio.
— Jogar água fria na cara parece-me muito melhor, observou a menina sem que o Rei lhe desse tento. Sua Majestade de mão estendida para o Mensageiro à espera de mais capim, perguntava-lhe quem havia passado pela estrada.
— Ninguém, respondeu o Mensageiro.
— É o que acaba de me informar esta menina. Vejo que êsse Ninguém anda mais devagar do que você.
— Faço o que posso, Majestade, disse o Mensageiro em tom ressentido. Estou certo de que ninguém anda mais depressa do que eu.
— Se Ninguém andasse mais depressa do que você éle chegaría aquí antes de você. Mas deixemos isto. Agora que já pode falar diga-me o que aconteceu na cidade.
— Poderei dizê-lo, mas ao ouvido de Vossa Majestade, respondeu o Mensageiro encostando a bôca ao ouvido do Rei, Alice ficou desapontada, de tão curiosa que se sentia de saber as novidades. O Mensageiro, entretanto, depois de encostar a bóca ao ouvido do Rei, em vez de cochichar berrou a plenos pulmões: — Êles estão de novo lá!
— É isso que você chama cochichar ao ouvido? berrou o Rei dando um pulo para trás. Se repete semelhante coisa o farei castigar severamente. O grito que me meteu nos tímpanos está lá dentro que nem um terremoto!
— Terremotinho à-toa, pensou a menina. Mas quem está de novo lá? perguntou ela curiosa.
— O Leão e o Unicórnio, respondeu o Rei.
— Estão lutando pela coroa! ajuntou o Mensageiro.
— Está claro, disse o Rei. E o pior é que tal coroa é a minha. Vamos correndo ver isso.
Puseram-se todos a correr. Pelo caminho Alice foi repetindo para si as palavras da velha cantiga do Leão e do Unicórnio:
Lutando pela coroa estavam o Leão e o Unicórnio.
O Leão bateu o Unicórnio em redor dos muros
da cidade.
Alguns deram a êles pão branco; outros deram
pão prêto.
Outros deram a êles pudim — e botaram-nos
para fora a fôrça de tambores.
— Será que o que vencer vai apossar-se da coroa? perguntou Alice enquanto corria.
— Que absurdo, menina! respondeu o Rei. Que idéia!
Alice não podia mais consigo, de tão cansada.
— Quer... ter a bondade, disse por fim já quase sem fôlego, de parar um momento? Preciso respirar...
— Só pararemos lá adiante, foi a desanimadora resposta.
Alice não teve fôlego para replicar. Continuou a acompanhá-los na carreira, até que avistou uma grande multidão que fazia roda aos lutadores. Lá estavam o Leão e o Unicórnio dentro duma nuvem de pó tão espêssa que Alice não pôde distinguir qual era um e qual era outro. Por fim reconheceu o Unicórnio pelo pontudo chifre que possui no meio da testa.
Perto dêles estava Cairo, o outro Mensageiro, que servia de juiz, tendo em uma das mãos uma xícara de chá e na outra um pedaço de pão com manteiga.
— Êle acaba de sair do cárcere, explicou Ciro a Alice, e não havia ainda acabado de tomar o seu chá quando o prenderam. Na prisão o único alimento é cas ca de ostra, por isso está assim o coitado, tão faminto e sedento.
Depois, dirigindo-se a Cairo, apoiou-lhe a mão sobre o ombro, dizendo: — Como vai você, meu caro amigo?
Cairo voltou a cabeça e continuou a devorar o seu pão com manteiga.
— Passou bem na prisão? perguntou Ciro.
Cairo voltou de novo a cabeça sem dizer palavra. Duas lágrimas lhe escorreram dos olhos.
— Fale, diabo! gritou Ciro impaciente. Cairo porém limitou-se a fungar e a engolir outro gole de chá.
— Fale! ordenou o Rei. Como vai indo esta luta?
Cairo fêz um esfôrço desesperado para engolir o resto do pão com manteiga. Depois murmurou com voz entrecortada pela engolidela: — Vai indo muito bem. Cada um dos lutadores já veio ao chão oitenta e sete vêzes.
— Nesse caso o povo não tarda a trazer-lhes o pão branco e o pão prêto, não é assim? observou Alice.
— Estão êles à espera disso agora, respondeu Cairo.
Houve uma pausa na luta. O Leão e o Unicórnio sentaram-se, com as línguas de fora, enquanto o Rei gritava: — Dez minutos de descanso! Ciro e Cairo foram buscar refrescos , isto é, bandejas de pão branco e prêto. Alice provou um pedaço, achando muito sêco semelhante refrêsco...
— Creio que não lutarão mais hoje, disse o Rei para Cairo. Dê ordem aos tambores para que comecem a rufar.
Por um minuto ou dois Alice permaneceu em silêncio; súbito deu um pinote. — Olhe! Olhe! exclamou apontando. — Lá vem a Rainha Branca a correr! Vem voando, quase! Como estas Rainhas sabem andar depressa!
— Algum inimigo corre atrás dela, explicou o Rei sem sequer erguer os olhos na direção apontada. A floresta está cheia de inimigos.
— Mas, observou Alice muito admirada, não vai Vossa Majestade correr em defesa da Rainha?
— Inútil, inútil, respondeu o Rei. Ela sabe correr à tôda. Não obstante, lançarei no meu caderninho uma nota a respeito disso, se você quer. A Rainha é uma boa criatura, disse êle como para si próprio, enquanto abria o caderninho. Por falar — criatura escreve-se com e ou com i?
Nesse momento o Unicórnio passou-lhes por perto, de mãos no bôlso. — Ganhei a luta desta vez, não? disse de longe ao Rei.
— Você devia ter enfiado o chifre na barriga dêle, sabe? observou o Rei um tanto nervoso.
— Não quis machucá-lo, respondeu com superioridade o Unicórnio. Depois, vendo a menina, entreparou e mirou-a com ar espantado.
— Que é isto? indagou.
— Isto é uma menina, respondeu Ciro, adiantando-se para apresentar Alice ao Unicórnio. Descobrimo-la hoje. É viva.
— Sempre pensei que meninas fôssem monstros da fábula! Realmente é viva?
O Unicórnio examinava Alice como quem examina um ser do outro mundo. Depois disse-lhe: — Fale, menina!
Alice não pôde evitar um sorriso de superioridade e disse: — Eu sempre julguei, também, que os Unicórnios fossem monstros da fábula. Jamais havia visto um vivo.
— Muito bem, disse o Unicórnio, já nos vimos um ao outro e se você crê que eu existo, também ficarei crente de que você existe. Serve o negócio?
— Serve, sim, se é do seu agrado, respondeu Alice.
— Vamos, que venha o pudim, senhor velhote! exclamou o Unicórnio voltando-se para o Rei. Não quero saber de pão prêto.
— Certamente, certamente, murmurou o Rei fazendo sinal a Ciro. — Abra a sacola, ordenou a êste. Depressa! Mas não tire capim.
Ciro puxou da sacola um grande pudim, pedindo a Alice que o segurasse enquanto ia em busca de um prato e duma faca.
O Leão veio juntar-se ao grupo com os olhos quase a se fecharem de sono. — Que é isto? murmurou preguiçosamente numa voz de sino de catedral, vendo a menina.
— Adivinhe, se é capaz. Eu não pude, observou o Unicórnio.
O Leão olhou para Alice por uns instantes. — É você algum animal, algum vegetal ou algum mineral? perguntou bocejando.
— É um monstro da fábula! gritou o Unicórnio antes que a menina pudesse responder.
— Nesse caso, passe-me para cá uma fatia de pudim, Monstro da Fábula! disse o Leão, deitando-se e acomodando o focinho entre as patas — E sentem-se os dois ordenou ao Rei e ao Unicórnio. Vamos ao pudim.
O Rei estava evidentemente incomodado de ver-se metido entre dois bichos daquele tamanho; mas não tinha remédio.
— Que linda luta vamos ter pela coroa, agora! disse o Unicórnio olhando para a coroa que quase caía da cabeça do Rei, tal era o seu tremor.
— Vencerei fàcilmente, resmungou o Leão com arrogância.
— Não penso assim, replicou o Unicórnio.
— Farei você correr como um pinto pelado! berrou o Leão, colérico, erguendo meio corpo.
Aqui o Rei interveio para evitar briga. Estava nervosíssimo, com a voz trêmula. O Leão sentou-se de novo e perguntou, apontando para Alice: — Quanto tempo leva êste Monstro da Fábula para repartir o pudim?
Sentada à beira dum regato, com o grande prato do pudim ao colo, a menina procurava cortá-lo com a faca. Esquisito! exclamou, sem responder ao Leão. — Por mais que corte as fatias elas se juntam outra vez!
— É que você não sabe lidar com doces do Espelho, disse o Unicórnio. Sirva-nos primeiro, depois corte. No Espelho é tudo ao contrário.
Alice achou um tanto absurdo aquilo, mas experimentou. Ergueu-se e deu volta aos convidados, apresentando-lhes o prato — e de fato o pudim por si mesmo se dividiu em fatias.
— Agora corte, disse o Leão quando ela voltou para o seu lugar com o prato vazio.
— Isso não está direito! exclamou o Unicórnio enquanto Alice, de faca em punho, permanecia tonta, sem saber o que fazer. — O Monstro da Fábula deu ao Leão um pedaço o dôbro do meu.
— E não reservou para si nem um bocadinho, disse o Leão. — Gosta de pudim, Monstro da Fábula?
Alice não pôde responder. Tambores começaram a rufar. Donde viria o barulho? O ar parecia completamente ocupado por aquêles sons que lhe entravam pelos ouvidos e acabaram por ensurdecê-la de todo. Apavorada, Alice saltou o regato de um pulo.
Lá do outro lado percebeu que o Leão e o Unicórnio se levantavam, furiosos de terem sido atrapalhados em sua festa. O barulho dos tambores crescia. Alice tapou os ouvidos com quanta força pôde, pensando consigo:
— Se êste barulho não os lança fora da cidade, então nada no mundo o fará...
CAPÍTULO VIII “É INVENÇÃO MINHA”
A QUÊLE HORRÍVEL barulho não durou muito tempo. Foi passando e passou de todo. Tudo caiu em profundo silêncio. Alice olhou em redor: nada viu. Não havia mais ninguém por ali. Seria sonho? Nem Leão, nem Unicórnio, nem Mensageiros... Mas o prato estava aos seus pés, o prato do pudim. Vendo-o, Alice refletiu que não podia ter sido sonho. E se tivesse sido um sonho do Rei Branco e não dela? Desconfiada disso, Alice resolveu acordá-lo para ver o que acontecia.
Nesse momento foi interrompida por gritos e “Ahói! Ahói! Xeque!” ao mesmo tempo em que um Cavaleiro vestido de armadura preta galopava em sua direção, brandindo a espada. Ao chegar, deteve o cavalo de brusco e gritou: “Está prisioneira!” e caiu no chão.
Apesar de assustada, Alice tremeu mais pelo Cavaleiro do que por si própria, e ficou a olhá-lo, ansiosa, até que êle montasse outra vez. Logo que o Cavaleiro se viu firme na sela, começou de novo: “Está pri...” mas não pôde terminar. Outro grito de: “Ahói! Ahói! Xeque!” o interrompeu, fazendo Alice voltar o rosto para ver quem era o novo inimigo.
Tratava-se do Cavaleiro Branco, que só parou bem pertinho de Alice e tudo fêz como o Cavaleiro Negro fizera. Caiu, montou de novo e olhou para o seu rival por algum tempo, sem nada dizer. Alice ora punha os olhos num, ora noutro, muito atrapalhada.
— Ela é minha prisioneira, você sabe! disse por fim o Cavaleiro Negro.
— Sim, mas eu apareci e libertei-a! replicou o Cavaleiro Branco.
— Nesse caso, duelemos para ver quem fica seu dono, disse o Cavaleiro Negro enfiando na cabeça o elmo (que estava pendurado no arção da sela e consistia numa cabeça de cavalo.)
— Vai você observar as Regras da Batalha? perguntou o outro, também enfiando na cabeça o capacete.
— Está claro que sim. Sempre observo tais regras, respondeu o Cavaleiro Negro. Em seguida lançaram-se um contra o outro com tal furor que Alice, apavorada, correu a esconder-se atrás duma árvore para não ser vítima dalgum golpe.
“Queria saber quais são as tais Regras da Batalha” pensou consigo a menina no seu esconderijo enquanto observava a luta. Uma regra parece ser que se um Cavaleiro acerta um golpe no adversário, êste vem ao chão, e se erra, quem tem de cair é êle. Outra regra parece ser que ambos seguram as armas com os braços e não com as mãos. E que barulho fazem quando caem! E como se comportam bem os cavalos, imóveis em seus lugares, como se fôssem tabuleiros de xadrez!...
Outra Regra de Batalha que Alice não percebeu era que êles sempre caíam de ponta cabeça, e que a luta terminaria quando ambos assim caíssem ao mesmo tempo, um ao lado do outro. Logo que isso aconteceu, ergueram-se os dois, apertaram-se as mãos e o Cavaleiro Negro, montando de novo, partiu no galope.
— Foi uma vitória gloriosa, não acha? murmurou o Cavaleiro Branco ainda sem fôlego, dirigindo-se para ela.
— Não sei, respondeu Alice na dúvida. Mas já vou dizendo que não quero ficar prisioneira de ninguém. Quero virar Rainha, isso sim.
— Será Rainha só depois que atravessar o próximo regato. Eu a levarei em segurança até ao extremo da floresta. É êsse o fim da minha missão.
— Muitíssimo obrigada, exclamou Alice contente. E dá-me licença de retirar da sua cabeça êsse capacete?
Sem o ajutório da menina êle jamais o conseguiria, por isso aceitou.
— Uff! Agora posso respirar mais livremente, disse, logo que se viu livre do capacete. Em seguida correu a mão pelos cabelos em desalinho, fixando na menina os olhos azuis, muito meigos. Parecia lindo, o Cavaleiro. Alice jamais imaginara um soldado assim.
Sua armadura era de fôlha e muito mal arranjada. Sôbre os ombros via-se-lhe uma lata vazia de leite condensado, de bôca para baixo, com a tampa entortada. Alice examinou-a com grande curiosidade.
— Está admirando a minha lata, bem vejo, disse êle em amável tom. É uma invenção para guardar sanduíches e mais coisas. Uso-a assim de bôca para baixo para que não chova dentro.
— Não choverá dentro, observou Alice, mas as coisas que puser dentro cairão. Não vê que a tampa está aberta?
Era tão evidente aquilo que o Cavaleiro ficou desapontado e triste.
— Não pensei nisso, murmurou corando, e vejo que tem razão. Nesse caso tôdas as coisas que eu trazia dentro já caíram e a lata não me serve de nada...
Assim dizendo desamarrou a lata para jogá-la fora, mas arrependeu-se e, tomado duma súbita idéia, foi pendurá-la ao galho duma árvore, dizendo: “É capaz de adivinhar por que estou fazendo isto?”
Alice fêz sinal que não.
— Para que as abelhas a usem como colmeia. Virei depois colhêr o mel.
— Mas você tem na sela uma coisa que parece colmeia, isso aí! observou Alice apontando para o arção da sela.
— Sim, é de fato uma colmeia, disse o Cavaleiro, e da melhor marca. Mas nem uma única abêlha entrou nela ainda. Não presta. E êste outro objeto aqui é uma ratoeira. Creio que os ratinhos espantam as abelhas — ou que as abelhas espantam os ratinhos, porque também nesta ratoeira não caiu rato nenhum.
— Eu estava a pensar para que seria essa ratoeira, disse a menina, porque os ratos nunca sobem em cima dos cavalos.
— De fato é assim, disse o Cavaleiro, mas tive mêdo que subissem e viessem fazer cócegas no meu pescoço. É bom a gente prevenir-se contra tudo. Por isso armei as patas do meu cavalo com êsses espinhos de aço.
— Para que servem êles? indagou Alice, reparando que o cavalo tinha acima dos cascos um anel com terríveis pontas de aço.
— Para defendê-lo contra a mordedura dos tubarões, respondeu o Cavaleiro. É outra invenção minha. Agora ajude-me a montar. Vou acompanhá-la até ao extremo da floresta. Que prato é êsse, aí no chão?
— Um prato que já teve um pudim dentro.
— Será bom levá-lo. Poderemos encontrar algum pudim pelo caminho. Ajude-me a pô-lo nesta sacola.
Foi difícil fazer aquilo, apesar do ajutório de Alice, que segurou a sacola com a bôca bem esticada. Mas o Cavaleiro era um desastrado. Por três vêzes, ao tentar enfiar o prato, enfiou-se a si próprio na sacola, custando muito para sair. Por fim o conseguiu e pendurou a sacola na sela, onde já havia tôda uma quitanda de coisas — até cenouras!
— Estão os seus cabelos bem seguros? perguntou o cavaleiro ao montar, julgando talvez que os cabelos de Alice fossem como as coisas que êle trazia sôbre si.
— Na forma do costume, respondeu Alice sorrindo.
— É preciso que estejam bem seguros, porque o vento aqui é muito forte — tão forte como pimenta da miúda.
— Não inventaria também você algum meio de evitar que os cabelos sejam arrancados pelo vento? perguntou Alice.
— Não ainda, mas tenho um meio de evitar que caiam.
— Desejava muito saber isso.
— Muito simples. Consiste em fincar na cabeça uma estaca onde o cabelo possa ir-se enroscando, como os pés de ervilha. O motivo pelo qual o cabelo cai é que vivem pendurados para baixo. O que cresce para cima, como os pés de ervilha, não pode cair. Esta idéia é minha. Experimente a receita.
Alice parece que não gostou da idéia, nem quis experimentá-la. Calou-se e foi caminhando ao lado dêle em silêncio. De quando em quando parava para arrumar o Cavaleiro na sela, visto como era um péssimo cavaleiro.
Sempre que o cavalo parava (e parava cada passinho) êle afocinhava para a frente, e sempre que o cavalo se punha outra vez em marcha êle pendia para trás. Além disso costumava cair de lado, e muitas vêzes do lado da menina, que para evitar ser machucada nunca se aproximava do cavalo.
— Parece-me que você não tem muita prática de andar a cavalo, disse ela numa das ocasiões em que o arrumou na sela.
O Cavaleiro olhou para Alice com surprêsa e um tanto ofendido por aquela observação. — Por que diz isso? — perguntou êle, justamente quando pendia para um lado e se agarrava no cabelo da menina para não vir ao chão.
— Porque os cavaleiros não caem tanto assim, quando têm prática de andar a cavalo.
— Pois eu tenho uma prática enorme, sabe? Enorme!
Alice engoliu o “Realmente?” que ia pronunciando e nada respondeu. Continuaram a caminhar, o Cavaleiro de olhos fechados, Alice sempre em guarda para ampará-lo de novos tombos.
— O grande segrêdo da arte de andar a cavalo, começou o Cavaleiro em voz alta, é conservar-se...
Não pôde concluir. Caiu duma vez ao chão, de ponta cabeça, quase em cima de Alice, que receou que dessa vez quebrasse alguma costela.
Não tem importância, disse êle, erguendo-se. E continuou a conversa. “O grande segrêdo da arte de andar a cavalo, é conservar-se em perfeito equilíbrio na sela. Assim...”
Dizendo isto o Cavaleiro largou as rédeas e abriu ambos os braços para dar uma demonstração prática. Foi infeliz. Caiu de novo, desta vez de costas e bem debaixo das patas do animal.
— Tenho enorme prática, disse êle logo que Alice o montou de novo. Enorme prática!
— Isto está se tornando ridículo! exclamou Alice já impaciente. Você devia mas era montar um cavalo de pau, com rodinhas.
— Essa espécie de cavalo é melhor e de andar mais macio que o meu? perguntou êle interessadíssimo, abraçando-se com o pescoço do animal para não cair de novo.
— Muito melhor que os cavalos de carne e osso, respondeu Alice rindo-se.
— Quero ter um, disse o Cavaleiro. Um ou dois. Ou vários!
Houve um silêncio de alguns instantes, enquanto caminhavam mais uns passos. Súbito o Cavalheiro tomou a palavra de novo. — Sou um danado para inventar coisas! disse. — Da última vez que você me segurou não notou que eu estava pensativo?
— Notei sim, que estava um tanto grave , respondeu Alice.
— Pois é. Estava inventando um novo meio de atravessar cêrcas. Quer saber qual é?
— Diga.
— Direi primeiro como foi que cheguei a essa descoberta. Pense bem: a dificuldade para atravessar uma cêrca reside nos pés, porque a cabeça está acima da cêrca e portanto a cêrca não a impede de passar. Repare agora no meu raciocínio. Primeiro, coloco minha cabeça em cima da cêrea. Depois fico de pé em cima da minha cabeça. Ora, fazendo isto, os pés ficam acima da cêrca e portanto a cêrca não pode mais impedir que os pés passem.
— Estou achando o processo um tanto complicado, disse a menina. Já o experimentou?
— Não ainda, respondeu o cavaleiro gravemente, e por isso nada posso afirmar com segurança. Receio mesmo que seja um tanto difícil.
O pobre Cavaleiro pareceu tão vexado com a idéia de que sua invenção não valia grande coisa que de dó dêle Alice mudou de assunto. — Que lindo elmo você tem! exclamou ela de súbito. — É invenção sua?
O Cavaleiro olhou com orgulho para o elmo que pendia do arção da sela. — Sim, respondeu, mas já inventei coisa melhor, em forma de canudo. Quando eu caía êsse elmo tocava o chão antes da minha cabeça, de modo que a queda ficava menor. O perigo era ficar entalado dentro dêle, o que me aconteceu uma vez. O meu rival, vendo o elmo no chão, pensou que estivesse vazio e o pôs em sua cabeça, comigo dentro.
O Cavaleiro falava com tamanha seriedade que Alice não se animou a rir.
— Suponho que você se aproveitou da oportunidade para lhe dar uns pontapés, disse ela.
— Sim, dei-lhe tantos pontapés que êle teve de tirar da cabeça o elmo. E para me arrancar fora do canudo foram necessárias horas e horas de trabalho.
Nesse ponto da conversa o Cavaleiro caiu de novo de ponta cabeça, bem dentro dum buraco. Alice receou que dessa vez se machucasse deveras. Todavia, embora só estivesse vendo os seus pés e pernas, porque o resto do corpo estava enterrado, logo sossegou, vendo que o Cavaleiro continuava na conversa como se nada houvesse acontecido. — Dei-lhe, sim, centenas de pontapés, dizia êle lá do fundo do buraco.
— Como pode você falar tão bem estando com a cabeça para baixo? perguntou Alice enquanto o puxava pelo pé. Por fim conseguiu desenterrá-lo. O Cavaleiro olhou para ela muito surpreendido da pergunta. — Que importa onde a minha cabeça possa estar? disse êle. — Meu cérebro continua a trabalhar da mesma maneira e inventar novas coisas.
— E depois duma pausa: — Sabe que acabo de inventar um novo pudim?
— Bravos! gritou Alice. Dê-me logo a receita.
— Toma-se um bocado de mata-borrão, um bocado de pólvora e um bocado de lacre. Mistura-se tudo e... Chegou a hora de despedir-me de você, menina. Estamos no extremo da floresta. Mas antes de partir quero que ouça uma modinha que compus.
— É comprida? perguntou Alice que andava enjoada de modinhas.
— Comprida, sim, mas lindíssima. Quem a ouve não deixa de chorar ou de rir, à vontade.
Assim dizendo deteve o cavalo e largou as rédeas. Depois, marcando o compasso com uma das mãos e sorrindo como se estivesse antegozando a sua própria música, deu comêço à cantoria.
De tôdas as estranhas coisas que Alice viu naquele dia, através do Espelho, foi essa cena a que melhor se gravou em sua memória. Anos mais tarde ainda se recordava de tudo perfeitamente: dos bondosos olhos azuis do Cavaleiro, do sol no poente a iluminar o seu cabelo e a brilhar em sua armadura, do cavalo pastando em sossêgo com as rédeas pendentes do pescoço. Ao longe, as sombras da floresta espêssa. Tudo isto ficou como um quadro indelével em sua memória. Mas esqueceu a modinha, que de fato era das mais compridas.
Quando o Cavaleiro pronunciou as últimas notas da cantiga, retomou as rédeas e voltou o cavalo para o caminho por onde tinham vindo.
— Basta caminhar morro abaixo uns metros mais na direção do riozinho, disse êle. Lá chegando você se transformará em Rainha. Mas não parta ainda. Espere que eu desapareça no horizonte. De longe acene-me com o lenço. Tenho necessidade dêsse gesto para encorajar-me.
— Esperarei, sim, respondeu a menina comovida. E muito obrigada por acompanhar-me até aqui. Obrigada também da cantiga, que estava linda.
— É, mas você não chorou, como eu esperei, disse êle ressentido.
Houve as despedidas. O Cavaleiro dirigiu-se lentamente para a floresta e Alice, imóvel, ficou a acompanhá-lo com os olhos. Lá vai êle cambaleando e caindo como sempre! Caiu agora! Montou de novo! É de tanta bugiganga que leva na garupa...
E assim aos boléus o Cavaleiro chegou ao ponto marcado para a despedida com o lenço. Alice sacudiu o lenço no ar por uns minutos, até perder o Cavaleiro de vista.
— Creio que o satisfiz, disse ela, e agora toca a correr morro abaixo para alcançar o riozinho. Vou finalmente virar Rainha!
Correu. Alcançou a margem do regato.
— Viva! Estou na Oitava Casa! exclamou radiante.
E pulou o riozinho. Caiu do outro lado sôbre uma relva macia.
— Oh, como estou contente de haver chegado! Mas... que é isto em minha cabeça? exclamou, sentindo que qualquer coisa havia caído do céu sôbre sua cabeça e nela se enterrara firme. Qualquer coisa dura e pesada... Alice tirou-a com esforço e viu...
Era uma coroa de ouro!
CAPÍTULO IX A RAINHA ALICE
— Q UE BOM! Que bom! exclamou Alice. Não esperei ficar Rainha tão cedo! — E faço notar a Vossa Majestade! (acrescentou ralhando consigo mesma como era seu costume) que não é próprio de rainha isso de sentar-se na grama.
Levantou-se e pôs-se a caminhar, muito tesinha a princípio, de mêdo que a coroa caísse, mas logo ficou à vontade, vendo que não havia ninguém a observá-la. Sentou-se de novo, dizendo: — Saberei representar o meu papel, quando fôr necessário.
Tudo acontecia de modo tão estranho naquele lugar que Alice não se surpreendeu de ver a Rainha Negra e a Rainha Branca sentadas com ela, lado a lado. Quis perguntar donde tinham vindo, mas achou que talvez fosse impolidez. Entretanto pareceu-lhe que não seria mal indagar se o jogo já havia acabado. E murmurou, olhando timidamente para a Rainha Negra: — Quer ter a bondade de dizer-me se...
Não pôde concluir. A orgulhosa dama a interrompeu com aspereza.
— Só fale quando fôr interrogada, ouviu?
— Mas se tôda a gente seguisse essa regra, respondeu Alice sempre pronta para discutir, não haveria conversação possível, pois que há pessoas, como Vossa Majestade, que nunca interrogam. Se eu realmente fôsse uma Rainha...
— Tolices de menina! replicou a dama interrompendo-a. Depois calou-se por uns instantes, como que refletindo e mudou de assunto. — Que entende você por essa frase — Se eu realmente fosse uma Rainha? — Que direito tem de julgar-se Rainha? Nunca poderá ser Rainha antes de ser aprovada num exame. Trate de fazer êsse exame quanto antes.
— Eu não disse isso, protestou Alice. Disse: Se fôsse uma Rainha. Vossa Majestade ocultou o meu “Se.”
As duas damas entreolharam-se e a Rainha Negra, com um tremelique, disse à Rainha Branca: — Ela alega que disse “Se.”
— Se dissesse só “Se”, estava bem. Mas disse muito mais do que isso, declarou a Rainha Branca. Oh, muito mais do que isso!
— Está vendo? ralhou a Rainha Negra. Trate de só falar a verdade e pense antes de falar. Pense e depois escreva.
— Não julguei que... ia dizendo Alice, mas a Rainha Negra a interrompeu de novo com impaciência.
— o que me aborrece. Você vive julgando. Onde se viu uma simples criança julgar? Isso é bom para os juízes.
Houve um silêncio. Por fim a Rainha Negra convidou a Rainha Branca para o piquenique que Alice ia dar naquela tarde.
— Que piquenique é êsse? perguntou Alice surpreendida. Se sou eu quem vai dar essa festa, creio que o convite deve partir de mim.
— Pois damos a você a oportunidade de realizar êsse piquenique e convidar-nos. Mas acho que você não recebeu muitas lições de boas maneiras.
— Boas maneiras não são ensinadas em lições, replicou Alice. Em lições a gente aprende a somar, diminuir, multiplicar, dividir, e outras coisas assim.
— Sabe somar, menina? perguntou a Rainha Branca. Vamos ver. Quanto é um mais um mais um mais um mais um?
— Não sei. Perdi a conta de tanto um.
— Logo, não sabe somar, disse a Rainha Negra. Vamos ver se sabe diminuir. De oito tirando nove quanto fica?
— De oito não se pode tirar nove, respondeu de pronto Alice, mas...
— Vejo que também não sabe diminuir, disse a Rainha Branca. E dividir? Vamos ver. Divida um pão por uma faca.
— Suponho que... ia dizendo Alice, mas foi interrompida pela Rainha Negra, que respondeu por ela:
— Pão dividido por faca dá pão com manteiga. Voltemos à conta de diminuir. Se de um cachorro tirar-se um osso, que fica?
Alice refletiu e disse: — O osso não fica, porque foi tirado. O cachorro também não fica, porque avança para morder o tirador do osso.
— Quer dizer então que não fica coisa nenhuma?
— Creio que é essa a resposta exata.
— Errado! exclamou a Rainha Negra. Fica a calma do cachorro.
— Como? Não entendo.
— Pois se tiram o osso do cachorro, êste perde a calma e avança para morder. Logo, fica no lugar apenas a calma que o cachorro perdeu! concluiu a grande dama vitoriosamente.
Alice não pôde deixar de refletir que aquela conversa estava asneirenta demais.
— E o ABC? perguntou a Rainha Negra. Sabe o ABC?
— Está claro que sei, respondeu Alice.
— Eu também sei, disse a Rainha Branca. Nós duas costumamos recitar o ABC inteirinho. E agora vou dizer um segrêdo: eu sei ler todas as palavras de uma letra! Não é notável isto? Não desanime, menina. Um dia também poderá chegar a isso.
Alice ainda estava de bôca aberta quando a Rainha Negra propôs uma outra pergunta. — Como se faz pão, diga?
— Eu sei! gritou Alice. Toma-se farinha de trigo...
— Toma-se farinha de onde? interrompeu a Rainha Branca. Onde a colhe você? Num jardim ou numa floresta?
— Em qualquer parte. Na venda da esquina.
— Não sabe. Passemos a outra questão, disse a Rainha Negra. Vejamos língua. Sabe francês? Sabe inglês? Nesse caso diga-me como é Fiddle-de-dee em francês.
— Fiddle-de-dee não é inglês, respondeu Alice que não conhecia semelhante palavra.
— Quem disse isso? Como o prova?
Alice descobriu um meio de atrapalhar a Rainha.
— Diga-me Vossa Majestade o que significa Fiddle-de-dee em inglês que direi como é em francês.
Mas a Rainha Negra empertigou-se tôda no seu orgulho e respondeu: As Rainhas não podem ser perguntadas.
— Preferia que não pudessem fazer perguntas, replicou Alice vitoriosa.
— Nada de brigas! murmurou a Rainha Branca aflita com o tom da conversa. Diga-me, menina, qual é a causa do raio?
— A causa do raio, respondeu Alice imediatamente, certa de que estava certa, é o trovão — não! não! Eu queria dizer que a causa do raio é...
— Muito tarde, para corrigir-se. Errou. Só vale a primeira resposta. Não aceito remendos, disse a Rainha Branca. Mas você falou em trovão e isso me recorda uma tempestade que houve na última terça-feira. Quando digo última terça-feira refiro-me à última terça-feira da coleção de têrças-feiras.
Alice ficou admirada. — Em minha terra, disse, não há coleções de têrças-feiras. Só existe uma.
— Que pobreza! exclamou a Rainha cheia de dó. Aqui temos dias e noites aos dois e três e quatro ao mesmo tempo. Às vêzes no inverno reunimos cinco noites num bloco — para nos aquecer melhor.
— Cinco noites juntas, então, aquecem melhor que uma só? perguntou Alice.
— Está claro. Aquece cinco vêzes mais.
— Mas se são noites de inverno devem esfriar cinco vêzes mais...
— Exatamente. Aquecem e esfriam cinco vêzes mais, do mesmo modo que eu sou cinco vêzes mais rica que você e ao mesmo tempo cinco vêzes mais inteligente!
Alice suspirou. Era impossível entender aquela criatura.
A Rainha percebeu o que ela estava pensando e disse: — Humpty Dumpty também não me entende. — Um dia veio bater à minha porta com um saca-rôlhas na mão...
— Que queria com êsse saca-rôlhas? perguntou a Rainha Negra.
— Queria entrar para ver se estava algum hipopótamo lá dentro. Mas o hipopótamo não estava lá nesse dia.
— Costuma estar lá um hipopótamo? perguntou Alice espantada.
— Sim, sòmente às terças-feiras, respondeu a Rainha. Depois voltou à tempestade. — Oh, foi uma tempestade que ninguém imagina! Parte do teto veio abaixo, deixando o trovão entrar e êle entrou e rolou pela casa inteira, derrubando as mesas e cadeiras e quadros. Eu fiquei tão assustada que até do meu nome esqueci.
Alice refletiu consigo que ela jamais procuraria lembrar-se do seu próprio nome num momento de perigo. De que adiantaria isso? Nada disse, porém, para não afligir a pobre dama, que estava num grande abatimento com a lembrança daqueles horrores.
— Desculpe-a, disse a Rainha Negra dirigindo-se a Alice enquanto tomava as mãos geladas da Rainha Branca. Ela é uma boa criatura, mas não pode evitar de dizer maluquices o tempo todo.
A Rainha Branca olhou para Alice com olhos tímidos, como à espera de que dissesse alguma coisa que a consolasse.
— Não foi bem educada, continuou a Rainha Negra, mas é muito boazinha de gênio. Passe a mão pelos cabelos dela para ver como fica agradada. Faça-lhe uns papelotes. De nada gosta tanto como disso.
Nesse ponto a pobre dama deu um prolongado suspiro e pendeu a cabeça sobre o ombro de Alice. — Estou com sono, murmurou.
— Está cansada a coitadinha! disse a Rainha Negra. Alise-lhe o cabelo, cante-lhe uma cantiga de adormecer nenê, ponha-lhe na cabeça uma carapuça de dormir.
— Não tenho nenhuma carapuça aqui, respondeu Alice, nem sei nenhuma cantiga de adormecer nenê.
— Nesse caso cantarei eu mesma, disse a Rainha Negra. E começou:
Dorme, querida, no colo de Alice;
Depois iremos à festa bonita.
Na cabecinha terás linda fita
Na linda bôca todo um mar de tolice.
— Agora que você ouviu minha canção, cante-a para mim. Também estou com vontade de dormir.
Alice cantou e momentos depois as duas grandes damas roncavam em seu colo.
— Que devo fazer? exclamou Alice atrapalhada. Creio que jamais aconteceu coisa semelhante em tôda a história da humanidade: duas rainhas dormindo no colo de uma terceira! O melhor é acordá-las. Vamos! Acordem, pedras! Já estou cansada de suportar o pêso dessas cabeças. Não sou de ferro.
Não acordaram. Começaram a roncar ainda mais alto. Mas êsses roncos foram tomando forma musical e por fim passaram a significar palavras. Alice, prestando atenção, pôde logo decifrá-las. Nesse momento as duas damas foram-se esvaindo até que desapareceram completamente.
Alice olhou em redor. Viu-se diante dum enorme portão onde havia um letreiro dizendo: RAINHA ALICE. Dum lado do letreiro existia uma campainha marcada: “Para visitantes.” Do outro lado, outra campainha marcada: “Para os criados.”
Alice ficou na dúvida. Que campainha tocar? Ela não era nem visitante, nem criada. Haviam esquecido de pôr ali uma campainha para as grandes damas.
Nisto a porta abriu-se e uma criatura de longo bico enfiou a cabeça para dizer: — É proibida a entrada até à próxima semana. E bam! bateu-lhe a porta na cara.
Alice não desanimou. Tocou as duas campainhas por longo tempo. Por fim um velhíssimo sapo, que estava cochilando sob uma árvore, aproximou-se, coxeando. Usava sobrecasaca amarela e trazia botas de sete léguas.
— Que há? perguntou o sapo em voz grossa.
Alice voltou-se para êle, indignada.
— Onde está a gente desta casa? os criados? Estou cansada de tocar a campainha. Bato e a porta não responde.
— Que porta? perguntou o sapo.
— Esta porta, naturalmente! Não está vendo?
O sapo olhou para a porta com os seus grandes olhos estúpidos; depois aproximou-se e raspou as tábuas da porta com as unhas como para examinar a tinta; depois olhou para a menina de novo.
— A porta não responde? disse êle. Mas que é que você lhe perguntou?
— Que é que eu perguntei? repetiu Alice. Não entendo!...
— Pois estou falando muito claro, disse o sapo. Quero saber que é que você perguntou à porta.
— Nada, seu palerma! gritou Alice com impaciência. Apenas bati nela.
— Não devia ter feito isso, observou o sapo. Essa porta se dói de ser batida. O que ela quer é isto! e, dizendo, deu-lhe um formidável pontapé, retirando-se em seguida para debaixo da sua árvore.
A porta abriu-se; de dentro veio uma voz aguda, que cantava uns versos assim:
Ao mundo maravilhoso do Espelho
Disse Alice: Tenho um cetro na mão, uma co- roa na cabeça
Que venham tôdas as criaturas jantar com a Rainha Negra,
Com a Rainha Branca e comigo!
Ao que centenas de vozes ajuntaram em côro:
E então que se encham os copos depressa, de- pressa,
e ponham-se gatos no café e ratos no chá,
e em homenagem à Rainha Alice
bebam-se trinta vêzes três saúdes!
Seguiu-se uma barulhada de aplausos, enquanto Alice pensava: “Trinta vêzes três, noventa! Será que alguém está contando?” Depois seguiu-se outro silêncio e a voz aguda cantou outro verso:
Criaturas do Espelho, disse Alice, cheguem-se!
É tempo de verem-me e de ouvirem-me.
Grande honra para vocês é terem jantar e chá
Com a Rainha Negra, a Rainha Branca e eu!
O côro fêz-se ouvir novamente:
Encham-se os copos com melado e tinta
Ou qualquer outra coisa boa de beber.
Misture-se areia com limonada e lã com vinho
E à saúde da Rainha Alice bebam-se noventa
vêzes nove vêzes.
— Noventa vêzes nove vêzes! repetiu Alice com desespêro. Oh, isso não acabará mais. Prefiro entrar imediatamente... e entrou.
Fêz-se o silêncio. Ao penetrar no espaçoso salão Alice viu que em redor da mesa do banquete havia uns cinqüenta convivas de todas as espécies, animais, pássaros e flôres. “Foi bom que viessem antes de ser convidados, pois eu não saberia a quem dirigir os convites", pensou ela.
Havia três cadeiras no tôpo da mesa, duas ocupadas pelas Rainhas e a do meio vazia. Alice ocupou-a, um tanto incomodada com o silêncio reinante e ansiosa por que o rompessem. Quem o fêz foi a Rainha Negra.
— Você perdeu a sopa e o peixe, disse ela. Tragam o assado! ordenou em seguida aos garçons, que imediatamente puseram diante de Alice uma perna de carneiro. A menina ficou tonta, não sabendo como servir-se.
— Está acanhada? disse a Rainha Negra. Deixe-me apresentá-la a esta perna de carneiro. Alice... Sr. Carneiro. Sr. Carneiro... Alice.
A perna de carneiro ergueu-se no prato e fêz um cumprimento, que a menina retribuiu com a mesma amabilidade.
— Quer que a sirva duma fatia? perguntou ela às duas Rainhas, tomando a faca e o garfo.
— Oh, não! exclamou a Rainha Negra com energia. Não é da etiqueta trinchar as criaturas que nos são apresentadas. E deu ordem aos criados para retirarem o carneiro e trazerem o pudim.
— Não quero ser apresentada ao pudim, gritou incontinênti Alice, do contrário ficarei sem jantar. Aceitam um pedaço?
Mas a Rainha Negra fingiu-se de desentendida e a apresentou ao pudim. Alice... Sr. Pudim. Sr. Pudim... Alice. E logo em seguida os criados retiraram o pudim, como haviam feito ao carneiro.
Alice não achou direito que só a Rainha Negra pudesse dar ordens, e para ver o que acontecia resolveu dar ordens também. Criado, disse ela, traga de novo o pudim! O pudim veio, mas cresceu tanto no caminho que Alice ficou atrapalhada com o seu tamanho. Mesmo assim deu um jeito e cortou um pedaço para o oferecer à Rainha Negra.
— Que impertinência! exclamou o pudim. Queria muito saber o que faria se eu também cortasse um pedaço de você!
O pudim disse isso numa voz grossa e gordurosa, que deixou a menina atrapalhada e de bôca aberta.
— Fale! Responda! gritou a Rainha Negra. É feio isso de deixar que o pudim fale sòzinho.
Alice resolveu falar. — Como Vossas Majestades sabem, eu ando muito cheia das poesias que me recita ram hoje, começou ela um tanto amedrontada do silêncio que se tinha feito e de tantos olhos fixos em sua pessoa. Mas o curioso é que tôdas essas poesias eram a respeito de peixes. — Poderão Vossas Majestades dizer-me por que motivo gostam tanto de peixe por aqui?