Tradução humana · Tradução de Monteiro Lobato (†1948) · Fonte: Wikisource · Domínio público
Quem respondeu à pergunta foi a Rainha Negra, mas respondeu sem responder, pois o que disse foi: — Por falar em peixe (e para dizer isto encostou a bôca ao ouvido da menina), Sua Majestade a Rainha Branca sabe uma adivinhação em verso exclusivamente sobre peixes. Quer que ela a recite?
— Sua Majestade a Rainha Negra é muito gentil, murmurou a Rainha Branca no outro ouvido de Alice, mas é verdade o que ela diz. Essa adivinhação vai ser um sucesso. Quer que a recite?
— Com todo o prazer a ouvirei, respondeu Alice polidamente.
A Rainha Branca sorriu de prazer e deu tapinhas no rosto da menina. Depois recitou:
Primeiro, o peixe tem que ser pescado.
Isso é fácil: um nenê pode pescá-lo.
Depois, precisa ser comprado.
Isto é fácil: com uns níqueis é comprado.
Agora, preparem-me o peixe!
Fácil, questão de poucos minutos.
Ponham-no no prato!
Facílimo, se existe por ali algum prato.
Traga-o aqui! Quero comê-lo!
É fácil pôr um prato de peixe na mesa.
Destampe a sopeira!
Oh, isto já não é nada fácil. Não posso!
Por quê? Porque a tampa está grudada.
Pergunta: o que é mais fácil fazer
— destampar a sopeira ou... pedir peixe assado?
— Pense um minuto, não mais do que um minuto, disse a Rainha Negra. Enquanto isso vamos beber à sua saúde. E erguendo o copo: À saúde da Rainha Alice!
Todos a acompanharam naquela saudação, cada qual bebendo a seu modo — um virando o copo em cima da cabeça e aparando com a língua o vinho que escorria, outro derramando o vinho na mesa e lambendo-o; três cangurus derramaram-no no carneiro assado e beberam-no misturado ao môlho.
— Você tem agora que retribuir a saudação com um lindo discurso, murmurou no ouvido de Alice a Rainha Negra.
— Nós a ajudaremos, acrescentou a Rainha Branca logo que a menina, um tanto amedrontada, se ergeu para falar.
— Obrigada. Falarei sem ajutório de ninguém, replicou Alice.
— Não faça cerimônia, aceite os meus serviços, insistiu a dama.
A menina ergueu-se para falar. Coisa difícil, pois as duas Rainhas a puxavam cada uma para o seu lado e depois a suspenderam no ar. — Ergo-me para retri buir a saudação que me acaba de ser feita, começou ela e notou que realmente se erguia diversas polegadas acima do chão, tendo de agarrar-se aos rebordos da mesa para não ir bater com a testa no fôrro.
— Cuidado! exclamou aflita a Rainha Branca, segurando Alice com ambas as mãos. Vai acontecer qualquer coisa!
Aconteceram coisas espantosas! As velas cresceram até ao teto, lembrando feixes de varas com fogos de artifício nas pontas. As garrafas tomaram cada uma dois pratos que ajeitaram no gargalo como asas e, fazendo dos garfos pernas, dispararam a correr e voar em tôdas as direções. “Perfeitas aves!”, pensou consigo Alice, que ainda conseguia pensar naquela terrível confusão.
Nesse momento ouviu um “mé” ao lado e, voltando-se para ver o que sucedera a qualquer das damas, deu com a perna de carneiro sentada no lugar da Rainha Branca. — Estou aqui! gritou uma voz de dentro da terrina de sopa. Alice voltou-se para ver quem falava: a Rainha Negra sorria com a cara inteira, já mergulhada até ao pescoço na sopa.
Não havia um momento a perder. Quase todos os convivas estavam dentro dos pratos ou sopeiras, e a colher de arroz vinha aos pulos em direção da menina, fazendo caretas e intimando-a a sair do caminho.
— Isto não pode continuar! exclamou Alice, levantando-se e agarrando a toalha com ambas as mãos. Vai tudo raso! berrou, e deu um grande puxão na toalha. Foi um terremoto! Pratos, talheres, assados, doces, velas, vasos de flôres, tudo rolou mesa abaixo formando um monte de cacos no chão.
— E quanto a você, continuou Alice, colérica, voltando-se com ar feroz para a Rainha Negra, que considerava a causa de tôda aquela trapalhada. Mas... que fim levara a Rainha Negra? Alice viu que a grande dama se tinha transformado numa minúscula boneca de celulóide, que dançava e pulava em sua frente.
— Quanto a você, continuou Alice pulando em cima da mesa para apanhá-la, vou reduzi-la ao que merece — a um gatinho! Espere aí!...
CAPÍTULO X A SACUDIDELA
A lice agarrou a boneca de celulóide em que a Rainha Negra se havia transformado. Não encontrou resistência nenhuma. Apenas a cara da boneca foi mudando e os olhos foram ficando verdes. Depois o corpo da boneca foi-se tornando macio e peludo...
CAPÍTULO XI MIAU! MIAU!
...e realmente a Rainha-boneca virou num gatinho.
CAPÍTULO XII SONHO?
— V ossa Majestade não deve rosnar tão alto, disse Alice esfregando os olhos sonolentos e dirigindo-se respeitosamente ao gatinho. Você despertou-me dum lindo sonho, ao qual estêve presente, olhando-me o tempo todo. Foi uma viagem extraordinária pelo País do Espelho, sabe?
É hábito de os gatinhos (havia Alice observado tempos antes) responder com rosnidos a tudo quanto a gente lhes diz. “Se os gatos rosnassem para dizer Sim e miassem para dizer Não, seria possível sustentar com êles uma conversação. Mas como conversar com quem rosna o tempo todo, e portanto respondeu só dum jeito.”
O gatinho havia rosnado em resposta à sua pergunta. Como saber se havia respondido sim ou não?
Em vista disso a menina desistiu da conversa e olhou para o tabuleiro de xadrez, que estava sôbre a mesa. Depois tomou dêle a Rainha Negra e a pôs no tapête, bem defronte ao gatinho.
— Vamos, Kitty, disse ela. Confesse que você se transformou nessa Rainha durante todo o meu sonho.
Mais tarde Alice explicou à sua irmã que ao fazer isso o gatinho virara o rosto, como pretendendo não ser verdade que se houvesse transformado em alguma rainha. Mas que o fêz de jeito a dar a perceber que tinha de fato virado rainha.
— Sente-se um pouco mais durinho, disse-lhe ela, assim, assim. E agora tome um beijo em honra de ter sido rainha.
Depois, voltando o rosto, deu com o gatinho branco, que ainda fazia a sua toalete, lambendo a pata e esfregando-a no focinho: — Olá! Com que então andou disfarçado em Rainha Branca, hein? Mais cuidado com êle, Diná! Saiba que êsse seu filho costuma virar rainha quando quer.
Alice estava sentada no tapête, com os três bichinhos no colo.
— Diga-me, Diná, não foi você que se transformou em Humpty Dumpty? Acho que sim, mas não ande a espalhar isso, pois não tenho certeza.
Depois, voltando-se para Kitty:
— Uma coisa você teria gostado muito no meu sonho: as poesias a respeito de peixes. Como gato gosta muito de peixe, todos os dias à hora do jantar repetirei a você os versos da Foca e o Carpinteiro . Há ostras em quantidade nesses versos, ostras deliciosas!
Parou um pouco, pensativa. Depois continuou:
— Tenho uma dúvida, Kitty. Não estou certa sôbre um ponto. Qual de nós foi o que sonhou? É uma dúvida muito séria. Pare de lamber essa patinha e responda. Foi você quem sonhou, ou fui eu, ou foi o Rei Negro? O Rei Negro fazia parte do meu sonho e portanto eu fazia parte do sonho dêle também. Seria o Rei Negro quem sonhou? Você, que na qualidade de Rainha Negra era a espôsa dêle, deve saber. Oh, Kitty! Ajude-me a sair dêste embaraço!
Mas o gatinho prêto limitou-se a lamber a pata e a esfregá-la de novo no focinho. Ou não entendera a pergunta de Alice ou de preguiça não quisera responder.
Quem afinal de contas havia sonhado?