Alice no País do Espelho (Trad. Lobato, 2ª edição)

Tradução humana · Tradução de Monteiro Lobato (†1948) · Fonte: Wikisource · Domínio público

O PROBLEMA DE XADREZ DE ALICE

1. Alice encontra a Rainha Negra.

2. Alice na terceira casa da Rainha (por trem)

3. Alice encontra a Rainha Branca (com o xale)

4. Alice na 5.ª casa da Rainha (loja da ovelha e rio)

5. Alice na 6.ª casa (Humpty Dumpty)

6. Alice na 7.ª casa (floresta)

7. O Bispo Branco toma o Bispo Negro

8. Alice na 8.ª casa (coroação)

9. Alice vira Rainha

10. Castelo de Alice (festa)

11. Alice toma a Rainha Negra e

1. Rainha Negra na 4.ª casa de Cavalo Negro

2. Rainha Branca na 4.⁠ª casa do Bispo da Rainha

3. Rainha Branca na 5.ª casa do Bispo da Rainha

4. Rainha Branca na 8.ª casa do Bispo do Rei (ovos na prateleira)

5. Rainha na 8.ª casa do Bispo da Rainha

6. Cavalo Negro na segunda casa do Rei (xeque)

7. Cavalo Branco na 5.ª casa do Bispo do Rei

8. Rainha Negra na casa do Rei (exame)

9. Castelo das Rainhas

10. Rainha Branca na 6.ª casa da

CAPÍTULO I A CASA DO ESPELHO

D uma coisa Alice estava certa: de que o gatinho branco nada tinha que ver com aquilo. A culpa era tôda do gatinho prêto. Isso porque enquanto o gatinho prêto estava reinando na sala, o gatinho branco estêve nas unhas de sua mãe Diná, a sofrer uma lavagem de cara.

Diná lavava os seus filhotes assim: agarrava um dêles pela orelha e o fixava com uma das patas ao chão; com a outra esfregava-lhe a cara, a começar pelo focinho. E êles se submetiam a essa toalete muito quietos, rosnando apenas, pois sabiam que a esfrega era para bem dêles.

O gatinho prêto havia passado a manhã na sala, sôlto, brincando, e ainda lá estava aos pinotes, enquanto Alice, meio adormecida em sua poltrona, falava sòzinha, com os olhos semi-abertos fixos no tapête onde jazia um novêlo de lã quase todo desenrolado.

— Olá, seu maroto! murmurou ela agarrando o gatinho pelo pescoço e beijando-o para mostrar a sua contrariedade. Depois, voltando-se para Diná, disse: — Olhe, é preciso dar melhor educação aos seus filhos, ouviu? Ainda está em tempo...

Alice tomou do chão o novêlo de lã, que pôs no colo, ao lado do gatinho prêto. Ia enrolá-lo de novo, trabalho que não rendia, porque Alice não parava de falar consigo própria e distrair-se, achando graça na atenção com que o gatinho acompanhava aquêle serviço. Às vêzes procurando ajudá-la êle a atrasava ainda mais.

— Sabe que dia é amanhã? perguntou-lhe a menina. Não sabe! Nunca sabe nada, êste bobinho. Pois teria sabido, se tivesse estado comigo à janela. Teria visto as crianças amontoarem na rua lenha para uma fogueira o que quer dizer que estamos em vésperas de São João. Teremos uma bela fogueira amanhã, vai ver.

Enquanto falava ia enrolando a lã em redor do pescoço do gatinho, que de súbito se debateu e fêz de novo cair o novêlo.

Sem erguer-se da poltrona Alice começou a ralhar com o maroto.

— Eu devia ficar zangada, sabe? Você é o tipo do atrapalhador de serviço. Que faria se eu abrisse a janela e o atirasse na neve, hein? Olhe, nem mais um pio , está ouvindo?

E com o dedo indicador erguido:

— Vou passar em revista tôdas as suas más ações de hoje. Em primeiro lugar você miou muito quando Diná o esfregava, de manhã. Não negue. Ouvi perfeitamente. Que diz? Como? A pata de Diná esbarrou em seu olhinho direito? É? Mas de quem foi a culpa? Por que ficou de ôlho aberto? Não venha com essa escapatória, que não aceito. Vamos agora à segunda má ação. Você puxou o gatinho branco pelo rabo quando êle estava a beber o seu pires de leite. Quê? Estava com sêde? Êle também estava — e havia chegado primeiro. Agora, a terceira má ação: desenrolar o meu novêlo de lã. Três culpas, Kitty, e ainda não foi punido por nenhuma! Estou juntando os castigos para quarta-feira.

Depois, pensando nas suas próprias reinações, continuou:

— Suponha-se que êles juntem os meus castigos. Que fariam no fim do ano? Com certeza me mandariam para a cadeia. Ou — deixe-me ver — suponha-se que cada castigo consista em me deixarem sem jantar. Então, no dia do castigo somado, eu teria de ficar sem cinqüenta jantares, pelo menos...

E para o gatinho:

— Está ouvindo o bater da neve na vidraça, Kitty? Gosto dêsse barulhinho. Parece que a neve está beijando os vidros do outro lado, não? Será que a neve beija assim as árvores e os campos porque os ama ? Depois ela os recobre duma camada branquinha, talvez dizendo: “Durmam, queridos, durmam bem até que o verão retorne.” E quando tudo renasce de novo ao calor do verão, Kitty, as árvores e os campos se vestem de verde e dançam — dançam tão lindo quando o vento sopra!... Oh, eu quero que seja assim! concluiu Alice deixando cair o novêlo para bater palmas de alegria. Quero que as árvores realmente comecem a dormir no outono quando as fôlhas entram a amarelar!...

Depois:

— Kitty, você sabe jogar xadrez? Não se ria. Estou falando sério. Pergunto porque quando eu estava a jogar xadrez inda há pouco você olhava para o tabuleiro, como quem entende do jôgo. E quando eu disse: “Xeque!” você rosnou. Realmente, foi um belo xeque, Kitty, e eu teria ganho a partida se não fôsse aquêle bispo negro com o qual não contei. Faz de conta, Kitty...

Impossível tomar nota da metade das coisas que Alice dizia quando vinha com um dos seus faz-de-contas . Justamente na véspera havia ela tido uma séria disputa com sua irmã por causa dum faz-de-conta . “Faz de conta que somos reis e rainhas”, dissera Alice à irmã, que imediatamente a interrompeu, alegando que como eram apenas duas , não podiam ser reis e rainhas. “Muito bem”, replicou Alice sem se atrapalhar. “Você, que se julga singular, ficará sendo um rei ou uma rainha, à escolha. Eu ficarei sendo o resto .”

Outra vez Alice realmente apavorou a sua velha ama, gritando-lhe de súbito ao ouvido: “Ama, faz de conta que sou uma hiena e você, um osso!”

Mas estas coisas estão nos afastando da cena de Alice com o gatinho. Voltemos atrás. — Faz de conta que você é a Rainha Branca, Kitty. Se se puser de pé e cruzar os braços, fica tal qual uma rainha de xadrez. Experimente, vamos ver! E Alice tomou a Rainha Branca do tabuleiro para a pôr diante do gatinho como modêlo. De nada adiantou. O gatinho não sabia cruzar os braços. Para castigá-lo Alice o colocou em face do espelho a fim de que se visse a si próprio e se envergonhasse. — E se não cruza os braços direitinho disse-lhe ela — atiro-o para dentro da Casa do Espelho. Gostaria disso?

Em seguida explicou:

— Escute. Vou contar as minhas idéias a respeito da Casa do Espelho. Antes de mais nada, porém, note que a sala que se vê no espelho é esta mesma sala, mas ao contrário . Posso ver tudo da sala, menos o que está atrás da chaminé. Oh, eu queria tanto ver isso!... Queria saber se lá atrás há fogo durante o inverno. A gente nunca sabe se há fogo senão quando aparece fumaça — e então a Casa do Espelho aparece cheia de fumaça. Mas isso pode ser falso. Pode parecer que há fogo sem haver fogo. E os livros da Casa do Espelho? São iguais aos livros comuns mas com as letras ao contrário. Já fiz a experiência. Quereria você, Kitty, viver na Casa do Espelho? Não sei se encontraria pires de leite lá. Talvez leite de espelho, que é leite ao contrário, não sirva para beber. Mas, oh, Kitty, deve ser lindo viver na Casa do Espelho! Vamos experimentar. Faz de conta que já conseguimos penetrar lá dentro. Ande comigo.

Alice trepou à chaminé, varou o vidro do espelho e viu-se na casa dêle. A primeira coisa que fêz foi olhar se havia fogo na chaminé, do outro lado — e ficou satisfeita de ver que havia. “Bravos! Assim ficarei aqui tão quentinha como na outra sala”, pensou Alice, “ou ainda mais quente, porque não haverá ninguém para me impedir de me aproximar demais do fogo.”

E então Alice começou a observar todas as coisas e notou que o que era igual ao que havia na sala comum não tinha interêsse para ela, visto ser igual, mas que o resto era bem diferente. As pinturas das paredes, perto do fogo, por exemplo, pareciam vivas. O relógio da chaminé tinha o aspecto dum velhinho a lhe fazer caretas.

“ Êles não conservam esta sala tão bem arrumada como a lá de casa”, pensou Alice ao ver diversas peças de xadrez caídas nas cinzas da chaminé. Logo depois observou que essas peças estavam vivinhas e passeando duas a duas.

— Aqui está o Rei Branco e com êle a Rainha Branca, murmurou Alice baixinho para não assustá-los. Lá estão o Rei Negro e a Rainha Negra, sentados no atiçador de fogo e perto dêles, duas Torres de braços dados. Será que podem ouvir-me? Que não podem ver-me, sei, pois chego bem pertinho sem que se assustem. Creio que fiquei invisível...

Nisto alguma coisa começou a mexer-se na mesa, atrás de Alice. Voltando o rosto viu ela um Peão Branco que rolava impaciente e batia o pé. Ficou atenta, a ver o que sucedia.

— Meu filho! gritou a Rainha Branca precipitando-se para o lado do peão com tal ímpeto que derrubou o Rei na cinza. Meu lírio! Meu imperial gatinho! gritava ela tentando transpor a grade da chaminé.

— Imperial malandro! murmurou o Rei a esfregar o nariz amarrotado pela queda. Bem que tinha êle razão de estar danado com a Rainha, pois ficara coberto de cinzas da cabeça aos pés.

Ansiosa por ser útil, Alice tomou a Rainha e a colocou no tabuleiro, perto do peãozinho que esperneava com ataque. Mas o fato de ser erguida do chão até à mesa fêz a Rainha perder o fôlego, de modo que ao chegar permaneceu uns minutos arquejante, sem poder abraçar o barulhento filhinho. Logo porém que recobrou completamente o fôlego, gritou para o Rei, que ficara embaixo, na cinza: Cuidado com o vulcão!

— Que vulcão? perguntou o Rei, olhando ansioso para o lado do fogo como se só dali pudesse aparecer um vulcão.

— O vulcão que me arrojou aqui! gritou a Rainha sempre aflita. Suba, mas pelo caminho natural. Evite ser trazido pelo vulcão.

Alice pôs-se a olhar para o Rei. O coitado subia lentamente, com grande esfôrço.

— Assim levará horas para chegar, disse-lhe ela. Quer que o ajude?

O Rei nada respondeu. Estava provado que não a ouvia, nem a via. Em vista disso Alice o tomou entre os dedos e o ergueu até ao tabuleiro, mas lentamente e não de golpe, como fizera com a Rainha, de modo que êle pudesse ir-se acostumando com as diferenças de altitude. E antes de pô-lo no tabuleiro achou conveniente espaná-lo da cinza que lhe recobria o corpo.

Ninguém pode fazer idéia da cara do Rei ao ver-se suspenso no ar por invisível mão e, além disso, espanado. Seus olhos arregalaram-se e sua bôca abriu-se tôda.

— Oh, nada de cara tão feia! exclamou a menina, esquecida de que o Rei era surdo. Você me faz rir tanto que acabará caindo no chão. Meus dedos já estão perdendo a força... E feche essa bocarra, para não engolir cinza.

Assim dizendo, Alice acabou de espaná-lo e o colocou no tabuleiro. Ao ser largado lá o Rei caiu de costas. Vendo-o imóvel e como sem sentidos, Alice, muito aflita, correu em busca de água para lhe borrifar o rosto. Não havia água. Alice, porém, passou mão num tinteiro e voltou correndo para despejá-lo na cara do Rei. Felizmente o encontrou já voltado a si e cochichando com a Rainha, tão baixo que Alice mal podia ouvir.

— Tive tanto mêdo que esfriei até ao fundo dos ossos, dizia êle.

— Você nunca teve ossos, meu caro... respondeu a Rainha.

— O horror daquele momento!... prosseguiu o Rei. Jamais poderei esquecê-lo...

— Esquece, sim. Você é um grande esquecido. Para que não esqueça deve tomar nota.

O Rei aceitou o conselho e tirando do bôlso um enorme livro de notas começou a escrever com um lápis aquêle horror que sentira. Vendo as suas dificuldades, Alice resolveu ajudá-lo. Veio para trás dêle e segurou na ponta do lápis para o guiar. O pobre Rei ficou atrapalhado e por alguns instantes lutou em silêncio com o lápis. Alice, porém, que tinha mais fôrça, venceu.

— Tenho que arranjar outro lápis, disse o rei por fim. Este está muito pesado e escreve por si coisas que não tenho intenção de escrever.

— Que coisas êle escreve? perguntou a Rainha com os olhos no livro de notas, onde leu: O Cavalo Branco está escorregando do atiçador. Êle equilibra-se mal. Depois disse: — Mas isto não pode ser a nota do horror que você sentiu, meu caro!

Havia na mesa, perto de Alice, um livro, e enquanto a menina permanecia sentada a observar o Rei (Alice ainda estava com o tinteiro na mão para caso o Rei desfalecesse outra vez), voltou-lhe as folhas para ler algum pedacinho. O livro, entretanto, era escrito numa língua desconhecida, como se poderá ver por esta amostra:

!sárt-sáz, sárt-sáZ! siod, mU! siod, mU

sáz - ra on uinuz adapse A

!sárt - uiac ortsnom od açebac A

... sárt arap odnaetoniP

— Parece um lindo verso, disse consigo Alice, que a princípio nada entendera. Quem sabe se está ao contrário e com um espelho poderei ler direito? Vamos fazer a experiência. Para isso tenho que passar à outra sala. Sim sim, antes, porém, quero dar uma vista dolhos pelo jardim.

Mal o pensou e já o pôs em prática. Deixou a sala a correr, descendo pelo corrimão em vez de descer pela escada. Essa história de descer por escadas é coisa de gente velha. Desceu voando e num segundo foi parar no vestíbulo que dava para o jardim.

CAPÍTULO II O JARDIM VIVO

N O ALTO daquele morro eu poderia ver o jardim muito melhor, pensou Alice. Vou tomar por êste caminho. Espere! interrompeu-se, depois de haver dado uns passos. Este caminho em ziguezague é um perfeito saca-rôlhas, de tanto que torce dum lado e doutro. Sim, torce, mas sempre subindo em direção do morro. Não! Não sobe, não! Ora sobe, ora desce rumo à casa. Creio que errei e que tenho de tomar outra estrada.

Alice continuou a caminhar para o morro, mas ia sempre descendo e subindo, ora para a direita, ora para a esquerda. Errava sempre. Parecia que alguma coisa a puxava para o lado da casa. Em certo momento, ao fazer uma curva, deu com o nariz na parede.

— Arre! Que tanta insistência, casa! Não quero voltar ainda, estou de viagem para o morro. Se entro, adeus minhas aventuras!

Dizendo isto Alice deu as costas à casa, com a idéia de seguir em linha reta até alcançar o morro. — Creio que acertei agora, murmurou. — É só seguir firme em linha reta. Mas nem bem havia pensado isto e já o caminho deu um tranco violento, que a fêz ir parar de novo na porta da casa.

— Também é demais! exclamou Alice irritada. Nunca vi casa tão intrometida e oferecida como esta!...

Mas como ainda estava avistando o morro, deliberou insistir. Pôs-se a caminhar, muito tesinha e zangada, e caminhou assim um bom pedaço até que esbarrou num canteiro de margaridas com uma touceira de lirios no centro.

— Amigo Lírio, disse ela, dirigindo-se ao que se balançava mais graciosamente em sua haste, que pena as flôres não falarem!

— Falamos, sim, respondeu o Lírio, mas só quando vale a pena.

Tão espantada ficou Alice com a resposta que emudeceu por uns instantes; por fim, como o Lírio nada mais dissesse, limitando-se a balançar-se em sua haste, pôde Alice perguntar em voz tímida, quase em murmúrio: — E tôdas as flôres falam?

— Tão bem como você, respondeu o Lírio, e falam até mais alto.

— Mas nunca falamos primeiro, declarou uma Rosa ao lado, e nós estávamos querendo que você começasse. Eu havia dito comigo, logo que você apareceu: — O rosto desta menina agrada, embora não pareça rosto duma menina inteligente. Também a sua côr é boa.

— Eu não dou importância a côr, disse o Lírio, que era branco. Mas acho que suas pétalas (referia-se ao cabelo de Alice) deviam ser mais crêspas.

Alice, que não gostava de ser criticada, pôs-se a fazer novas perguntas para mudar de conversa.

— Vocês não têm mêdo de serem plantas aqui, sem ninguém para os defender?

— Temos aquela árvore acolá, que toma conta de nós, explicou a Rosa.

— E que pode fazer uma árvore em caso de perigo?

— É um pé de Unha-de-Gato. Arranha, respondeu a Rosa.

— E faz miau, miau, disse uma margaridinha. Não sabia disso?

— Ouviu-se em seguida um côro de miaus . Tôdas as margaridinhas do canteiro começaram a imitar o mio do gato, enchendo o ar com as suas vozinhas finas.

— Silêncio! gritou o Lírio furioso, balançando-se em sua haste com raiva. Estas bôbas sabem que não posso alcançá-las, por isso abusam! berrou êle danado.

— Não faça caso, disse a menina em tom de acomodação. E voltando-se para as margaridinhas barulhentas lhes murmurou ao ouvido: — Se vocês não calam a bôca, colho-as tôdas já!

Fêz-se o silêncio num instante e diversas margaridinhas vermelhas ficaram brancas de mêdo.

— As margaridinhas são umas sirigaitas, murmurou o Lírio inda zangado. Quando alguém fala elas falam também, tôdas a um tempo.

— Estou mas é espantada de ver como vocês falam corretamente! disse a menina. Estive em muitos jardins sem que jamais visse nenhuma flor falante. Nem sabia que semelhante coisa fôsse possível. Por que isso? Por que só as flôres daqui falam?

— Ponha a mão na terra do canteiro que saberá, respondeu o Lírio.

Alice colocou a mão na terra do canteiro. — Terra dura, disse ela. — Mas não posso compreender que tem uma coisa com outra.

— Na maior parte dos jardins, explicou o Lírio, os jardineiros afofam demais a terra. Isso faz que as flôres vivam dormindo de gôsto — e quem dorme não fala.

A razão pareceu boa a Alice, que se contentou.

— Nunca havia pensado nisso...

— Em minha opinião, disse a Rosa em tom severo, você nunca pensou em tôda a sua vida.

— Também eu posso declarar que nunca vi ninguém com ar mais tolo, disse uma violetinha que ainda não havia metido o bedelho na conversa, e o disse tão inesperadamente que Alice deu um pulo para trás.

— Cale a bôca! interveio o Lírio. Você nunca viu coisa nenhuma na sua vida. Vive com a cabeça metida entre as folhas, lá perto do chão, e sabe tanto do mundo como um botão que ainda não se abriu.

A violetinha encolheu-se, envergonhada.

— Há mais gente neste jardim além da minha pessoa? perguntou Alice para mudar de assunto.

— Há, sim, há uma flor que sabe mover-se tal qual você, respondeu a Rosa.

— Igual a mim? perguntou Alice, ansiosa com a idéia de que pudesse andar por ali uma outra menina.

— Sim, ela tem êsse mesmo jeito desajeitado, embora seja negra e tenha as pétalas mais curtas, parece-me.

— Tem as pétalas cerradas como as dálias, observou o Lírio, e não sôltas ao vento como você.

Isso mesmo. Você está com as pétalas sôltas porque já anda murchando, opinou a Rosa.

A idéia que as flores faziam a seu respeito não agradou à menina, que ainda uma vez tratou de mudar de assunto.

— Mas vamos lá, disse ela. Essa tal criatura aparece sempre por aqui? perguntou.

— Creio que iremos vê-la dentro em breve. Usa coroa.

— Onde?

— Na cabeça. Onde mais? Só me admiro de que você também não use coroa. Supus que tôdas as criaturas da sua espécie as usassem.

— Lá vem ela! gritou de repente um goivo. Ouço-lhe o tunque-tunque dos passos no pedregulho.

Alice olhou na direção apontada e viu a Rainha Negra do xadrez. “Está mais crescida”, observou consigo notando que em vez das três polegadas, que tinha quando a salvou das cinzas da chaminé, estava ela agora mais alta cinco palmos.

— Foi o ar puro dêste jardim que fêz isso, explicou a Rosa. O nosso ar aqui é uma maravilha!

Apesar do gôsto que tinha em conversar com as flôres, Alice achou mais interessante ir dar uma prosa à Rainha e despediu-se.

— Não vá por aí, disse a Rosa. Se quer encontrar-se com ela, siga pelo caminho oposto.

Tal recomendação pareceu à menina tolice; entretanto calou-se e continuou a caminhar na direção da Rainha. Com grande surprêsa sua, porém, perdeu-a de vista logo depois e achou-se de novo na porta da casa. Aborrecida, Alice fêz meia volta. Enxergou a Rainha ao longe e insistiu em chegar até ela por meio dum estratagema, que foi, como aconselhara a Rosa, caminhar em sentido contrário.

Acertou. Depois dum minuto de marcha encontrou-se cara a cara com a Rainha, justamente em cima do tal morro que tanto lutara por atingir.

— Donde vem você? indagou a Rainha Negra. E para onde vai? Levante a cabeça, fale com calma. Não fique assim a torcer os dedos.

Alice desculpou-se, dizendo que havia perdido o seu caminho.

— Não sei o que você entende por seu caminho. Todos os caminhos aqui são meus, disse a Rainha. Mas donde vem, afinal de contas? repetiu em tom mais amável. Seja delicada na resposta. Isso valerá alguma coisa.

Alice admirou-se da recomendação e vacilou na resposta, o que fêz a Rainha insistir.

— Vamos, responda! disse ela olhando para o relógio. É tempo. Abra mais a bôca e quando falar diga sempre Vossa Majestade.

— Eu apenas queria conhecer este jardim, Majestade, gaguejou a menina.

— Está direito, aprovou a grande dama dando tapinhas na cabeça de Alice. Entretanto êste jardim não passa dum matagal em comparação com os jardins que eu conheço.

Sem discutir êsse ponto, Alice continuou na sua explicação, dizendo que andara em procura do caminho que conduzia ao morro.

— Morro! exclamou a Rainha com desprêzo. Conheço morros perto dos quais êste não passa dum queno buraco.

— Não pode ser! exclamou Alice animando-se a contradizê-la. Um morro jamais poderá parecer um buraco. Isso é bobagem...

A Rainha sacudiu a cabeça e disse:

— Você pode chamar a isto bobagem, mas eu tenho ouvido bobagens perto das quais esta pode ser considerada sabedoria igual à dos dicionários.

Receosa de que a Rainha estivesse ofendida, Alice imitou-se a fazer uma saudação de cabeça. Em seguida as duas caminharam em silêncio até o alto do morro.

Por alguns minutos a menina se manteve calada, com os olhos postos na paisagem que dali se descorti nava. Linda paisagem! Numerosos riozinhos corriam em linha reta e cortavam-se uns aos outros, formando lotes de terreno quadradinhos iguaizinhos, divididos por cêrcas vivas.

— Êste campo está dividido tal qual um tabuleiro de xadrez, murmurou Alice por fim. Deve haver gente movendo-se nêle. Sim! Há! É uma partida de xadrez, uma grande partida de xadrez que está sendo jogada no mundo, porque isto que tenho debaixo dos olhos é o mundo, não me resta a menor dúvida... Oh, que engraçado! Como desejaria ser uma das pedras dêsse xadrez! Podia começar peão — embora preferisse ser rainha.

Pensando isto, Alice olhou com o rabo dos olhos para a Rainha Negra, a qual sorriu, muito agradada, e disse:

— Facílimo. Poderá ser o peão da Rainha Negra, começando a partida na segunda fileira de “casas” (cada quadrado no tabuleiro de xadrez se chama uma casa); quando alcançar a oitava fileira, virará Rainha.

A conversa foi interrompida aí porque de súbito ambas começaram a correr. Quando mais tarde Alice procurava recordar-se disto, atrapalhava-se. Não podia lembrar-se de como a coisa começou. Apenas lembrava-se de que correra de mãos dadas com a Rainha, a qual disparara tão rápida que ela mal a podia acompanhar. — Mais depressa! Mais depressa! exclamava a Rainha todo o tempo, sem que Alice nada pudesse responder por falta de fôlego. O mais curioso de tudo era que as árvores (e as mais coisas que as rodeavam) nunca saíam do lugar.

“Será que tudo corre juntamente conosco?” pensou Alice consigo. E a Rainha, como que adivinhando êsse pensamento, retrucou: — Mais depressa! Não pense em coisa nenhuma.

Alice não pensava em pensar, sentindo até que nunca mais conseguiria pensar coisa nenhuma em sua vida, tal era a falta de fôlego que a atormentava. Apesar disso a Rainha prosseguia no seu “Mais depressa!” de sempre, arrastando-a com ímpeto cada vez maior.

— Estaremos chegando? perguntou por fim a menina já exausta.

— Quase! respondeu a Rainha. Mais dez minutos e chegaremos. Depressa! Depressa! e em silêncio continuaram ambas a correr com tamanha rapidez que o vento parecia arrancar o cabelo de Alice.

— Agora! Mais depressa ainda! exclamou logo adiante a Rainha, aumentando ainda mais a velocidade. Mais voavam que corriam. Seus pés mal tocavam o solo. Súbito a Rainha parou e Alice, totalmente sem fôlego, viu-se quase desmaiada no chão. A Rainha encostou-a a uma árvore, dizendo com carinho: — Pode descansar um bocado agora.

Olhando em tôrno teve Alice uma grande surprêsa. — Como isto? perguntou. — Estamos sempre debaixo da mesma árvore. Parece que não saímos do ponto onde estávamos. Não noto mudança nenhuma.

— Está claro! disse a Rainha. Para que mudanças?

— Na minha terra, replicou Alice ainda arquejante, quem corre como nós corremos chega sempre a um ponto diferente daquele donde partiu.

— Deve ser uma terra muito lenta essa! comentou a Rainha. Aqui é preciso correr como corremos para ficar-se no mesmo ponto. Para mudarmos de lugar seria preciso que corrêssemos o dôbro.

— Oh, não quero experimentar isso! exclamou a menina aflita. Prefiro ficar onde estou. Sinto-me afogueada e com muita sêde.

— Já o imaginava, disse a Rainha, tirando duma caixinha um biscoito que ofereceu à menina.

Alice não teve ânimo de recusar, embora tivesse apenas sêde, não fome. Mas foi obrigada a comer o biscoito, que era dos tais cracnéis muito secos que dão mais sêde ainda.

— Enquanto você mata a sêde vou eu tomar algumas medidas urgentes, disse a Rainha tirando do bôlso uma fita métrica com a qual começou a medir o chão para fincar pequenas estacas. Ao cabo de dois me tros, disse a Rainha, darei a você as minhas instruções. Enquanto isso, coma outro biscoito.

— Muito obrigada! exclamou Alice numa careta. Um já foi bastante.

— Matou a sêde, hein?

Alice não achou o que responder; felizmente a Rainha, que não esperava resposta, continuou:

— Ao cabo de três metros repetirei minhas instruções, de mêdo que você as esqueça. Ao cabo de quatro metros direi: “Até logo!” e ao cabo de cinco metros, partirei.

A Rainha fincou tôdas as estacas e voltou para a árvore. Depois começou a andar lentamente sobre o terreno marcado. Na segunda estaca voltou-se para dizer:

— Um peão caminha duas casas no seu primeiro movimento. Assim você alcançará a terceira casa a galope e passa à quarta sem demora. Esta quarta casa pertence a Tweedledum e Tweedledee. A quinta casa é um lago. A sexta pertence a Humpty Dumpty. Mas, vamos! Diga alguma coisa!...

— Eu... eu não sabia que era preciso dizer alguma coisa, respondeu Alice atrapalhada.

— Você deveria ter dito: É muita bondade sua estar-me ensinando tudo isto, Majestade! Não disse nada, mas suponhamos que haja dito e continuemos. A sétima casa é uma floresta, na qual um dos Bispos mostrará a você os caminhos. E, por fim, na oitava casa você ficará rainha igual a mim — e seremos duas rainhas a pintar o sete!

Alice ergueu-se, fêz uma reverência e sentou-se de novo, enquanto a Rainha se dirigia para a próxima estaca. Ali voltou-se de novo e disse: — Fale francês quando não puder pensar em inglês; arreganhe os dedos dos pés quando caminhar, e nunca se esqueça de quem você é.

A Rainha dessa vez não esperou a reverência de Alice. Saltou logo para a próxima estaca e de lá, voltando-se um momento, disse “Até logo” e pulou para a última estaca.

Como aquilo foi a menina jamais pôde perceber. O certo é que ao alcançar a última estaca a Rainha desapareceu. Se se esvaiu no ar ou se correu tão depressa que fosse impossível percebê-lo, Alice não o soube nunca. Ali ficou sòzinha, convencida de que era um peão de xadrez e de que em breve teria de realizar o seu primeiro movimento.

{{{2}}} OS INSETOS DO ESPELHO

A ntes de mais nada era-lhe preciso fazer um estudo do país em que penetrara. “Isto será como nas lições de geografia”, pensou Alice pondo-se na ponta dos pés para ver ao longe. “Rios principais — não vejo nenhum rio, principal ou não. Montanhas principais só existe esta onde estou, que creio não tem nome. Cidades principais... Esperem! Há lá embaixo criaturas fabricando mel! Abelhas, não podem ser. Não existem abelhas “avistáveis” desta distância...”

Por algum tempo permaneceu Alice em silêncio, observando as criaturas que andavam de flor em flor, sugando os cálices, como fazem as abelhas. Todavia não eram abelhas. Davam idéia de elefantes e ao observar isto Alice ficou sem fôlego de tanto mêdo. “Que flores monstruosas devem ser as dêste país!” pensou ela. “Do tamanho de casas! Devem conter enormes quantidades de mel. Vou descer até lá para ver, resolveu. Mas logo ficou indecisa e murmurou, olhando para os lados: “Não ainda. Preciso primeiro arranjar um bom galho de árvore para varrê-los todos. E que engraçado quando me perguntarem lá em casa sobre este passeio, se gostei ou não! Gostei, sim, hei de responder, embora fizesse muito calor e os elefantes me metessem mêdo.”

E depois duma pausa: “O melhor será descer pelo outro lado. Visitarei os elefantes mais tarde. Agora tenho de alcançar a terceira casa.”

E com essa desculpa Alice pulou o primeiro dos seis riozinhos que separavam as casas do tabuleiro de xadrez.

— Os seus bilhetes, façam favor! disse o Guarda pondo a cabeça na janela. Imediatamente todos puxaram os respectivos bilhetes, que eram quase do tamanho dos passageiros.

— Vamos, o seu bilhete, menina! continuou o Guarda olhando severamente para Alice. Em tôrno vozes zangadas murmuravam com azedume: — Não faça o Guarda esperar, menina! O tempo aqui vale mil libras esterlinas por minuto.

— Creio que não tenho bilhete, respondeu Alice em tom medroso. Não encontrei nenhuma bilheteria pelo caminho, lá na terra donde vim.

Apesar da sua desculpa, o côro de vozes zangadas continuou: — Não há lugar aqui para gente dessa tal terra. A nossa terra vale mil libras esterlinas a polegada.

— Não se desculpe, prosseguiu o Guarda. Você comprou um bilhete ao foguista da máquina, eu sei. Só a fumaça da máquina vale mil libras cada baforada.

Alice pensou consigo que era inútil falar. O côro das vozes zangadas nada disse dessa vez, mas pensou também que era melhor não dizer nada porque a linguagem ali valia mil libras por palavra.

— Vou sonhar com mil libras esta noite! pensou Alice impressionada com tanto dinheiro.

Por êsse tempo o Guarda estava de olhos fixos nela, primeiro através dum telescópio, depois através dum microscópio e finalmente através dum binóculo de teatro. Por fim disse: — Você tomou o trem errado, e fechando a janela desapareceu.

— Uma criança pode não saber o seu próprio nome, mas deve saber para onde vai, disse um respeitável senhor que estava sentado defronte dela, vestido de papel branco.

Perto dêsse senhor havia uma cabra, que fechou os olhos e disse com voz fanhosa: — Não é preciso saber ler para adivinhar onde é a bilheteria.

Perto da cabra sentava-se um besouro (era um bem estranho vagão aquêle!), o qual besouro disse por sua vez: — Ela terá que voltar para donde veio ainda que seja como bagagem.

Alice não pôde perceber quem estava sentado atrás do besouro, mas lhe ouviu a voz áspera, dizendo: — Troquem a máquina... Essa criatura não pôde concluir a frase porque alguém a obrigou a deixar o vagão.

— Parece voz de cavalo, pensou Alice.

De mais longe uma voz macia disse: — Ela deve ser despachada como encomenda postal. E outra: Deve ser remetida pelo telégrafo. — E outra: Deve ser posta a puxar o trem. — E assim por diante.

Mas o respeitável senhor vestido de papel moveu-se por fim e, inclinando-se para Alice, murmurou-lhe ao ouvido: — Não faça caso do que estão a dizer, minha cara menina; trate, sim, de arranjar um bilhete logo que o trem parar.

— Não arranjo coisa nenhuma! gritou Alice com impaciência. Não pertenço a êste trem eu estava no morro inda há pouco e quero voltar para lá.

Nisto uma vozinha muito débil começou a cochichar coisas em seu ouvido.

— Quem é você? perguntou a menina.

— Um velho amigo, respondeu a vozinha. Sou um inseto.

— Que espécie de inseto? perguntou Alice amedrontada, porque podia ser algum inseto de ferrão venenoso. Mas não pôde ouvir a resposta: o trem entrara a apitar precisamente naquele instante.

O cavalo, que havia metido a cabeça pela janela, recolheu-se de novo, dizendo: — Um grande rio! Temos de pular por cima

Todos os passageiros mostraram-se contentes com a novidade, menos a menina, que se apavorou com a idéia dum trem a saltar como cabrito por cima de rios. “Em todo caso”, pensou, “irei cair na quarta casa e tarei livre dêstes trapalhões.” Logo em seguida percebeu que o trem se levantava no ar, já no pulo. De mêdo de cair, agarrou-se ao que estava mais perto da sua mão. Era a barba dum bode.

Mas a barba do bode como que se derreteu na mão de Alice, que de novo se achou sentada debaixo da árvore, enquanto o Pernilongo (era o tal inseto de vozinha débil) se balançava num ramo sôbre a sua cabeça, a abanar-se com as asas.

Um pernilongo bem grande, assim do tamanho duma galinha. Não obstante, Alice não teve mêdo nenhum.

— Com que então você não gosta de todos os insetos! disse êle calmamente como se nada houvesse acontecido.

— Gosto só dos que falam, respondeu Alice. Mas nenhum fala, lá na terra donde venho.

— Que espécie de insetos você ama , lá na terra donde vem?

— Não amo a nenhum, absolutamente, respondeu Alice, porque tenho mêdo dêles, sobretudo dos cascudos que usam ferrão. Conheço-os apenas de nome e posso citar vários.

— Êsses insetos costumam atender a êsses nomes? perguntou o Pernilongo.

— Nunca observei isso, mas duvido muito.

— Nesse caso para que os homens lhes dão nomes?

— Porque tôdas as coisas têm nomes, ora esta!

— Vamos lá. Diga o nome dos que conhece.

— Existe o Louva-a-deus, começou Alice contando nos dedos. Existe o...

— Basta, exclamou o Pernilongo. Ali adiante, naquela moita, você poderá ver o Cavalo Voador. É todo de pau e anda saltando de galho em galho.

— De que vive êle? perguntou Alice cheia de curiosidade.

— De serragem de madeira, respondeu o Pernilongo. Vamos ver outro. Cite outro que conheça.

Alice olhava para o Cavalo Voador com grande interêsse, notando que havia sido envernizado de fresco, tão brilhante se mostrava. E, distraída, disse: — Há a Mariposa.

— Olhe para o ramo que pende sôbre a sua cabeça, disse o Pernilongo, e nêle verá uma. Tem o corpo feito de pudim, as asas de açúcar-cande e a cabeça de passa.

— E de que vive?

— De mingau de aveia e bombocado. Costuma fazer seu ninho nas árvores de Natal, explicou o Pernilongo.

— E existe também a Borboleta, prosseguiu Alice depois de bem examinar o inseto de corpo de pudim.

— Rastejando no chão você poderá ver um bicho-cabeludo, do qual saem as borboletas, disse o Pernilongo.

— De que se alimenta?

— De cabelos e môlho à maionese,

Alice refletiu que seria dificil às lagartas encontrarem maionese pelo caminho. — E que acontece quando não acham maionese? perguntou.

— Nesse caso morrem de fome.

— Coitadas! Isso lhes deve acontecer muitas vêzes! refletiu Alice pensativamente.

— Sim, acontece sempre, confirmou o Pernilongo.

Alice caiu em silêncio por uns instantes, a meditar, enquanto o Pernilongo se distraía com fiuns em tôrno da sua cabeça. Por fim pousou de novo e disse: — Imagino que você não deseja perder o nome que tem...

— Não! Não! respondeu Alice um tanto ansiosa com aquela possibilidade.

— É, mas não sei... continuou o inseto, como se aquilo estivesse prestes a suceder. Imagine o que aconteceria se você voltasse para casa sem nome. A sua go vernanta vai chamá-la para a lição e diz: — Venha cá, dona... e não pronuncia o seu nome porque você não tem nome. E ela então tem que ir-se embora porque não tem nenhum nome para chamar à lição.

— Oh, isso é impossível! Se a minha governanta não tivesse nome com que chamar-me, diria simplesmente: — Venha dar sua lição, Miss! Chamar-me-ia Miss, como o fazem as criadas.

— Bem, disse o Pernilongo. Mas se ela diz Miss e mais nada, você não estará na obrigação de comparecer às lições, porque Miss é qualquer menina, não uma certa menina. Oh, quanto eu desejaria que isso acontecesse!...

— Por quê? Que tem você com isso?

Em vez de responder, o Pernilongo suspirou profundamente, com duas lágrimas a lhe rolarem dos olhos. Condoída da sua tristeza, a menina disse: — Já que lhe causam tanta aflição fatos como êsse, por que motivo inventa tais hipóteses?

A resposta foi outro suspiro ainda mais suspirado. Tão suspirado que o inseto se dissolveu nêle. Evaporou-se num suspiro, o coitadinho! Alice, por muito que firmasse os olhos, nada mais viu no galhinho onde o inseto estivera. Estava acabada a prosa e como ventasse forte Alice deu uma carreira para não resfriar-se.

Logo depois se viu num campo aberto, que tinha ao lado uma floresta muito mais escura do que a primeira. Alice teve mêdo de penetrar nela. Por fim resolveu-se, porque se voltasse para trás não poderia alcançar a Oitava Casa.

“Isto por aqui deve ser a floresta onde as coisas não têm nome”, refletiu a menina. E se é assim, muito queria saber o que vai acontecer com o meu nome. De nenhum modo quero perdê-lo. Haviam lá em casa de dar-me outro, com certeza mais feio. E que engraçado seria procurar-se a criatura que tivesse achado o meu nome perdido! Anúncios no jornal, como fazem para os cachorrinhos que somem. “... atende ao nome de Joli e traz uma coleira de prata...”

Estava ainda Alice pensando nestas hipóteses quando penetrou na floresta fria e escura. “Bom”, pensou ela, “antes assim, pois poderei refrescar-me da corrida que dei. Poderei sentar-me debaixo destas... destas...”, e Alice ficou surpreendida de já não encontrar em sua memória a palavra “árvores”. E repetiu mentalmente a frase para ver se a palavra perdida aparecia “Sentar-me debaixo destas... destas... Ora! Todo mundo sabe o nome destas...” e bateu no tronco duma árvore para indicar o que era.

Por uns minutos ficou em silêncio, pensando. Depois murmurou para si mesma: — Então é verdade que nada aqui tem nome! E eu? Quem sou eu? Já não consigo lembrar-me. Fêz um grande esforço de memória e disse: — L, sei que o meu nome começava por L, mas é só.

Nisto um veadinho surgiu, que olhou para a menina com os seus grandes olhos ariscos, embora não parecesse assustado. — Vem cá! Vem cá! chamou Alice, espichando os braços para o animalzinho, que recuou uns passos, continuando a olhá-la com os seus grandes olhos ariscos.

— Como se chama você? perguntou êle por fim numa linda voz de veado.

— “Quem me dera sabê-lo!” pensou a pobre Alice com ar melancólico: — Não me chamo mais nada. Perdi há pouco o meu nome.

— Pense bem, tornou o veadinho. Recorde-se. Isso não pode ser.

Alice pensou bem, mas inùtilmente. Então voltou contra o veado a pergunta que êle lhe fizera. — E você, como se chama? indagou tìmidamente. — Isso talvez me ajude a recordar o nome que eu tinha.

— Só poderei dizê-lo fora daqui, respondeu o veadinho. Vamo-nos!

Foram-se os dois, Alice com o braço em tôrno ao pescoço do lindo animalzinho. Saindo da floresta alcançaram um campo aberto onde o veadinho deu um pinote para o ar exclamando com grande alegria: — Sou um veado! E você, minha cara, é uma menina! Mas ao dizer isto não se sabe o que viu, pois que mostrando susto nos grandes olhos ariscos disparou pelos campos qual uma flecha.

Alice ficou a segui-lo com os olhos, muito triste de haver perdido assim depressa tão formoso companheirinho. Consolou-se, porém, pensando que havia afinal reconquistado o seu próprio nome: — Alice! Chamo-me Alice! A-li-ce! Agora não me esquecerei nunca mais.

A seu lado viam-se dois postes com flechas marcando a direção. Como as flechas marcassem a mesma direção, Alice ficou indecisa por um momento, achando estranho aquilo. Por que duas flechas no mesmo sentido? “Na próxima eneruzilhada”, pensou ela, “as flechas hão de marcar direções diferentes e então me orientarei melhor.”

Não foi assim, entretanto. Ao alcançar a encruzilhada notou que as flechas continuavam a marcar a mesma direção, embora com dísticos diferentes. Um dizia: “Para a casa de Tweedledum.” Outro diz: “Para a casa de Tweedledee.”

— Suponho, murmurou Alice, que êstes dois figurões vivem na mesma casa. Ora, como não posso ficar aqui tôda a vida, o melhor é ir até à casa dêles perguntar qual o caminho de saída desta mata. Sim, sim. Tenho de alcançar a Oitava Casa ainda hoje. Tenho, tenho e tenho...

Assim pensando e conversando consigo mesma Alice dirigiu-se na carreira à casa dos dois figurões. Encontrou-os. Eram uns homenzinhos muito gordos e...

CAPÍTULO IV TWEEDLEDUM E TWEEDLEDEE

E STAVAM os dois de pé sob uma árvore, abraçados. Alice logo os distinguiu um do outro, porque o primeiro tinha a sílaba DUM visível no bico do colarinho e o segundo tinha a sílaba DEE . “A palavra TWEEDLE deve estar nas costas do colarinho”, pensou Alice.

Tão imóveis permaneciam êles que nem pareciam vivos. Alice resolveu dar volta por trás para ver se a palavra TWEEDLE estava mesmo escrita nas costas do cola rinho. Ia fazendo isso quando o marcado com a sílaba DUM abriu a bôca para falar.

— Se você pensa, disse êle, que somos bonecos de cêra, tem que pagar dinheiro. Ninguém pode ver bonecos de cêra de graça.

— E se pensa que somos gente viva, então tem que falar! disse o marcado com a sílaba DEE .

Alice estava nesse momento com os versos duma velha canção popular a lhe fazerem cócegas na memória, de modo que em vez de responder declamou em voz alta os versos:

Tweedledum e Tweedledee

Combinaram uma batalha

Porque Dum furtara a Dee

Uma barulhenta gralha;

Mas nesse instante surgindo

Dum policial a barriga

Os dois temíveis heróis

Esqueceram logo a briga.

— Sei o que você está pensando, disse Tweedledum, mas posso garantir que não é verdade.

— Se não é verdade poderia sê-lo, disse Tweedledee, e se tivesse sido verdade seria verdade, mas como não foi verdade, não é verdade. Isto é lógico.

— Eu estava pensando, explicou Alice polidamente, sôbre qual seria o melhor caminho para sair desta floresta, visto como a noite está prestes a chegar. Poderão os senhores dar-me qualquer informação a respeito?

Os homenzinhos limitaram-se a olhar um para o outro e a sorrir. Pareciam de tal modo dois meninos de escola que Alice não pôde resistir à tentação de apontar com o dedo para Dum e dizer:

— Aluno da esquerda, vamos, responda!

— Isso é que não! exclamou Dum enèrgicamente, fechando a boca num estalo.

— Aluno da direita, responda! continuou Alice volvendo os olhos para Dee.

— Você começou errando, respondeu Dum. A primeira coisa que se faz numa visita é dizer: — Bom dia! Como passam os senhores? e em seguida estender a mão. E dizendo isto Dum abracou Dee e espichou a mao para Alice. Dee fêz o mesmo.

Alice ficou embaraçada. Se apertasse a mão do primeiro, o outro poderia ficar ofendido. Para evitar questões espichou as duas mãos e apertou ao mesmo tempo as mãos que Dum e Dee estendiam. Imediatamente ao fazer isso achou-se a dançar com êles em redor da árvore, ao som de música. Pareceu-lhe que a música vinha da própria árvore, a qual esfregava os galhos uns contra os outros, como arcos de violinos.

— Era esquisitíssimo (explicou ela mais tarde à sua irmã, quando lhe narrou estas aventuras) aquilo de achar-me a cantar o estribilho do “Aqui estamos girando em tôrno da cerejeira”, canção que não sei como me veio à memória. E o tempo que passei cantando isso!...

Como fôssem extremamente gordos os homenzinhos, logo ficaram sem fôlego.

— Dez voltas em torno da árvore, é o bastante para uma contradança, disse Dum com a língua de fora. Dee concordou e ambos pararam de brusco, da mesma forma por que haviam começado a dançar. Também a música cessou incontinênti. Em seguida largaram a mão da menina e ficaram a olhá-la por todo um minuto. Foi uma pausa que atrapalhou Alice. Não sabia como iniciar de novo a conversa. “Deverei agora dizer: Bom dia, como vão os senhores? ou é tarde demais para isso?” pensou consigo.

— Suponho que os senhores estão muito cansados, disse ela afinal.

— De modo nenhum, respondeu Dum. Em todo caso, muito agradecido fico de me haver feito essa amável pergunta.

— Muito obrigado também fico pela minha parte, disse Dee. E em seguida: — Diga-me, gosta de poesia?

— S... sim, muito. Isto é, de certas poesias, respondeu Alice meio na dúvida. Mas... poderão os senhores ensinar-me o caminho para sair desta floresta?

— Que poesia devo recitar? perguntou Dee virando-se para Dum com grande solenidade, como se não tivesse ouvido a pergunta de Alice.

— A Foca e o Carpinteiro, que é a mais comprida, respondeu Dum dando novo abraço em Dee.

Este começou imediatamente:

O sol brilhava sobre o mar...

Era de fato uma poesia tão comprida que Alice dormiu no meio. História duma foca que encontrou um carpinteiro na praia. Puseram-se a conversar, atraindo como ouvintes tôdas as ostras das redondezas — milhares de ostras que abriam as suas conchas e punham a carinha de fora para ouvi-los. Contando casos que muito interessavam às ostras, distraìdamente iam êles comendo-as. Comeram-nas tôdas — e depois ficaram desesperados quando viram que haviam engolido o auditório inteirinho, só deixando cascas no chão.

Dee porém teve de interromper o recitativo em vista dum rumor semelhante ao bufo duma locomotiva que se aproximasse — locomotiva ou alguma fera. — Haverá leões ou tigres por aqui? perguntou Alice aflita.

— Não, êsse barulho não passa dos roncos do Rei Negro. Ronca muito quando dorme, explicou Dee.

— Vamos vê-lo, disseram em seguida os dois irmãos, agarrando a menina pelo braço e puxando-a para o sítio onde estava o dorminhoco.

— Lindo quadro, hein? disse Dee ao avistarem o rei.

Alice de nenhum modo pôde concordar. O tal Rei Negro, de gorro de dormir na cabeça e encolhido ao pé duma árvore, mais dava a idéia dum montinho de lixo do que dum rei. Notando que Sua Majestade estava de cócoras no chão, a cuidadosa menina apenas observou: — Coitado! Vai resfriar-se nessa relva úmida...

— Veja! exclamou Dee. Está sonhando. É você capaz de adivinhar os sonhos dêle?

— Não. Nem eu, nem ninguém no mundo, respondeu Alice.

— Pois eu adivinho, afirmou Dee batendo palmas de triunfo. Está sonhando com você. E, diga-me se êle não estivesse sonhando com você, onde estaria você agora?

— Que pergunta! Estaria onde estou, respondeu Alice.

— Engano, contestou Dee com ar de quem sabe.

Você não estaria em parte nenhuma, porque não passaria duma personagem dos seus sonhos.

— Se o Rei Negro acordasse, acrescentou Dum, você desapareceria tal qual a luz duma vela assoprada.

— Não desapareceria coisa nenhuma! exclamou Alice indignada. Se sou apenas uma personagem dos sonhos dêsse Rei, que serão vocês, digam-me?

— A mesma coisa! responderam a um tempo Dum e Dee, em voz tão gritada que Alice se assustou de mêdo que o Rei Negro despertasse. Calem-se! — exclamou ela. — Vocês estão a fazer muito barulho.

— Como fala em despertá-lo, menina, se você não passa duma simples personagem dos sonhos dêle? Creio que já provamos que você não é uma criatura real.

— Sou real, sim! gritou Alice, começando a chorar.

— Não ficará mais real chorando, declarou Dee. Nada adianta chorar.

— Se eu não fôsse real não poderia chorar, disse a menina misturando um sorriso com as lágrimas.

Tweedledum disse então com o seu grande ar de superioridade: — Acredita por acaso que essas lágrimas sejam reais?

Isto fêz Alice pensar lá consigo: “Estes tipos só dizem asneiras e grande tolice minha é chorar.” Em vista do que enxugou os olhos e prosseguiu na conversa o mais alegremente que pôde, voltando ao começo. — Preciso sair desta mata antes que anoiteça. Não lhes parece que está ameaçando tempestade?

Tweedledum abriu o seu guarda-chuva e examinou-o por dentro. Só depois é que respondeu à pergunta.

— Não me parece que vai chover aqui dentro, não.

— E fora?

— Fora poderá ser, se a chuva entender de cair. Tudo depende da vontade dela, opinou Tweedledee.

— Imbecis! exclamou Alice, resolvida a despedir-se dêles com um sêco boa noite. Mas Tweedledum saiu de debaixo do guarda-chuva e segurou-a pelo pulso.

— Está vendo aquilo ali? perguntou vivamente, com os olhos arregalados para um objeto que jazia ao pé da árvore.

— Sim, uma bandeira, respondeu Alice depois de rápido exame. Não um tamanduá-bandeira, acrescentou, julgando que Dum estivesse apavorado, mas uma simples bandeira velha, um trapo.

— Eu sabia disso! gritou Dum começando a pinotear e a arrancar os cabelos. Está rasgada, é um trapo, sim, concluiu olhando para Dee. Dee imediatamente sentou-se no chão e procurou ocultar-se atrás do guarda-chuva aberto.

Alice apoiou a mão sôbre o braço dêle e disse em tom calmante: — Não é caso de ficar tão impressionado assim! Uma coisa tão à-toa...

— Mas não é trapo nenhum! berrou Dum com furor na voz. Trata-se duma bandeira novinha que comprei ontem — a minha linda BANDEIRA NOVA ! rematou num grito agudíssimo.

Por êsse tempo estava Dee fazendo o possível para fechar o guarda-chuva consigo dentro — coisa que muito impressionou a menina — tudo de mêdo da cólera de Dum. Só o conseguiu furando o pano do guarda-chu va com a cabeça a qual ficou de fora, a abrir e fechar os olhos e a bôca. “Tal qual um peixe”, pensou Alice.

Voltando à calma, Tweedledum berrou para o irmão: — Está desafiado para um duelo!

— Aceito, respondeu Tweedledee tristemente. Mas com a condição de que ela nos ajudará a fazer os preparativos.

Assentes nisto, os dois irmãos, de braços dados, se dirigiram para dentro da floresta, donde voltaram com um carregamento de coisas estapafúrdias — almofadas, cobertores, tapêtes, toalhas, tampas de caçarola e baldes.

— Espero, disse Dum a Alice, que você saiba pregar alfinêtes e dar pontos. Tem que ajustar todas estas coisas sobre os nossos corpos.

Alice confessou mais tarde que jamais tivera tanto trabalho na vida como ajeitar, alfinetar, pregar, amarrar tôda aquela trapalhada no corpo dos dois heróis. Tinha de atender às mil recomendações dêles, sobretudo em matéria de defesa do pescoço, pois ambos temiam verem-se de cabeça cortada. — Você sabe, disse Dee em certo momento, que uma das mais sérias coisas que possa acontecer num duelo é cabeça cortada.

Alice riu-se alto, embora disfarçasse o riso numa tossida para não ofender o grande herói.

— Estou muito pálido? perguntou Dum quando chegou a hora de colocar o elmo na cabeça (elmo que não passava duma panela.)

— Sim, um pouco, respondeu Alice.

— Sou habitualmente corajoso. Se fiquei um tanto pálido agora é que estou com uma dor de dentes danada...

— E eu também estou pálido, ajuntou Dee, que ainda estava mais medroso do que Dum, por causa duma terrível dor de cabeça que me deu...

— Se assim é, por que não deixam o duelo para melhor tempo?

— Impossível. Temos de lutar um bocadinho agora, respondeu Dum. Que horas são?

Dee consultou o relógio e achou que eram quatro e meia.

— Lutaremos, então, até às seis. Depois iremos jantar, se ainda tivermos as cabeças no pescoço.

— E eu, até o que fica longe! acrescentou Dum.

Alice riu-se: — Vocês vão mas é desancar as pobres árvores! disse ela.

Dum olhou em tôrno com ar satisfeito: — Não creio que fique uma só árvore de pé depois do nosso combate! roncou êle.

— E tudo por causa dum trapo de bandeira! murmurou Alice, ainda com esperança de que os heróis se envergonhassem de brigar por tão pouco.

— Trapo nada! berrou Dee. Era uma bandeira novinha em fôlha, como já disse. Do contrário, não me importaria.

— Se aparecesse agora um corvo... pensou Alice.

— Só existe uma espada, você sabe, disse Dum a Dee. Bata-se com o guarda-chuva, que também tem ponta. E comecemos já, antes que escureça mais.

De fato, começava a escurecer, e tão depressa que Alice teve mêdo. Erguendo os olhos para o céu murmurou: — Que nuvem negra vejo lá!... E como se aproxima depressa! Parece até que tem asas...”

— É um corvo! berrou Dum com pavor na voz — e sem perda de tempo pôs-se ao fresco seguido de Dee...

Alice correu a esconder-se dentro da floresta sob uma grande árvore: — Aqui êle não me pega! É corvo grande demais para que possa meter-se por entre os galhos das árvores. Mas que bom se não batesse as asas com tanta força! Parece um furacão...

E depois, já esquecida do corvo, exclamou batendo palmas, ao ver qualquer coisa que flutuava no ar: — Um xale! Um xale que vem voando!... De quem será?

CAPÍTULO V LÃ E ÁGUA

A LICE APANHOU O xale e olhou em redor em procura do dono. Viu logo a Rainha Branca a correr com fúria pela floresta, de braços espichados como se estivesse voando. Alice foi ao seu encontro com o xale na mão.

— Tive a sorte de pegar o seu xale no vôo! disse ela ajudando a grande dama a cobrir-se com êle.

A Rainha encarou-a desconfiada e murmurou qualquer coisa semelhante a “pão com manteiga.” Como não fôsse possível entendê-la, a menina resolveu orientar a conversa, e disse: — É a Sua Majestade a Rainha Branca que tenho o prazer de estar ajudando a vestir-se?

— Sim, mas se arrumar um xale nos meus ombros você chama vestir-me, não concordo. Declaro que não penso assim!

Alice não desejava que já de comêço a conversa entrasse no terreno das disputas. Por isso sorriu e murmurou: — Se Vossa Majestade quisesse ter a gentileza de dizer como devo começar, seria ótimo.

— Não quero ter essa gentileza, resmungou a Rainha. Estou a vestir-me a mim própria há mais de duas horas.

— Muito melhor seria se arranjasse alguém que a vestisse, pensou a menina, vendo como estava mal arranjada a Rainha. Tudo fora do lugar e além disso, alfinêtes e mais alfinêtes!... Uma judas.

Depois disse em voz alta: — Quer que arrume melhor o xale?

— Não sei o que tem êste xale hoje! murmurou a Rainha melancòlicamente. Parece zangado. Preguei-o com um alfinête aqui e outro cá — mas nem assim ficou satisfeito.

— O coitado não pode estar satisfeito. Vossa Majestade o prendeu dum lado só, explicou Alice enquanto endireitava o xale. Vendo em seguida o desalinho dos cabelos da grande dama, não pôde evitar um reparo: — Como está isso sem jeito, minha cara Rainha!

— É que a escôva ficou enganchada nêle quando o penteei, murmurou a Rainha num suspiro. Além disso, perdi meu pente ontem.

Alice desembaraçou cuidadosamente a escôva e a penteou o melhor que pôde. Depois disse: — Veja como está bem agora! Vossa Majestade precisa mas é duma boa camareira.

— Tomarei você como camareira, se quiser, disse a Rainha. Terá dois níqueis por semana, além de geléia um dia sim, um dia não.

Alice não pôde conter um sorriso ao responder que não fazia caso da geléia.

— Oh, mas é geléia muito gostosa! insistiu a Rainha.

— Não gosto de geléia, seja gostosa ou não, repito.

— Nem a comeria, minha cara, porque a geléia é um dia sim, um dia não, ou melhor, geléia ontem e geléia amanhã — nunca geléia hoje.

— Não entendo êsse modo de dar geléia. Parece-me um tanto confuso.

— Isso vem do meu modo de viver para trás, explicou a Rainha bondosamente. Concordo que no começo atrapalha um pouco.

— Viver para trás! exclamou Alice com espanto. Nunca ouvi falar de semelhante coisa!

— No entanto há uma enorme vantagem nisso, menina. Vive-se dobrado.

— Eu só vivo para a frente, observou Alice. Não sei lembrar-me de nada que ainda não haja acontecido.

— Que pobre memória tem! Como deve ser triste isso de só poder lembrar-se do que já aconteceu!...

— Diga-me, Rainha, que espécie de coisas a memória de Vossa Majestade se lembra primeiro?

— Oh, das coisas que vão acontecer daqui a quinze dias, está claro! Agora, por exemplo, continuou a grande dama grudando um pedaço de esparadrapo na ponta do dedo, está o Mensageiro do Rei sendo castigado na prisão. O julgamento dêsse criminoso só será daqui a uma semana e o seu crime só será cometido daqui a duas semanas.

— Mas suponha que êle não cometa nenhum crime! objetou Alice.

— Seria muito melhor, não acha? respondeu a Rainha amarrando o esparadrapo com um fio de linha.

Alice não pôde contestar aquilo: — Sem dúvida que seria muito melhor. Mas ainda melhor seria se êle não fosse castigado já.

— Está você errada nesse ponto, contestou a Rainha. Diga-me, já foi castigada alguma vez?

— Sim, mas por faltas realmente cometidas, respondeu Alice.

— E ganhou alguma coisa com isso?

— Não se trata de ganhar ou não ganhar. Trata-se de castigos que sofri em conseqüência de faltas que cometi. A diferença é enorme.

— Mas se você não houvesse cometido essas faltas seria muito melhor, observou a Rainha. Muitíssimo melhor. Muitíssimo melhor! Muitississímo melhor — e cada vez que repetia a palavra melhor subia de tom vários pontos.

Alice começou a pensar que devia existir um êrro qualquer em tudo aquilo. Nisto a Rainha rompeu numa gritaria infernal. — Oh! Oh! Oh! berrava ela sacudindo a mão como se quisesse deitá-la fora. Meu dedo está sangrando! Oh!

Seus gritos pareciam apitos de locomotiva, tão fortes e agudos que Alice teve de tapar os ouvidos.

— Que aconteceu, Majestade? perguntou Alice quando a gritaria deu folga. — Espetou o dedo?

— Ainda não espetei, respondeu a Rainha, mas vou espetá-lo. Oh! Oh! Oh!...

Nesse momento o alfinête de segurança que lhe prendia o xale abriu-se e a Rainha o agarrou nervosamente, procurando fechá-lo de novo.

— Cuidado! exclamou Alice. Vossa Majestade o está fechando torto, disse espichando as mãos para tomar o alfinête e fechá-lo direito. Era tarde. A Rainha já havia espetado o dedo.

— Vê? exclamou ela. É assim que as coisas acontecem aqui.

— Mas por que não grita agora, Magestade — agora que está com o dedo realmente espetado?

— Porque já gritei antes, respondeu a Rainha sorrindo. Seria inútil repeti-lo agora.

Enquanto as duas levavam o tempo naquela prosa sem pé nem cabeça, o céu começou a clarear. As sombras desapareceram. — O corvo já se foi embora, disse a menina. — Muito me alegra semelhante fato. Não era a noite que vinha vindo, como pensei, era o corvo.

— Eu também quisera alegrar-me com alguma coisa, disse a Rainha com ar triste. Você pode considerar-se feliz de alegrar-se com qualquer coisa neste bosque, e alegrar-se quando quer...

— Sim, mas acho muito solitário isto aqui, observou Alice, em cujos olhos duas lágrimas principiavam a brotar.

— Oh, não faça isso! Não chore! exclamou a Rainha torcendo as mãos com desespêro. Pense que já é uma menina grande. Pense no caminho que já andou hoje. Pense que são quatro horas da tarde. Pense em tudo isto e não chore.

Alice foi forçada a rir-se no meio do chôro. — Acha, então, Majestade, que pensando em tôdas essas coisas posso parar de chorar?

— Perfeitamente! declarou a Rainha com grande decisão. É o jeito. Ninguém pode fazer duas coisas ao mesmo tempo. Se você pensa no que eu digo, está claro que tem de parar o chôro. Pense na sua idade. Que idade tem?

— Sete anos e meio, exatamente.

— Não diga exatamente, observou a Rainha. Eu acreditarei na sua idade sem êsse exatamente. E eu? Sabe que idade tenho? Nada menos de cem anos, cinco meses e um dia.

— Não posso acreditar nisso, Majestade!

— Não pode? fêz a Rainha com cara de dó. Experimente. Faça um esforço. Tome bastante fôlego e feche os olhos.

Alice ria-se a morrer.

— Inútil experimentar, Rainha. É-me impossível crer em coisas impossíveis.

— Vejo que você não tem muita prática da vida, menina. Quando eu tinha a sua idade sempre acreditei em coisas impossíveis pelo menos meia hora por dia. Ás vêzes chegava a acreditar em seis coisas impossíveis antes do café da manhã. E mudando de assunto: — Lá se vai o meu xale outra vez!

Enquanto ela falava o alfinête tinha-se aberto e uma súbita rajada de vento arremessara o xale para além dum riacho. A Rainha espichou os braços e voando qual uma ave conseguiu apanhá-lo no ar.

— Apanhei-o! gritou muito contente. E agora você vai ver que sei prendê-lo por mim mesma.

— Quer dizer então que o dedo de Vossa Majestade está melhor? perguntou Alice transpondo também o riacho.

— Oh, muito melhor! exclamou a Rainha num grito agudo. Muito melhor! Me-lhor! Me-e-e-lhor! Mé-é-é… e a palavra se reduziu a um balido de ovelha, tão perfeito que Alice se assustou. Mais ainda vendo que a grande dama se havia envolvido tôda em lã de carneiro. Alice esfregou os olhos. Olhou de novo. Estava numa loja, defronte a um balcão. Do outro lado do balcão via a lojista, que era uma ovelha de óculos na cabeça, a fazer crochê. De vez em quando a ovelha erguia a cabeça e punha os olhos nela.

— Que deseja comprar, menina? perguntou numa dessas vêzes.

— Não sei ainda, respondeu Alice amàvelmente. Quero primeiro ver o que a senhora tem nesta loja.

— Pode olhar quanto queira, para a frente, para a esquerda e para a direita. Só não poderá ver o que está para trás, porque você não tem olhos na nuca.

A loja parecia cheia de coisas esquisitas, mas cada vez que a menina firmava os olhos numa prateleira essa prateleira ficava completamente vazia, indo as coisas que ali se acumulavam reunir-se noutro ponto.

— As coisas não param no lugar! exclamou Alice depois de passados uns minutos na tentativa de fixar os olhos numa coisa que lhe pareceu uma boneca e que se mudava sempre para cima do ponto para onde ela olhava. — Está-me provocando, êsse objeto, declarou Alice, mas hei de vê-lo bem visto. Quero saber se foge mais depressa do que meus olhos se movem.

Não conseguiu. Por maior rapidez com que Alice erguesse os olhos, o objeto escapava sempre, subindo, sempre subindo até ao teto, onde desaparecia como se estivesse acostumado a fazer isso.

— Diga-me, perguntou a ovelha enquanto tirava da cesta de bordado uma outra agulha de osso, você é uma menina ou um pião? Está-me dando tonturas com tantas voltas que dá.

Tradução por IA · Original