Ballada do Enforcado

Tradução humana · Tradução de Elísio de Carvalho (†1925) · Fonte: Wikisource · Domínio público

DO TRADVCTOR AO LEITOR

Cremos desnecessario falar-se mais uma vez da historia dolorosissima, a tragedia horrivel de Oscar Wilde, o grande poeta inglez, moço, fidalgo, rico, distincto, elegante, que a fingida pruderie britannica sepultou numa enxovia immunda, depois de um processo escandaloso, que repercutiu no mundo inteiro. Lembram-se todos, principalmente os que se occupam de cousas referentes ás lettras e ás artes.

Mesmo no horror do carcere, onde soffreu, entre outros, o barbaro supplicio da roda, e desfiou cordas alcatroadas, e exerceu o officio de cavouqueiro, quebrando as unhas, ensanguentando as suas finas mãos patricias, o genial poeta escreveu! E compoz esta ballada :

como reza o fronte spicio da edicção ingleza. Oscar Wilde não era mais um homem, uma pessoa : tornou-se uma cousa, um simples numero — o C. 3. 3.

Escripta em admiraveis estrophes de seis versos, noni e octosyllabos, alternados, rimando apenas os segundos, quartos e sextos, traduziu-a, ou, antes, transcreveu-a para o francez, o escriptor Henry-D. Davray, collaborador da revista Mercure de France , que a editou. A traducção é em prosa, verso por verso, palavra por palavra, o mais litteralmente possivel.

Para o nosso trabalho, servimo-nos de ambos — original e transcripção — fazendo-o, todavia, com a maxima liberdade permittida. Si nos cingissemos exclusivamente ao original, si o traduzissemos ao pé da lettra, a maior parte da ballada sería incomprehendida por quem não conhecer bem o systema penitenciario e certos usos e costumes tradicionaes da velha Albion. Fomos até forçados a supprimir estrophes, que são, para nós, absolutamente nonsenses.

Quem confrontar o assombroso poema de Oscar Wilde, com este modesto e despretencioso trabalho, verá que respeitámos sempre o pensamento do poeta, e não desprezámos uma só das muitissimas bellezas, nenhuma das innumeras imagens—as mais das vezes symbolicas — dessa obra incomparavel, “ ce terrifiant poème, qui aura désormais sa place à côté de la Maison des Morts. de Dostoiewsky ,” como diz o illustre e competente critico Robert Scheffer.

O titulo que adoptámos, differe do escolhido pelo autor. E’ que não poderiamos ouvir ler-se Ballada da Prisão de “ Réadingui ”, além de que— parece-nos— o nosso é mais expressivo, mais vibrante, e, quiçá, mais apropriado.

E. DE. C.

I

E LLE não trajava mais o seu bello uniforme vermelho, porque o sangue e o vinho tambem são vermelhos... E sangue e vinho lhe tingiam as mãos, quando o encontraram junto da Morta, a pobre Mulher morta, sua Amante, que elle assassinára no proprio leito.

Vestido com uma roupa cinzenta, velha, muito velha, já no fio, e tendo á cabeça um gorro de jogar cricket , caminhava entre outros Detentos. O seu andar parecia ligeiro e satisfeito. No emtanto, nunca vi pessoa alguma olhar tão intensamente para a luz do Dia, como elle olhava.

Nunca, nunca vi pessoa alguma contemplar com tão intenso olhar essa pequena Tenda Azul, que os Prisioneiros chamam Céo, e cada nuvem que além vogava, semelhante a uma formosa barquinha de velas de prata desfraldadas.

Eu o via, do páteo contiguo, onde me achava com outros Desventurados. Estava a imaginar que crime teria commettido esse Infeliz, quando uma voz, por traz de mim, murmurou baixinho: “ Aquelle vai ser enforcado! ”

Que horror, Santo Deus !... As paredes da prisão estremeceram de subito, a meus olhos, e o Firmamento tornou-se qual igneo capacete de aço... E, comquanto minh’Alma estivesse immersa em profundo Pezar, tal foi a minha Angustia, que, naquelle instante, ella nada sentiu.

Comprehendi, então, que negro Pensamento incessantemente o perseguia, fazendo-o apressar o passo, e porque era que elle contemplava com olhar tão intenso a fastidiosa claridade do Dia : o Desgraçado assassinára a Mulher amada, e, por isso, devia de morrer tambem !

No emtanto, todo o mundo mata o que ama... Alguns (Que ninguem deixe de sabel-o !...) o fazem com um olhar de odio ; outros, por meio de palavras carinhosas ; o covarde, com beijos ; o homem corajoso, empunhando uma arma !...

Uns, matam o Amor, quando são moços ; outros, depois de velhos ; varios o estrangulam com as mãos do Desejo ; muitos, com as do Ouro. Os melhores servem-se de um punhal, pois os Mortos esfriam depressa.

Ha quem ame muito, e ha quem ame pouco. Este vende o Amor ; est’outro o compra. Aquelle, ao praticar o Mal, derrama copioso pranto; aquell’outro fal-o, sem soltar siquer um suspiro de compaixão... E todo o mundo mata o que ama, sem que, todavia, ninguem tenha de morrer por isso !...

Quem assim procede, não morre de morte infamante, em dia de negra Desventura ; não tem o nó corredío em volta do pescoço ; não põe ao rosto ũ’a mascara; nem sente, atravéz do tablado do Patibulo, os pés precipitarem-se no vácuo.

Não permanece no meio de homens silenciosos, que o vigiam noite e dia ; que o vigiam, quando tem vontade de chorar, ou quando tenta rezar ; que incessantemente o vigiam, receiosos que pretenda roubar ao Cadafalso a sua Prêza.

Não desperta, pela madrugada, com o rumor que fazem, ao entrar no seu cubiculo, homens de sinistra catadura : o Capellão, de branco, todo tremulo ; o Sheriffe, austero e cheio de compuncção; e o Governador do Presidio, de preto e ceremonioso, lívido, com cara de condemnado.

Não se levanta da cama, com tal rapidez que faz pena, para tornar a vestir o uniforme dos Galés, emquanto o medico do Estabelecimento, sem deixar de fital-o attentamente, toma nota de cada um dos seus gestos e contracções nervosas, olhando de vez em vez para o relogio, cujos fracos tic-tacs soam como surdas pancadas de um martello horrivel...

Não soffre a angustiosissima sêde, que sécca a garganta do Condemnado, ao approximar-se a hora em que o Carrasco, calçado de grossas luvas de couro, virá maniatal-o com tres corrêas finas e compridas, afim de que jamais sinta sêde !...

Não inclina a cabeça, para ouvir a Litanía do Officio dos Mortos. E, emquanto o Terror de su’Alma lhe assegura que não está morto, não cruza com o seu proprio esquife, ao entrar no horroroso local do Supplicio...

Não lança o ultimo olhar para o Céo, que apenas percebe atravez de pequenina claraboia ; não implora a Deus, com labios de argila, para que sua Agonia passe ; e não sente na face gélida o beijo de Caiphaz...

II

V ESTIDO com uma roupa cinzenta, velha, muito velha, já no fio, e tendo á cabeça um gorro de jogar cricket , durante seis semanas o Infeliz passeiou no páteo da Prisão, com um andar ligeiro e satisfeito... No emtanto, nunca vi pessoa alguma olhar tão intensamente para a luz do Dia, como elle olhava !

Nunca, nunca vi pessoa alguma contemplar com tão intenso olhar essa pequena Tenda Azul, que os Prisioneiros chamam Céo, e cada nuvem que passava errante, arrastando a flava cabelleira crinisparsa.

Elle não torcia as mãos, como fazem esses Insensatos, que ousam tentar reviver a Esperança, no antro do negro Desespero. Limitava-se a olhar para o Sol, e haurir o ar da manhã.

Não torcia as mãos; não chorava; nem mesmo se lamentava. Apenas bebia o ar, como si nelle encontrasse alguma virtude anodyna. Bebia o Sol, a longos haustos, como si o Sol fosse vinho.

Eu, e os meus Companheiros de Infortunio, que passeiavamos no páteo contiguo, chegavamos a olvidar nossas proprias Miserias, e os crimes de que eramos culpados, para observarmos, com olhares de estupido pasmo, o Homem que ia morrer.

Como era extranho vel-o passeiar, com um andar ligeiro e satisfeito ! vel-o contemplar tão intensamente a luz do Dia ! e, ao mesmo tempo, pensar-se que tinha tamanha divida a pagar!...

O carvalho e o olmo são arvores de verdolente e espessa ramagem, que brota pela Primavera... E’ horrivel, porém, ver-se a Arvore da Forca, com as raizes roidas por animaes damninhos !...

Não ha quem não ambicione subir... subir... até occupar posição saliente, alto logar na Sociedade... Para esse fim, convergem todos os esforços humanos... Qual esse, porém, que quererá achar-se no alto de um Cadafalso, e, dahi, contemplar pela derradeira vez o Firmamento?!...

E’ deliciosamente agradavel dansar-se ao som de violinos, flautas e alaúdes, quando o Amor e a Vida nos são propicios... Ah ! mas é horrivel dansar-se no Espaço, pendurado pelo pescoço !...

...Emquanto nos accudiam taes Pensamentos, observavamos o Misero, e faziamos extravagantes supposições. Quem nos diz que o nosso fim não será identico ao delle ? Ninguem sabe até que Inferno de Horrores su’Alma céga póde transviar-se...

O Homem que ia morrer deixou finalmente de passeiar em companhia dos outros Miseraveis... Disseram-nos que já se achava no acanhado e lobrego cubiculo, para onde transferem os Condemnados á Morte, antes do Momento Fatal... E eu soube que nunca mais tornaria a vel-o, neste doce Mundo do Senhor !... Nunca... nunca mais!...

... Como dois navios em perigo, que passam na Tormenta,assim, nós nos cruzámos no Mar da Vida... Não fizemos, porém, signal algum ; não trocámos a menor palavra... Nem mesmo nada tinhamos a dizer-nos, porque não nos haviamos encontrado na Noite Santa, e sim num Dia de Vergonha...

Ambos estavamos cercados pelos muros de uma prisão, e ambos eramos dois Desherdados da Sorte... O Mundo repellira-nos de seu seio, e Deus de Sua Sollicitude... O laço que se arma para apanhar o Peccado, colhêra-nos em suas malhas...

III

O páteo da antiga Prisão por Dividas está com o calçamento completamente estragado. Os muros, que o cercam, são altissimos, e tão humidos, tão humidos, que chegam a estillar agua... Era ahi, sob um céo cálido, respirando uma atmosphera empesteada, que elle tomava fresco, tendo sempre um guarda, de cada lado, porque temiam que viesse a succumbir.

A’s vezes, costumava sentar-se entre aquelles que lhe vigiavam a Agonia; que o vigiavam, quando se levantava para chorar, ou quando se ajoelhava para rezar ; que o vigiavam a todo o momento, receiando que roubasse ao Patibulo a sua Prêza...

Duas vezes por dia, fumava no seu cachimbo, e bebia um caneco de cerveja... Su’Alma estava tão cheia de resolução e firmeza, que, em nenhum dos seus intimos recessos, abrigava o Medo... Em certas occasiões, elle chegava mesmo a dizer que se sentia contente por ver proximas as mãos do Carrasco.

Não obstante referir-se a cousas tão extranhas, os guardas não ousavam interrogal-o... Quem tem por missão vigiar Encarcerados, deve de fechar a bocca a sete chaves, e afivelar ao rosto a mascara da Impassibilidade.

Si assim não fizer, poderá, por ventura, commover-se, e tentar consolar o Prisioneiro que lhe confiarem... Nesse caso, que viria fazer a Piedade Humana, no Covil dos Assassinos ? !... Que palavra de Esperança poderia soccorrer, em tal logar, a Alma de um Irmão ? !...

Realisámos a Procissão dos Loucos, rodeando o páteo, em marcha lenta e cadenciada... Não nos importava celebrar essa ridicula ceremonia tradicional, pois bem sabiamos que eramos a propria Brigada do Diabo ; e que homens de cabeça raspada e pés acorrentados constitúem alegre Mascarada.

Quebrando as unhas e ensanguentando os dedos, desfiavamos cordas alcatroadas ; esfregavamos as portas das masmorras; limpavamos os tectos ; areiavamos os luzentes varões ; e, por turmas, ensaboavamos os assoalhos, fazendo grande ruído com os baldes d’agua.

Tambem cosiamos saccos ; quebravamos pedra ; batiamos no chão com as gamellas em que comiamos ; desentoavamos os Hymnos Religiosos ; e suavamos, fazendo mover a roda do moinho... Alegremente executavamos todos esses barbaros e pesados serviços, a que eramos obrigados, para ver si adormeciamos o Terror, tranquillamente, dentro do Coração.

E conseguimol-o, por momentos. Tão calmo repousava elle, que os dias deslisavam serenos, como uma balsa levada ao sabor da corrente... Estavamos já como que olvidados do tenebroso Destino que aguarda os Réprobos, quando, de uma feita, ao regressarmos de fatigante trabalho, passámos junto a uma cova recem-aberta.

Com a guela hyante, ameaçadoramente escancarada, aquelle buraco amarello abria a bocca, á espera de alimento... A propria lama reclamava sangue ao páteo de asphalto arruinado !... E soubemos que, antes de surgir a loura Aurora, um de nós balançar-se-ia no Espaço, pendente da Forca.

Hirtos e solennes, entrámos, com a Alma attenta á Morte, ao Espanto e ao Destino. O Carrasco passou, arrastando os pés, carregando o seu sacco de ferramentas... Cada Preso tremia, ao entrar para o seu Tumulo numerado...

Por toda aquella noite, os Phantasmas do Medo povoaram os corredores vasios... Na Cidade de Ferro, de cima a baixo, sentiam-se passos furtivos, que, porém, se não podiam ouvir... Pelas grades de ferro, que occultam as Estrellas, rostos lívidos pareciam espiar curiosamente...

Elle era o unico que repousava, tal alguem que adormecesse, deitado sobre a macia relva de um prado, e sonhasse alegremente... Os guardas velavam-lhe o somno ; e não comprehendiam como se póde dormir tão socegado, quando se está tão perto do Carrasco.

Os que choram por quem jamais soube o que era chorar, esses, sim, não pódem conciliar o somno !... Por isso, nós outros, os Desventurados, passámos em claro aquella noite d’infindavel Angustia... Cada qual soffria mais cruciantemente, ao recordar a Dôr immensa que devia de estar a tortural-o...

Ah ! é horrivel padecer-se por outrem !... O Soffrimento enterra-nos n’Alma, até o punho, toda a lamina envenenada do seu gládio... Foram como chumbo derretido, as lagrymas que carpimos, pelo sangue que não derramámos.

Os guardas, calçando sapatos de feltro sem salto, para não serem presentidos, rondavam, espiando para dentro das enxovias, pelos postigos gradeados... Com olhar de espanto e pavor, avistavam aquellas Fórmas indecisas, genuflexas no chão... E interrogavam-se uns aos outros, como era que oravamos por quem jamais orára !...

Passámos a noite inteira, ajoelhados, em oração — Dementes conduzindo o luto de um cadaver !— sentindo as extranhas e penosas sensações de quem vela o corpo d’algum Ente querido. E o sabor do Remorso era tal o de um vinho azedo, dado a beber numa esponja...

A Noite proseguia lentamente o seu curso, mas a Aurora parecia nunca mais querer surgir !... Os medonhos Phantasmas do Terror arremessavam-se, unidos, aos cantos dos carceres, onde jaziamos. Dir-se-ia que, rodeados pelas Trevas que os envolviam, vinham zombar de nós, provocar-nos, até em nossa frente!...

Passavam e repassavam... Deslisavam rapidamente, como transeúntes em manhã de nevoeiro... Bailando, saltando, subindo, descendo, deslocando-se, fazendo mil contorsões, cada qual mais subtil, fingiam os raios da Lua, coando-se atravez da folhagem do arvoredo... Caminhando com passos ceremoniosos, e cheios de tregeitos e esgares, vinham chegando para o ponto de reunião.

Fazendo caretas e gestos funambulescos, vimol-os passar, quaes Sombras impalpaveis, dando-se as mãos... Gyrando, gyrando, em grande ronda phantastica, dansaram uma sarabanda... Os passos de dansa desses Arlequins do Diabo tão floreados eram, tão caprichosamente feitos, que faziam lembrar os arabescos impressos pelo Vento na areia.

Com piruetas de marionettes , dansavam agilmente nas pontas dos pés. Soprando nas flautas do Medo, atordoavam-nos os ouvidos, ao celebrarem aquella horrenda Mascarada... Cantavam ruidosamente, longamente cantavam, porque cantavam para despertar os Mortos...

Esses ridiculos Sêres, que com tanta alegria cancaneavam, não eram, de modo algum, Fórmas aéreas... Para nós, que tinhamos a Existencia acorrentada, e cujos pés não podiam caminhar em liberdade, ah ! pelas Chagas de Christo ! eram vivos e bem vivos, e de horrendo aspecto !...

Rodando... rodando... walsavam e redomoinhavam... Alguns, cheios de affectação, gyravam dois a dois, aos pares... Outros, com passos pretenciosamente sérios, galgavam as escadas... E todos elles, com finos sarcasmos e carinhosas olhadellas, chegavam a immiscuir-se nas nossas preces...

O Vento da madrugada principiou a gemer, mas a Noite seguia o seu curso... Lenta... lentamente, fio a fio, uma a uma, até a ultima, as Trevas terminaram todas as malhas do manto collossal que tecem nocturnamente... Emquanto oravamos, temiamos a Justiça do Sol !...

O Vento gemebundo veiu errar em torno do Presidio, até que, talqualmente uma roda de aço, que gyrasse, sentimos os minutos penetrando dentro de nós... O’ Vento gemedor ! que crime commettemos, para termos tal Carcereiro ? !...

A sombra dos varões de ferro, em fórma de xadrez, projectou-se, emfim ! na parede caiada, fronteira ao meu grabato de táboas !... Ah ! nesse momento, eu soube que, em certo logar do Universo, a Aurora do Senhor, em vez de loura e rosada, é horrorosa e côr de sangue !..,

A’s seis horas da manhã varrèmos os nossos cubiculos. A’s sete, tudo repousava em socego. Mas um sôpro fremente de poderoso vôo, parecia agitar a Prisão, como si um passaro collossal, tatalasse invisivelmente as grandes azas... E’ que a Deusa sinistra da Morte, de halito glacial, nelle havia penetrado para matar !...

O Desgraçado passou... Não vestia trajes de purpura deslumbrante, nem cavalgava um ginete, alvo como o luar... Tres metros de corda e um nó corredío — eis tudo quanto necessita o Patibulo... Por isso, com a corda do Opprobrio, o Arauto veiu executar a sua nefanda Missão secreta.

Estavamos como alguem que, chafurdado em lodoso paul, caminhasse, ás apalpadelas, tacteando na escuridão... Não ousavamos balbuciar siquer uma prece, nem dar livre curso á nossa Angustia. Alguma cousa jazia morta dentro de nós... E essa cousa morta, era a Esperança !...

A Justiça Humana segue direito o seu caminho, sem delle se desviar uma unica pollegada... Ella tanto fere o Forte, como o Fraco... Sua marcha é implacavel... Com calcanhar de ferro, a monstruosa parricida esmaga o Forte !...

Esperavamos que soassem oito horas. Tinhamos a lingua pegagenta e grossa. A pancada das oito, era a pancada do Destino, que torna um homem maldito. E o Destino emprega um nó bem corredío, tanto para o melhor, como para o peior dos Homens.

Nada mais tinhamos a fazer, que esperar pelo signal annunciado. Semelhantes a rochedos fincados num valle deserto, conservavamo-nos quêdos e mudos. Mas, cada Coração, batia precípite, como um Doido rufando um tambor...

De subito, o relogio da Prisão abalou o ar fremente... De todo o Presidio elevou-se, então, unísono gemido d’impotente Desespero, tal o grito que se escutasse, soltado por algum leproso no seu antro.

Assim como se vêem as cousas mais horrorosas, atravéz do crystal dum Sonho, vimos a corda de cânamo pendente do Pelourinho... E ouvimos o começo de prece, que o laço do Carrasco abafou, num grande clamor...

A Dôr, que abalou o Condemnado, foi tão grande, tão grande, que o fez soltar aquelle angustiosissimo grito... Ah ! ninguém conheceu tão bem, como eu, o seu despedaçador Remorso e os seus suores de sangue !... Porque, aquelle que vive mais de uma vida, também deve de morrer mais de uma morte !...

IV

N o dia em que se executa um Réo, não se diz Missa no Presídio. O Sacerdote tem o coração bastante enfermo ; o rosto, lívido ; e, em seus olhos, vê-se escripto o que ninguem deve de ler...

Por esse motivo, ficámos fechados até quasi meio-dia. Quando o sino bateu, os chaveiros vieram abrir os cubiculos, um por um, fazendo retinir as grandes e pesadas chaves. Antes de abrir, espiavam pelo buraco da fechadura... Então, cada qual sahiu do Inferno em que jazia sosinho, e todos descemos pesadamente as escadas de ferro...

Fóra das masmorras, no páteo, respirámos o bom e puro ar do Senhor. Não era, todavia, como costumavamos fazer nos demais dias... O rosto deste, estava branco de medo ; o daquelle, mostrava-se sombrío... E eu nunca vi homens tristes contemplar tão intensamente a luz do Dia!...

Nunca, nunca vi homens tristes contemplar com tão intenso olhar essa Tenda Azul, que nós, os Prisioneiros, chamamos Céo, e cada nuvem, que no Alto passava, em venturosa liberdade.

Alguns, dentre nós, caminhavam de cabeça baixa... Esses sabiam que, si cada um soffresse a justa pena que merece, elles deviam de morrer... O Outro assassinára uma cousa viva, ao passo que elles haviam assassinado uma cousa morta...

Aquelle que pecca pela segunda vez, desperta uma Alma morta para a Dôr, e tira-a do seu sudario manchado, fazendo-a, mas em vão ! derramar novamente grossas gottas de sangue !

Como somnambulos, caminhando inconscientemente, authomaticamente, passeiavamos nas pontas dos pés, em volta do páteo acimentado. Caminhavamos silenciosos, em grande roda, sem ninguém pronunciar a mais insig­nificante palavra.

Rodeávamos o páteo, em silencio. Em cada cerebro vasio, turbilhonava a Memória das Cousas Horrendas, como um vento forte redomoinhando no ar... O Pavor surgia em nossa frente, e sentiamos o Terror colleando por traz de nós.

Os carcereiros pavoneavam-se, aqui e ali, guardando o seu rebanho de Feras. Garbosos, ostentavam o farda­mento novo dos domingos. Mas, pela cal viva grudada a sola das suas botas, bem sabiamos a que ceremonia ha­viam assistido.

No logar em que a cova fôra aberta, já nada mais se via. Denunciava-a, apenas, um monticulo de terra e areia, junto ao horrendo muro da Prisão, e um pouco de cal viva, afim de que o Réprobo tivesse um sudario...

Aquelle Desventurado tem uma mortalha, como bem pouca gente póde desejar. Lá em baixo, bem no fundo do páteo de um Presídio, elle jaz, nú, completamente nú, para sua maior vergonha, envolto num lençol de chammas.

Pelo tempo adiante, a cal devorar-lhe-á a carne e os ossos. Durante a noite, roerá os ossos rijos; e, de dia, a carne tenra. A cal viva come successivamente carne e ossos. Mas, tambem, devora sem cessar o Coração.

Durante tres longos annos, não se semeará, nem se plantará, naquelle sitio. Durante tres longos annos, o logar maldito conservar-se-á estéril e limpo, fitando o Céo, pasmo, com um olhar sem reproche.

Os homens cuidam que o Coração do assassino corrompe qualquer semente, que sobre elle se plantar. Mas, não é exacto. A benemerita Terra de Deus é mais generosa do que se pensa. Ali, naquelle terreno, a rosa vermelha, mais vermelha ainda desabrocharia, e a rosa branca, mais branca, mais immaculada.

De sua bocca nasceria, talvez, uma rosa encarnada, rubra, purpurea. De seu Coração, outra brotaria, branca, alvissima de neve. Quem poderá dizer de que maneira extranha Nosso Senhor Jesus-Christo manifesta Sua Santa Vontade, depois que se viu o cajado secco de humilde Peregrino florescer á vista dum grande Papa ? !...

Mas, nem a rosa alvissima de leite, nem a rosa escarlata, pódem florir, respirando o ar duma masmorra. Ali, só póde haver seixos e pedras... Os Homens da Lei sabem que, muitas vezes, as flores têm acalmado o Desespero de um homem de coração simples...

Por isso, nunca, jamais, nem a rosa côr de vinho, nem a rosa côr de leite, cahirão despetaladas sobre esse pedaço de terra e areia, junto ao muro do Presídio.

para dizer ás pessoas, que passarem pelo páteo, que o Filho de Deus morreu por todos nós.

Não obstante—mesmo morto e enterrado—elle continuar ainda, como outrora, cercado pelos pavorosos muros da Prisão, e que ninguem venha chorar, ou rezar, por quem jaz em terreno tão ímpio :

o Miseravel repousa em paz, ou em breve repousará. Nada ha ali que possa amedrontal-o. O Terror não passeia de dia, por aquelle sitio, pois a Terra, sem claridade, em que elle descansa, não tem Sól, nem Lua.

Elles o enforcaram, como se enforca um animal ! Nem siquer mandaram dobrar o sino, lugubremente, de modo a dar algum socego á sua Alma aterrada !... Levaram-no precipitadamente, e trataram logo de occultal-o dentro dum buraco.

Despiram-lhe toda a roupa, e o abandonaram ás moscas ! Caçoaram da sua garganta entumecida e arroxeada, e dos seus olhos puros e fixos. Com grandes gargalhadas o envolveram no lençol com que costumam amortalhar os condemnados.

O Capellão não se ajoelhou á beira desse tumulo infamado. Tambem não o assignalaram com a Bemdita Cruz que Jesus-Christo deu aos Peccadores, justamente porque o Morto era um daquelles, para cuja salvação Nosso Senhor baixou á Terra.

Tudo está perfeitamente bem. Elle transpoz as fronteiras conhecidas da Vida. Por elle, lagrymas de extranhos encherão a Urna da Piedade, ha muito quebrada... Ah ! porque serão os Réprobos que hão de choral-o, e os Réprobos nunca deixam de chorar !...

V

I GNORO si a Lei tem, ou não, razão. A unica cousa que nós, os Condemnados, sabemos, é que os muros da Prisão são sólidos; e que, cada dia que se passa, é como si fosse um anno, mas um anno de longos dias infindaveis.

Eu, porém, sei mais o seguinte : Todas as leis que os homens têm feito, desde o dia em que o primeiro dentre elles tirou a vida a seu irmão, e que o Mundo da Afflicção começou, todas ellas desperdiçam o que é bom, e só conservam o que não presta.

Sei ainda (Ah ! como sería bom si todos pudessem tambem sabel-o !) que, cada Prisão que se edifica, é construida com os tijolos da Infamia, e cercada de ferreos varões, com receio que Jesus-Christo veja como os homens mutilam seus proprios irmãos.

Por meio de grades, elles desfiguram a Lua graciosa, e cegam o bom Sol. E fazem muito bem em occultar o seu Inferno, pois, lá dentro, occorrem cousas que não deveriam de ser vistas, nem pelo Filho de Deus, nem pelos filhos dos homens.

As acções mais vis, á semelhança de hervas venenosas, espalham-se pelo ambiente da Prisão. Só o que o Homem tem de bom, é que ali se esgota, se aniquilla. A pallida Angustia vela á porta. O carcereiro é o Desespero.

Porque elles amedrontam as crianças, fazem-n’as soffrer fome, até que chorem noite e dia. Flagellam o Fraco ; açoutam o Idiota; zombam dos Velhos cobertos de cãs. Alguns enlouquecem ; todos se tornam peiores ; e ninguem póde murmurar siquer.

Cada estreito e escuro cubiculo, que habitamos, é infecta e lobrega sentina. O hálito fétido da Morte viva empesteia o respiradouro. Ali, tudo, excepto o Desejo, reduz-se a pó, na Machina Humana.

A agua salobra, que bebemos, vem cheia de nauseabundo limo ; o pão, que pesam com meticuloso cuidado, é misturado com cal e gesso. Ali, o Somno nunca se deita : caminha com olhos esbugalhados, implorando o Tempo.

Apezar de se ver, constantemente, o magro Espectro da Fome e o livido Phantasma da Sêde, pouco caso se liga ao tratamento que dão no Presídio. O que gela e mata inteiramente, é que, cada pedra que levantamos durante o dia, á noite se transforma no nosso proprio Coração.

Com as sombras da Meia-Noite pairando eternamente no Coração, e o crepusculo no cubiculo, cada qual, no seu Inferno separado, desfia a corda alcatroada, que lhe dão por tarefa, e faz gyrar a roda... Então, o Silencio amedronta mais que o som dos sinos de bronze !...

Jamais voz humana alguma de nós se approxima, para nos consolar com doces palavras. O olhar, que a todos os instantes espia pelo ralo, é impiedoso e duro. Esquecidos do resto do Mundo, apodrecemos, tendo o corpo e a Alma gastos.

Aviltados e sós, enferrujamos, desse modo, a cadeia de ferro da Existencia. Alguns, proferem maldições ; outros, choram ; muitos não deixam escapar o menor gemido. Mas as Leis Eternas do Senhor são indulgentes, e partem o coração empedernido.

Cada Coração que se parte no páteo ou no cubiclo duma Prisão, é como aquella caixinha quebrada, que deu o seu thesouro a Deus, e encheu a habitação do lazaro com os perfumes do nardo mais precioso.

Felizes aquelles cujos Corações podem partir-se e ganhar a paz do Perdão ! De que maneira o Homem poderia executar o seu plano, e purificar a Alma do Peccado ? Onde, sinão num Coração partido, poderia Jesus-Christo penetrar ? !...

O Homem de garganta entumecida e arroxeada, e de olhos puros e fixos, espera as Santas-Mãos que receberam o Bom-Ladrão no Paraiso. O Senhor não despresa o Coração partido e contricto.

Os Juizes concederam-lhe tres semanas de vida, só tres pequenas semanas, para que elle curasse a Alma do desaccôrdo em que estava comsigo mesma, e purificar da mais leve gotta de sangue a mão que empunhou a arma homicida.

Com lagrymas de sangue, elle purificou-a—a mão que manejára o ferro. Só o sangue póde apagar o sangue. Só as lagrymas pódem curar. E a mancha vermelha, que era de Caim, mudou-se no sello alvissimo de Jesus.

VI

N o Presídio de Reading, perto da cidade, existe um tumulo infamado. Dentro delle jaz um miseravel, devorado pelas linguas das chammas, envolto num lençol ardente. Esse tumulo não tem inscripção alguma.

O Enforcado ahi repousará, até que Jesus-Christo chame os Mortos, no Dia do Juizo-Final. Não é preciso prodigalisar lagrymas, nem soltar suspiros abafados. O Homem matou a quem amava, e por isso teve que morrer.

No emtanto, todo o mundo mata o que ama. Alguns (Que ninguem deixe de sabel-o !...) o fazem com um olhar de odio ; outros, por meio de palavras carinhosas ; o covarde, com beijos; o homem corajoso, com um ferro !

Tradução por IA · Original