Alice no País das Maravilhas (Trad. Lobato, 8ª edição)

Tradução humana · Tradução de Monteiro Lobato (†1948) · Fonte: Wikisource · Domínio público

A pobre criatura soluçou novamente (ou grunhiu, era impossível distinguir) e houve uma pequena pausa. Alice pôs-se a refletir no que faria dela ao chegar em casa. Enquanto isso a criança grunhiu de novo, tão bem gunhido que não houve mais dúvida. Era mesmo um porquinho; e, como era um porquinho, não havia razão para ser levado ao colo. Alice largou-o no chão.

Assim que se viu livre, a “criança” pôs-se a correr na direção do bosque. Alice suspirou. “Se tivesse crescido gente, seria uma horrível futura pessoa; mas para porquinho está muito bem e até bonitinho”, disse consigo. E começou a pensar em outras crianças que conhecia, as quais ficariam muito bem se igualmente pudessem ser viradas em porquinhos. “Se a gente soubesse como transformá-las...” Ia pensando isso quando deu com o gato da Duquesa sentado num tronco, a poucos passos de distância.

O gato fêz-lhe uma careta, mas de bom humor. Mesmo assim Alice achou prudente tratá-lo com respeito, porque era gato de unhas muito compridas.

— Gatinho Careteiro! disse ela com timidez, não sabendo se o gato gostava que o chamassem assim. Vendo que não se zangava, aventurou-se a concluir a frase:

— Pode dizer-me que caminho devo tomar?

— Isso depende do lugar para onde quer ir, respondeu com muito propósito o gato.

— Não tenho destino certo.

— Nesse caso, qualquer caminho serve.

— Servirá, sim, se o caminho fôr ter a algum lugar , sugeriu Alice.

— Qualquer caminho conduz a algum ponto, se você andar depressa e chegar, disse o gato.

Alice viu logo que o felino era animal de muito bom senso, nada parecido com o criado idiota. E fêz outra pergunta.

— Diga-me, Senhor Gato, que espécie de gente é a que vive nestas paragens?

— Dêste lado vive o Chapeleiro, respondeu o Gato apontando com a mão esquerda, e dêste outro lado vive a Lebre Telhuda. Visite ao qual quiser. Ambos são malucos.

— Mas eu não gosto de lidar com gente maluca, disse Alice.

— Então está pegada, porque aqui tudo é maluco. Eu sou maluco. Você é maluca.

— Como sabe que sou maluca? perguntou Alice.

— Deve ser, respondeu o Gato; do contrário não estaria aqui.

O raciocínio não pareceu muito perfeito, mas a menina continuou nas perguntas.

— E você, como sabe que é maluco? disse ela.

— Vou explicar. Mas diga-me antes: acha que os cães são malucos?

— Suponho que não.

— Pois bem, concluiu o Gato: os cães rosnam, quando se zangam e mexem com a cauda, se estão contentes, não é assim? Já eu rosno quando estou satisfeito e movo a cauda quando estou zangado. Por conseguinte, sou maluco.

— Uma coisa é rosnar e outra é roncar. Os gatos rosnam, os cães roncam, explicou Alice.

— Dá na mesma, concluiu o Gato. E, mudando de assunto, perguntou: — Vai jogar croquet com a Rainha?

— Gostaria muito, mas não fui convidada.

— Pois se fôr, lá me encontrará, disse o gato desaparecendo.

Alice não se mostrou surpreendida com tais modos, porque já estava acostumada às esquisitices daquele povo. Ficou parada, com os olhos postos no galho onde o Gato estivera, a cismar no que faria. Nisto o Gato reapareceu de brusco.

— A propósito, indagou êle, que é que fêz da criança da Duquesa?

— Soltei-a, porque virou porquinho.

— Assim devia ser, murmurou o Gato desaparecendo de novo.

Alice ainda esperou uns momentos, certa de que êle voltaria pela terceira vez para perguntar mais al guma coisa. Mas como não voltasse, dirigiu-se para os lados da Lebre Telhuda.

“Já vi muitos chapeleiros,” ia murmurando, “e é gente que não me interessa. Prefiro conhecer a Lebre Telhuda. Como estamos em maio, é possível que esteja menos maluca do que em abril.”

Não tinha ainda terminado êste raciocínio, quando ao erguer os olhos viu o Gato reaparecer novamente na árvore.

— Que está pensando? indagou êle.

— Não é da sua conta! respondeu Alice aborrecida com aquela espionagem. Melhor seria que ficasse ou se fosse embora duma vez.

— Muito bem, disse o gato filosòficamente — e começou a desaparecer pela terceira vez; primeiro desapareceu a ponta do rabo, depois as pernas e por fim a cabeça. O corpo todo já havia desaparecido e a cabeça ainda estava no pau, com a careta sempre.

— Tenho visto muito gato que não faz careta e já vi um gato careteiro. Mas careta só, sem gato atrás, é a primeira vez que estou vendo...

Duzentos passos adiante Alice encontrou a casa da Lebre. Ou pelo menos a casa que devia ser da Lebre, porque a chaminé tinha forma de orelha e o telhado era coberto de pele, em vez de telhas. Casa enorme, tão grande que antes de entrar Alice resolveu comer um pedacinho do cogumelo que aumentava a estatura. E enquanto comia, pensava:

“Se a Lebre estiver doida furiosa, com certeza vou arrepender-me de tê-la procurado em vez do Chapeleiro ...”

CAPÍTULO VII UM CHÁ DE DOIDOS VARRIDOS

O CHAPELEIRO e a Lebre Telhuda estavam tomando chá debaixo duma árvore, fronteira à casa. Entre os dois sentara-se um Rato do Campo, o qual dormia a bom dormir, e sono tão pesado que a Lebre e o Chapeleiro apoiavam nêle os cotovelos, como se fosse almofada.

“Muito mal deve estar passando o Rato” pensou Alice. Em todo caso, como está dormindo, talvez não sinta a dor.

A mesa era enorme; apesar disso os três se comprimiam numa das cabeceiras. Assim que viram Alice aproximar-se, gritaram: — Não há lugar! Não há lugar!

— Há, e de sobra! berrou Alice, indignada com a grosseria, indo sentar-se na outra cabeceira, numa grande poltrona.

— Aceita um cálice de vinho? perguntou a Lebre em tom animador.

Alice olhou e só viu chá em cima da mesa.

— Não vejo vinho nenhum por aqui...

— Se você não vê é porque não há, retorquiu a Lebre.

— Se não há, a senhora não foi delicada oferecendo-me o que não existe.

— Também não acho delicado vir uma pessoa estranha sentar-se a esta mesa sem ser convidada, retrucou a Lebre.

— Não sabia que esta mesa era sua; além disso, como é muito grande, pareceu-me posta para muito mais de três pessoas.

— Em vez de ser assim tão metediça, era melhor que cortasse êsse cabelo. Está comprido demais, advertiu o Chapeleiro, que até ali se conservara calado, a olhar para a menina atentamente.

Alice respondeu com severidade: — É a maior das grosserias fazerem-se alusões pessoais como essa que o senhor acaba de lançar, ouviu?

O Chapeleiro arregalou desmesuradamente os olhos e saiu-se com um disparate que não tinha menor relação com a conversa.

— Em que é que corvo se parece com uma mesa de escrever?

“Ora graças que mudou de assunto!” pensou Alice. Gosto de decifrar enigmas e adivinhações. E disse em voz alta: — Creio que adivinho.

— Quer dizer que é capaz de responder à questão direitinho? perguntou a estúpida Lebre.

— Está claro.

— Então diga o que quer dizer.

— Eu quero dizer o que penso, o que dá na mesma.

— Não, senhora! contestou o Chapeleiro. Se assim fôsse, “vejo o que como” seria o mesmo que “como o que vejo.”

— Está claro, emendou a Lebre. Se assim fôsse, você poderia dizer que “quero o que tenho” era o mesmo que “tenho o que quero.”

— Claríssimo! ajuntou o Rato do Campo, que parecia falar dormindo. Se assim fôsse, você poderia dizer que “respiro quando durmo” era o mesmo que “durmo quando respiro.”

— Isso aliás é verdade com você, disse o Chapeleiro dirigindo-se ao Rato. Você vive a dormir, e portanto respira quando dorme e dorme quando respira.

Houve uma pausa. Todos pararam de falar e Alice aproveitou o silêncio para refletir na diferença entre um corvo e a escrivaninha. O primeiro a falar foi o Chapeleiro.

— Em que dia do mês estamos? perguntou, tirando o relógio do bolso e olhando as horas atentamente, depois dumas sacudidelas.

Alice fêz a conta e disse que estavam a quatro.

— Dois dias de diferença! suspirou o Chapeleiro. E, dirigindo-se à Lebre, com ar aflito: — Torno a repetir que a manteiga não serve...

— Era a melhor que havia, respondeu a Lebre humildemente.

— Sim, mas está cheia de migalhas de casca de pão. Aposto que você a tirou da lata com a faca de pão.

A Lebre veio examinar o relógio que o Chapeleiro tinha na mão e fêz também cara aflita. Pegou-o, meteu-o na xícara de chá e, depois de o mirar e remirar, repetiu o que já havia dito:

— Não havia manteiga de melhor qualidade.

Alice também observara o relógio, espiando por entre as orelhas da Lebre.

— Que relógio esquisito! exclamou. Marca dias em vez de horas.

— E que mal há nisso? inquiriu o Chapeleiro. Por acaso marca o seu relógio os anos?

— Seria absurdo, porque durante um ano qualquer relógio acaba a corda muitas vêzes. Por isso não há relógio que marque ano.

— É justamente o que acontece com o meu, disse o Chapeleiro, deixando a menina completamente atrapalhada. Alice não pôde compreender coisa nenhuma, não achando nenhum sentido nas suas palavras. E declarou:

— Não compreendi muito bem o que o senhor disse...

Em vez de responder, o Chapeleiro gritou: — O Rato do Campo dormiu outra vez! e despejou-lhe chá no nariz, fazendo-os sacudir a cabeça com impaciência.

— Claro, claro, disse o Rato sem abrir os olhos. Era precisamente o que eu ia dizer.

— Já resolveu a charada? perguntou de repente o Chapeleiro, voltando-se para Alice.

— Não, e desisto. Qual é a resposta? Diga. Estou ansiosa.

— Também nunca achei a resposta, retorquiu o Chapeleiro.

— Nem eu! ajuntou a Lebre.

Alice danou. — Creio que poderiam fazer coisa melhor do que matar o tempo propondo charadas que não têm solução, disse em tom irônico. — Se você conhecesse o tempo tão bem como eu, não falaria em perder tempo. O tempo é o tempo.

— Não sei o que quer dizer com isso...

— Naturalmente que não sabe, disse o Chapeleiro. Estou certo de que você jamais falou com o Tempo.

— É possível, retrucou Alice, mas em minhas lições de música costumo marcar o tempo — assim, batendo o compasso.

— Compreendo. Naturalmente, de tanto bater o compasso você fêz que o Tempo se magoasse, e está êle agora de mal com você. Se você estivesse de bem com o Tempo, êle a ajudaria a fazer do relógio o que quisesse. Por exemplo: suponha que são nove horas da manhã, isto é, hora de começar a lição. Era só piscar um ôlho para o relógio e êle punha-se a correr e logo estava marcando meio-dia.

— É assim que o senhor faz? perguntou Alice.

O Chapeleiro meneou a cabeça.

— Não! disse êle. Briguei com o Tempo no mês de março último, justamente antes dela ficar maluca (e apontou para a Lebre com a colher de chá.) Foi isso no grande concêrto dado pela Rainha de Copas. Eu tinha de cantar uma cantiga que com certeza você sabe. O Pequeno Morcego.

— Sei qual é.

— Pois é, continuou o Chapeleiro. Estava cantando isso e vai de repente a Rainha me interrompe, gritando: “Êste sujeito está matando o tempo! Cortem-lhe a cabeça!”

— Que malvada! exclamou Alice.

— E desde então, prosseguiu o Chapeleiro com voz abatida, o Tempo não faz nada do que lhe peço. Este meu relógio marca sempre cinco horas.

Alice teve uma grande idéia: — Hum! É por isso que o chá está sempre na mesa. Compreendo agora. Chá das cinco ...

— Justamente, continuou o Chapeleiro com um suspiro. Como são sempre 5 horas, o chá das 5 horas está sempre na mesa — e nem temos tempo de lavar as xícaras, porque nunca se passa a hora do chá.

— E o mais que fazem é mudar de lugar... observou Alice.

— Isso mesmo. Mudamos de lugar, vamos assim dando volta à mesa, razão pela qual usamos mesa tão grande.

— Mudemos de assunto, disse a Lebre bocejando. Já estou farta de ouvir falar sempre na mesma coisa. Proponho que esta menina conte uma história.

— Não sei se me lembro de alguma, disse Alice com modéstia.

— Então que conte uma o Rato do Campo, propôs a Lebre — e virando-se para o Rato, berrou: — Acorde, dorminhoco!

Todos caíram em cima dêle, de beliscões e tapas, até que o Rato abrisse vagarosamente os olhos sonolentos.

— Não estava dormindo, afirmou êle com voz bocejante. Não perdi uma palavra do que vocês disseram.

— Conte-nos, então, uma história! pediu a Lebre.

— Conte, conte! gritou Alice.

O Chapeleiro observou: — E comece logo, se não dorme antes de principiar.

— Era uma vez três irmãzinhas, começou o Rato do Campo: Elsa, Lúcia e Tília, as quais viviam no fundo de um poço.

— De que viviam? indagou Alice, sempre curiosa de saber que é que as personagens das histórias costumam comer.

— Viviam de doces, respondeu o Rato, depois de pensar um instante.

— Não pode ser! objetou Alice. Se só comessem doces, haviam de ficar doentes.

— Pois foi o que aconteceu. As três adoeceram gravemente, disse o contador da história.

Alice pôs-se a pensar que coisa extraordinária seria viver só de doces. Mas deixando de insistir nisso, perguntou porque viviam num poço.

— Não amole! gritou a Lebre. Tome mais chá e fique quieta. Deixe o Rato contar a história.

— Mais chá? Como isso, se até agora não tomei chá nenhum? disse a menina ofendida.

— Você quer dizer, interveio o Chapeleiro, que não pode tomar menos chá . É fácil tomar mais ; menos é que é impossível.

— Ninguém pediu sua opinião! observou Alice com impertinência.

— Bravos! Temos a menina agora a fazer alusões pessoais! gritou o Chapeleiro, triunfante.

Desta vez Alice não soube responder e permaneceu escandalizada enquanto se servia de chá, com torradas e manteiga. Depois, dirigindo-se ao Rato do Campo, repetiu a pergunta sobre o motivo por que viviam no fundo do poço as três irmãs.

O Rato refletiu alguns momentos e disse: — Era um poço de doces.

— Absurdo! Nunca existiu semelhante coisa! afirmou Alice, gritando. Mas o Chapeleiro e a Lebre impuseram-lhe silêncio e o Rato do Campo observou, com visível mau humor:

— Se não pára de falar, é melhor que conte a história duma vez.

— Não, não! Por favor, continue! Prometo não interromper mais, disse a menina humildemente.

Menos aborrecido, o Rato do Campo continuou:

— As três maninhas aprenderam a tirar do poço...

— Quê?

— Doces! declarou o Rato, sem zangar-se com a nova interrupção.

— Quero uma xícara limpa! gritou o Chapeleiro. Vamos todos mudar de lugar. E levantou-se, seguido do Rato do Campo e da Lebre, trocando assim de lugar. Alice, muito contra a vontade, foi sentar-se no lugar da Lebre. Quem saiu lucrando com a troca foi o Chapeleiro, que ficou com as torradas da menina; e quem mais perdeu foi Alice, porque a Lebre havia derramado todo o leite da sua leiteira na mesa.

A menina não queria novamente ofender o Rato com as suas interrupções, mas não resistiu à tentação de perguntar:

— Mas como tiravam elas o doce do poço?

— Assim como se tira água dum poço dágua assim também se tira doce dum poço de doce, explicou o Chapeleiro.

— Mas as irmãs estavam no fundo do poço e não fora dêle! objetou Alice.

— Isso lá é verdade, confirmou o Rato do Campo, deixando Alice tão aturdida que resolveu calar-se e não mais perguntar coisa alguma. O contador da história, já com os olhos pesados de sono, bocejava, esfregava a cara e dizia, continuando a sua horrível narração:

— As três irmãs aprenderam a tirar do poço muitas coisas — tôdas as coisas que começam por M...

— Por que M? interrompeu Alice.

— E por que não M? interveio a Lebre.

Alice calou-se. O Rato do Campo tinha fechado os olhos e ia adormecendo, mas o Chapeleiro deu-lhe um forte beliscão e fê-lo continuar.

— ... que começavam por M, tais como: melancia, melão, marmelada, memória, e muita-coisa . Já viu um pedaço de muita-coisa?

Alice estava tão atrapalhada com a trapalhada que respondeu:

— Não sei.

— Nesse caso, cale a bôca, advertiu o Chapeleiro.

Não podendo por mais tempo suportar tanta maluquice e grosseria, a menina levantou-se e foi-se embora. O Rato do Campo aproveitou o incidente para adormecer de novo e os outros nem deram pela sua saída, embora Alice olhasse para trás duas ou três vêzes, com esperança de que a chamassem. Da última vez que olhou viu que os dois malucos tentavam enfiar o Rato do Campo dentro do bule de chá.

“Nunca mais me pilham!” ia Alice dizendo pelo caminho, o qual atravessava a floresta. De repente parou diante de uma árvore que tinha uma porta.

“É curioso isto de árvore com porta!” pensou ela.

Mas que é que não é curioso nesta estranha terra? E tratou de ir entrando.

Com surprêsa, achou-se de novo na sala grande do comêço dêste livro, perto da mesinha de vidro.

“Agora, sim, sei o que fazer!” murmurou ela. E pegando na chavinha de ouro abriu a minúscula porta que dava para o jardim. Para passar por ali tinha de diminuir a estatura. Para isso bastava comer um pedaço do cogumelo. Foi o que fêz. Ficou logo do tamanho necessário, passou pela portinha e pôde finalmente penetrar no maravilhoso jardim, cheio de lindos canteiros de lindas flôres e de repuxos dágua como nunca se viram iguais.

CAPITULO VIII O CAMPO DE CROQUET DA RAINHA

L OGO NA entrada do jardim havia uma enorme roseira coberta de rosas brancas, que três jardineiros estavam apressadamente pintando de vermelho. Achando o caso muito curioso, Alice aproximou-se para ver melhor. E pôde ouvir a conversa dos jardineiros.

— Cuidado, Cinco! Não me espirre tinta dêsse jeito!

— Não foi por culpa minha. Foi o Sete que me deu um empurrão, respondeu o Cinco de mau humor.

O Sete olhou atravessado e contestou:

— Você tem a mania de fazer as coisas e pôr culpa nos outros...

— Cale a bôca que é o melhor! retrucou o Cinco. Não foi à toa que a Rainha disse ontem que você merecia ser decapitado.

— Decapitado, por que? indagou o que havia falado primeiro.

— Não é da sua conta, Dois. Cuide do seu serviço, respondeu o Sete.

— É, sim, da conta dêle! disse o Cinco. E vou contar porque foi. Foi porque levou para a cozinheira batatas de dália como se fossem batatas doces.

O Sete ia largando o pincel para responder, quando deu com a menina desconhecida. Ficou atrapalhado e por fim cumprimentou-a. Os outros também largaram do serviço e fizeram o mesmo. — Poderão os senhores explicar-me por que motivo estão pintando essas rosas? perguntou a menina.

Cinco e Sete nada responderam, limitando-se a olhar para Dois, que disse em voz baixa: — Por uma razão muito simples. Esta roseira devia ser de rosas vermelhas, mas nós, por engano, plantamos uma roseira de rosas brancas. Se a rainha souber, manda-nos cortar a cabeça. Por isso estamos a corrigir o nosso êrro antes que ela chegue.

Nisso o Cinco, que estivera de olhos postos numa certa direção, gritou muito aflito: — A Rainha vem vindo! Os três lançaram-se por terra, com as caras ocultas nas mãos, enquanto Alice olhava no rumo indicado. Tinha imensa curiosidade de conhecer a Rainha.

Lá vinha a grande dama! A frente marchavam dez soldados armados de paus. Tinham a mesma forma dos três jardineiros, quadrados e chatos como cartas de baralho, com mãos e pés saindo dos cantos. Em seguida vinham os fidalgos da Côrte, ornamentados de naipes de ouro e marchando dois a dois, como os soldados. Depois vinham as crianças da Côrte também em número de dez e vestidinhas de naipes de copas. A seguir vinham os convidados, na maioria reis e rainhas — e entre êles Alice reconheceu o Coelho Branco. Vinha falando muito depressa, sorrindo a tudo que lhe diziam e passou por Alice sem lhe dar atenção. Depois vinha o Valete de Copas, carregando a coroa do Rei numa almofada de veludo; e finalmente vinham o Rei e a Rainha de Copas.

Alice ficou na dúvida se devia deitar-se no chão como os três jardineiros, embora jamais ouvisse falar de semelhante prática à passagem dos cortejos reais. “Além disso”, pensou ela, “de que serviria um cortejo, se todos tivessem de deitar-se de cara para a terra durante a passagem? Ninguém poderia vê-lo e os cortejos existem para ser vistos.” Resolveu ficar de pé e aguardar os acontecimentos. Quando o cortejo lhe passou à frente, todos pararam e fixaram os olhos nela.

— Quem é esta menina? perguntou com severidade a Rainha, voltando-se para o Valete de Copas, o qual, em resposta, limitou-se a sorrir, fazendo uma reverência.

— Idiota! exclamou a Rainha. E dirigindo-se a Alice indagou: — Como se chama?

— Saiba Vossa Majestade que meu nome é Alice, respondeu a menina delicadamente. E pensou consigo: “Nada tenho a recear, porque tôda esta gente não passa de baralho de cartas com pernas, braços e cabeças.”

— E quem são êstes figurões? perguntou a Rainha apontando para os três jardineiros. Como estivessem deitados de costas para cima, e as costas das cartas de baralho são tôdas iguais, não podia saber se os jardineiros eram reis ou valetes.

— Como posso saber se não sou daqui? respondeu Alice, admirada da sua própria coragem. Não é da minha conta.

A Rainha ficou vermelha e depois de olhá-la por algum tempo exclamou, num acesso de cólera: — Cortem-lhe a cabeça!

— Não seja tôla! gritou a corajosa menina, deixando a Rainha estupefata. Nisto o Rei pôs a mão no ombro da grande dama e observou calmamente:

— Não faça caso, Rainha. Trata-se duma simples garôta — mas a Rainha deu-lhe um safanão e ordenou ao Valete:

— Vire-os para cima! o que o Valete fêz com a ponta do pé.

— Levantem-se! bradou a Rainha.

Os três jardineiros levantaram-se e começaram a fazer humildes reverências ao Rei, à Rainha, aos fidalgos e a todos mais.

— Parem com isso! ordenou a Rainha. Que estavam fazendo aqui?

— Saiba Vossa Majestade, começou a responder o Dois, ajoelhando-se para falar, que estávamos...

— Estou vendo! gritou a Rainha de olhos postos na roseira. E voltando-se para os soldados: — Cortem-lhes a cabeça! ordenou.

Em seguida o cortejo moveu-se para frente, ficando ali os soldados incumbidos de executar a real sentença. Os pobres jardineiros correram para Alice, pedindo-lhe socorro. A menina apiedou-se e resolveu defendê-los. Agarrou-os e escondeu-os num vaso de flôres que havia perto. Os soldados procuraram-nos em vão e por fim lá se foram, muito sossegados da vida.

— Cortaram as cabeças daqueles patifes? indagou a Rainha logo que os soldados se reuniram ao cortejo.

— Saiba Vossa Majestade que as cabeças dêles lá se foram! responderam todos a um tempo.

— Muito bem! exclamou a Rainha satisfeita. E, voltando-se para Alice, gritou de longe: — Sabe jogar croquet!

— Sim, respondeu Alice sem hesitar.

— Então venha! ordenou a grande dama.

Alice correu a acompanhar o cortejo, muito curiosa do que iria acontecer.

— Que lindo dia! exclamou uma voz a seu lado.

Era o Coelho Branco.

— Lindo, realmente, concordou a menina. Onde está a Duquesa?

O Coelho Branco ergueu-se na ponta dos pés e disse-lhe ao ouvido:

— Foi condenada à morte!

— Por quê?

— Está com pena dela?

— Nenhuma. Estou apenas curiosa de saber a causa da sua condenação.

— Ela deu um sopapo na cara da Rainha... começou o Coelho a contar, mas teve de interromper a narrativa, tal o acesso de riso que atacou Alice. O Coelho ficou receoso de que a Rainha percebesse o assunto da conversa e afastou-se disfarçadamente.

Tinham chegado ao campo de croquet .

— Coloquem-se todos nos seus lugares! ordenou a Rainha com voz de trovão.

Os jogadores obedeceram. Correram em tôdas as direções, tropeçando uns sobre os outros e por fim colocaram-se cada qual no seu lugar. Ia começar a partida.

Alice jamais vira um campo de croquet como aquêle, cheio de altos e baixos. As bolas eram ouriços vivos e os arcos eram formados pelos soldados, dobrados pelo meio do corpo, com as mãos e os pés enterrados no solo.

Os jogadores jogavam todos ao mesmo tempo e não paravam de discutir um só instante. De minuto em minuto a Rainha irritava-se e, batendo o pé com fúria, ordenava: — Cortem-lhe a cabeça!

Alice começou a ficar inquieta, porque embora ainda não tivesse brigado com a Rainha, via que isso podia acontecer dum instante para outro e — “Que será de mim então? A moda é cortar a cabeça por qualquer coisa, e andam tanto na moda, que já não há cabeças em cima dos pescoços.”

Pôs-se a procurar o jeito de escapar dali sem dar na vista. Súbito notou alguma coisa estranha no ar Prestando maior atenção, percebeu o que era. “O Gato Careteiro!” exclamou.”Tenho agora com quem conversar um bocado.”

— Como vai, menina? disse-lhe o Gato, parando de fazer caretas.

Alegre de ter um ouvinte, Alice começou a falar sôbre aquela estranha partida de croquet , na qual tomara parte sem querer.

— Não jogam direito, disse ela. Discutem que é um horror e parece que não seguem regra nenhuma. Ninguém pode imaginar a confusão que causa jogar com os ouriços vivos em vez de bolas de pau. Ainda agora tinha eu de pegar uma bola que veio do meu lado. Assim que armei a pancada, êle fugiu correndo e me deixou sem bola.

— Está gostando da Rainha? perguntou o Gato em voz baixa.

— Nada, nada. Ela é tão... ia dizendo Alice, mas percebeu que a Rainha estava atrás dela, ouvindo tudo, e disse... tão hábil no jôgo que nem vale a pena jogar-se com ela.

A Rainha sorriu e passou.

— Com quem está falando? perguntou o Rei a Alice, ao vê-la de olhos postos numa cara de gato.

— Estou conversando com o meu amigo Gato Careteiro. Quer que lho apresente?

— Não gosto nada da cara dêle, respondeu o Rei, mas isso não impede que lhe dê minha mão a beijar.

— Dispenso a honra, rosnou o Gato.

— Impertinente! exclamou o Rei. E, voltando-se para a menina, disse: — Não gosto nada dessa cara de gato.

— Já li num livro, lembrou Alice, que só um gato pode olhar firme para um rei.

— Pode ser que sim, advertiu o Rei, mas vou já mandar botar êsse gato daqui para fora. E chamou a Rainha, que ia passando.

— Minha cara, desejo que mandes dar cabo dêste gato.

A Rainha resolvia tôdas as situações sempre do mesmo modo — “Corte a cabeça!” Por isso limitou-se a gritar: — Cortem-lhe a cabeça!

— Eu mesmo vou buscar o carrasco, disse o Rei, afastando-se.

Enquanto isso, o jôgo continuava, sempre na maior confusão. A Rainha já mandara decapitar metade dos jogadores, pois era essa a pena que dava para quem cometia um êrro. Por fim acabou-se o jogo e Alice voltou a lidar com o gato, ficando surpreendida de ver uma multidão em redor dêle. O Rei, a Rainha e o carrasco estavam empenhados numa forte discussão. Todos três falavam ao mesmo tempo, enquanto um silêncio de terror reinava na comitiva.

Quando Alice apareceu, pediram-lhe que resolvesse o caso, e cada qual lhe repetiu as razões que tinha. Mas como ninguém esperava a sua vez de falar, Alice não conseguiu entender coisa nenhuma.

O caso era êste. O carrasco alegava que para cortar a cabeça do gato era preciso haver um gato ligado àquela cabeça. Ora, não havia gato ligado à cabeça, logo êle não podia cortar a cabeça do gato.

O Rei alegava que se a real ordem não fôsse cumprida êle mandaria matar a todo o mundo (era esta ameaça que havia deixado o auditório em tão profundo silêncio.)

Alice interveio e declarou: — Êste gato pertence à Duquesa e não pode ser decapitado sem o consentimento dela. Temos de consultá-la.

— A Duquesa foi condenada à morte e está na cadeia esperando pelo cumprimento da sentença, disse a Rainha ao carrasco. Vá buscá-la.

O carrasco saiu que nem uma flecha.

Assim que êle partiu, a cabeça do gato começou a desaparecer; e quando o carrasco tornou, trazendo con sigo a Duquesa, já não restava do gato nem sombra. Rei, Rainha e mais membros da Côrte procuraram-no por tôda parte, furiosos por terem sido logrados de tão estranha maneira. Depois voltaram ao jôgo.

CAPÍTULO IX A HISTÓRIA DA TARTARUGA FALSA

— V OCÊ NÃO pode imaginar como estou contente por vê-la de novo, minha querida! disse a Duquesa tomando afetuosamente Alice pelo braço.

Satisfeita com a disposição de espírito da grande dama, Alice imaginou que talvez fôsse a pimenta em pó, que pairava no ar da cozinha, o que a tornara tão selvagem e bruta naquele dia.

— Quando eu fôr duquesa, não terei pimenta na cozinha, pensou consigo. Talvez seja a pimenta que botam na comida o que deixa a gente tão esquentada, e o vinagre seja o que deixa a gente azêda, e o açúcar seja o que deixa a gente amável. Ah, se todos soubessem disso...

— Está pensando nalguma coisa muito interessante! exclamou a Duquesa.

— Como sabe? perguntou Alice.

— Porque está calada e absorvida, respondeu a Du quesa achegando-se ainda mais. Alice nada gostou daquilo, primeiro porque a grande dama era horrivelmente feia, e segundo, porque sua cabeça lhe dava pelos ombros e, como tivesse cabelos horrivelmente espetados, não era agradável o contacto. Como, porém, não quisesse ser grosseira, tudo suportou de cara alegre e continuou na conversa.

— Estão jogando o croquet muito melhor agora, disse:

— A moral do fato é que é o amor que faz o mundo girar, observou a Duquesa.

Querendo mostrar sabedoria, Alice replicou:

— Assim é, porque cada qual só cuida dos seus próprios interêsses.

— Realmente! concordou a dama, batendo com o queixo pontudo no ombro da menina. E acrescentou, muito fora de propósito: — Livra-me dos ares que te livrarei dos males.

— Como gosta de se mostrar sabida! pensou Alice consigo.

— Pensando de novo? observou a Duquesa.

— Penso porque quero. Creio que tenho o direito de pensar, respondeu a menina já meio aborrecida.

— Você tem o direito de pensar como os porcos têm o direito de voar. É a mo... disse a Duquesa, interrompendo-se na palavra "moral."

Alice estranhou a interrupção e notou que o braço da grande dama começava a tremer. Erguendo os olhos compreendeu a causa. Era a Rainha que vinha chegando de braços cruzados e carrancuda.

— Que lindo dia, Majestade! exclamou a Duquesa em voz amável, mas débil, para agradar à Rainha. Esta, porém, não se deixou amolecer e disse, batendo o pé:

— Vou dar-lhe um bom conselho, Duquesa. Ou você some-se já daqui, ou a sua cabeça voa do pescoço. Escolha!

Está claro que a grande dama preferiu conservar a cabeça no pescoço e safar-se.

— Vamos continuar o nosso jôgo, disse então a Rainha à Alice.

Tão assustada estava esta com aquêles modos despóticos, que nada replicou e seguiu-a qual sombra.

Os demais convidados haviam aproveitado o afastamento da Rainha para um breve repouso debaixo das árvores; mas, apenas viram-na de volta, correram pressurosos, certes de que qualquer demora lhes custaria a cabeça fora do pescoço.

O jogo retomou seu curso. Durante todo o tempo não cessava a Rainha de discutir e zangar-se, terminando sempre com o inevitável e terrível: “Cortem-lhe a cabeça!” Os condenados ficavam sob a guarda dos soldados, que naturalmente tinham de deixar de fazer de arcos. De modo que meia hora depois já não havia mais arcos no campo de croquet e todos os jogadores, menos Alice e o Rei, estavam presos para serem decapitados. A Rainha, então, abandonando a partida, e já quase sem fôlego, perguntou a Alice:

— Já viu a Tartaruga Falsa?

— Não, Majestade, nem tenho a menor idéia do que possa ser semelhante criatura.

— Venha, então, que a apresentarei, para que ela conte a você a sua história, disse a Rainha.

Caminharam juntas. De passagem Alice ouviu o Rei dizer aos prisioneiros: “Estão todos perdoados!”

— Ainda bem! pensou Alice, que tinha ficado terrìvelmente impressionada com aquela enorme quantidade de condenações.

Pouco depois passaram por perto dum Grifo que dormia ao sol (se o leitor não sabe que monstro é êste, veja a gravura.)

— Acorde mandrião! ordenou a Rainha. E conduza esta menina à presença da Tartaruga Falsa, para que conheça tôda a sua história. Tenho de ir ver se cumpriram as minhas ordens. Disse e retirou-se, deixando Alice sozinha com o Grifo. A menina não gostou de sua cara, mas refletiu que quem vê cara não vê coração, e, portanto, talvez fôsse preferível aquela companhia à da Rainha malvada. E ficou.

O monstro ergueu-se vagarosamente, esfregou os olhos sonolentos e, contemplando a Rainha que se afastava, exclamou: — Que grande pândega!”

— A quem é que você chama pândega? interrogou Alice.

— Ela, quem mais? Está sempre a ameaçar de morte céus e terras e no entanto aqui não se mata ninguém. Venha comigo.

— Tôda a gente por aqui gosta de dizer “Venha!” Nunca fui tão mandada em tôda a minha vida... pensou Alice.

Não longe dali descobriram a Tartaruga Falsa, que estava sentada numa pedra, sòzinha e muito triste. Alice reparou que a tartaruga suspirava tão profundamente que o coração parecia saltar-lhe fora do peito. Teve dó da infeliz e perguntou ao Grifo: — Que é que ela tem? O monstro respondeu quase com as mesmas palavras de antes, explicando que por ali só existiam visões. Não tinha nada, como a Rainha não matava nada. Aproximaram-se da Tartaruga Falsa, que fitou nos recém-chegados os seus olhos cheios de lágrimas, sem dizer coisa nenhuma. O Grifo explicou:

— Esta garôta está aqui por ordem da Rainha para ouvir a sua história.

— Está bem, respondeu a bicha. Sentem-se e não me interrompam antes do fim.

Alice e o Grifo sentaram-se, e durante vários minutos ficaram sem ouvir coisa nenhuma, porque a Tartaruga nada dizia.

— Se não começa nunca, como há de acabar? pensou Alice.

Passaram-se mais uns minutos. Por fim a Tartaruga arrancou do peito um suspiro profundo e começou: “Eu era uma tartaruga verdadeira...” Mas interrompeu-se, e guardou mais outros minutos de silêncio, só quebrados pela tosse do Grifo e os soluços da contadeira.

Por um triz que Alice não se levantou e disse: “Muito obrigada pela sua história, mas até logo!” Conteve-se, entretanto, na esperança de que a história afinal saísse e fôsse deveras interessante.

Por fim a Tartaruga continuou:

— Quando pequenas, eu e minhas irmãs íamos todos os dias à escola do mar. Nossa mestra era uma tartaruga velha, de óculos, que chamávamos a Tartarugona...

— Por que é que lhe chamavam assim, se não era êsse o seu verdadeiro nome? interpelou Alice.

— Davamos-lhe êsse nome por ser a nossa mestra e por ser muito grande, respondeu a contadeira com cara aborrecida. Que pergunta tôla!

— Sim, observou o Grifo. Acho que é bobagem fazer perguntas como essa, e tanto êle como a Tartaruga se calaram, de olhos postos na menina.

— Continue, melindrosa! replicou Alice com ironia. Se não, ficaremos aqui o dia inteiro.

A tartaruga prosseguiu:

— Íamos à escola do mar, por mais que você custe a crer no que digo.

— Eu não disse que não acreditava! interrompeu a menina.

— Não disse mas pensou, redarguiu a Tartaruga.

— Ora bolas! interveio o Grifo já amolado. Acabemos com isto...

A Tartaruga Falsa continuou:

— Lá recebemos a melhor educação e nunca faltamos uma só vez às aulas.

— Grande coisa! exclamou Alice. Também eu ia diàriamente à escola e nunca vi nisso razão para orgulho.

— E aprendeu muita coisa? perguntou a contadeira.

— Está claro que sim. Aprendi inglês e música e geografia e aritmética.

— Aprendeu a lavar roupa?

— Isso, não! exclamou Alice com desprêzo.

— Nesse caso, não era uma boa escola! disse a Tartaruga satisfeita. Na nossa aprendíamos tôda essas coisas e ainda a lavar roupa.

— Muito estranho isso, porque quem vive no fundo do mar parece-me que não necessita saber lavar roupa.

— Sim, mas tínhamos de aprender tudo, porque só havia um curso e a lavagem de roupa fazia parte dêle.

— De que mais matérias se compunha o curso?

— Das matérias do costume e das diferentes partes da Aritmética — Ambição, Enfeação, Derisão.

— Que vem a ser “Enfeação”? perguntou Alice. Nunca ouvi falar em semelhante matéria.

Tamanha foi a surprêsa do Grifo diante da ignorância da menina, que ergueu as patas para o céu.

— Nunca ouviu falar em Enfeação? exclamou. Mas suponho que sabe o que é embelezar.

— Isso sei! É tornar uma coisa mais bonita.

— Pois se sabe isso e não sabe o contrário, você é uma simplória, disse o Grifo.

Alice não se sentiu com ânimo de fazer outras perguntas daquela qualidade e voltou ao assunto do começo.

— E que mais tinha de aprender? perguntou.

— Havia lições de Mistério, antigo e moderno: lições de Margrafia e Deslizamento. A professora de Deslizamento era uma velha enguia, que vinha só uma vez por semana. Ensinava também Esticamento e Enrolamento.

— Que vem a ser isso?

— Não posso explicar com atos, respondeu a Tartaruga Falsa, porque sou muito dura de corpo. Também o Grifo não pôde aprender isso.

— Não tive tempo, explicou êste. Mas estive estudando com o mestre dos Clássicos, que era um caranguejo cascudo.

— Nessa aula não estive, disse a Tartaruga, porque nela se ensinava a rir e chorar e eu não fui feita para rir.

— E quantas horas de estudo tinham por dia? apressou-se Alice a perguntar, para fugir do assunto triste.

— Dez horas no primeiro dia, nove no segundo, oito no terceiro e assim por diante, explicou a Tartaruga.

— Que curioso sistema! exclamou Alice, achando que era muito melhor do que o usado com ela. Por êsse método, no undécimo dia começam as férias...

— Basta de lições, disse o Grifo. Ela que fale agora sôbre os jogos.

CAPÍTULO X A QUADRILHA DAS LAGOSTAS

A TARTARUGA FALSA deu um profundo suspiro, passando uma pata pelos olhos. Depois voltou-se para a menina e tentou falar, mas os suspiros embargavam-lhe a voz.

— Parece que você tem um osso atravessado na garganta! observou o Grifo, dando-lhe alguns murros nas costas. A Tartaruga finalmente recuperou a voz e continuou, enquanto lágrimas copiosas lhe corriam pela face:

— Não sei se você já viveu algum tempo no fundo do mar, disse para a menina que arregalou os olhos, estranhando a observação.

— Nunca.

— Nesse caso, jamais foi apresentada a uma lagosta.

Alice pôs-se a pensar: “Lagosta? Ah, sim, já comi uma!” mas teve mêdo de expressar em voz alta êste pensamento, limitando-se a responder que não.

— Então não pode fazer idéia do que seja uma quadrilha de lagostas.

— Está claro que não, confessou Alice.

— Tão simples! exclamou o Grifo. Primeiro, forma-se uma fila ao longo da praia...

— Duas filas! emendou a Tartaruga. Uma de focas, outra de tartarugas. Isso depois de limpar-se a praia das águas-vivas, ou peixes gelatinosos.

— O que dá muito trabalho, porque são difíceis de ser pegados. Depois cada um dá um passo à frente, tendo uma lagosta como par, ajuntou o Grifo.

— Dois passos! emendou a Tartaruga. E cada um muda de lagosta, voltando todos para trás. Depois, sabe o que acontece? Atiram com...

— ... as lagostas para o mar! concluiu o Grifo.

— O mais longe que podem! acrescentou a Tartaruga.

— E nadam atrás delas! ajuntou o Grifo.

— E as lagostas voltam outra vez! gritou a Tartaruga. Voltam para a praia. Tudo isto não passa da primeira contradança, explicou ela baixando a voz, e como ambos estivessem a dar saltos para melhor mostrar como era a dança, parece que caíram em si e envergonharam-se, porque chegado a êsse ponto sentaram-se na posição primitiva, muito tristes e calados, olhando para Alice.

— Deve ser uma dança muito linda! disse esta, para animá-los.

— Quer conhecê-la? perguntou a Tartaruga.

— Com muito gôsto.

— Então venha, vamos experimentar a primeira figura, disse a Tartaruga ao Grifo. Como não há lagostas, passaremos sem elas. Mas quem faz a parte do canto?

— Cante você, que eu já me esqueci da letra, respondeu o Grifo.

Assim se fêz. Começaram os dois a dançar em volta de Alice, pisando-lhe os pés quando se chegavam demasiado. A Tartaruga Falsa não só cantava, como ainda marcava o compasso com as desajeitadas patas. Alice nunca imaginou espetáculo mais cômico, porque se há criatura que não deve dançar nunca, é uma tartaruga. Quando a dança chegou ao fim, a menina disse:

— Bravos, bravos! A dança é linda e o canto mais lindo ainda. A letra refere-se às pescadas, um peixe que já vi inúmeras vêzes ao jan... e parou de repente.

— Ao jan? repetiu a Tartaruga, sem compreender que era apenas a primeira sílaba da palavra jantar. Se você as viu muitas vêzes no tal jan... então conhece muito bem como são elas.

Alice, que só conhecia pescadas fritas, respondeu com alguma dúvida: — Sim, sei. Têm os rabos na bôca e são cobertas de farinha de biscoito.

— Está enganada quanto à farinha de biscoito. Os peixes não podem andar cobertos de farinha, porque a água os está lavando constantemente. Mas é verdade que têm o rabo na bôca, disse a Tartaruga.

— Qual a razão disso?

— Em vez de responder, a Tartaruga bocejou e disse ao Grifo: “Conte!”

— A razão, explicou êste, é que quando foram à dança das lagostas, de mêdo de serem agarradas pelo rabo e atiradas longe, meteram os rabos na bôca e nunca mais puderam tirá-los. Eis tudo.

— Obrigada! disse a menina. É muito interessante a explicação. Não há mais alguma coisa?

— Se quer, poderei contar outra, observou o Grifo. Sabe por que se chamam pescadas?

— Nunca pensei nisso.

— Tão simples! Chamam-se pescadas porque são pescadas, disse o Grifo.

Alice desapontou com a brincadeira, mas a Tartaruga disse-lhe umas amabilidades que lhe fizeram voltar o bom humor e pediu-lhe que contasse alguma coisa da sua história.

— Poderei contar minhas aventuras, disse Alice, começando pelas de hoje, porque ontem eu era outra pessoa.

— Como isso? Explique-se! suplicou a Tartaruga.

A menina começou a contar sua história desde o momento em que viu pela primeira vez o Coelho Branco. Ficou meio nervosa a princípio, porque as duas criaturas vieram postar-se muito próximas dela, uma de cada lado, de bôcas abertas e olhos arregalados. Mas vendo que eram boas pessoas, criou coragem e continuou. Os ouvintes permaneceram quietos até o momento em que Alice contou a passagem do encontro com o Bicho-Cabeludo, na qual as palavras lhe saíam atrapalhadas. Nesse ponto a Tartaruga interrompeu-a, dizendo:

— Isso é muito curioso!

— É a coisa mais curiosa que pode haver! ajuntou o Grifo.

— Tudo sair diferente!... repetiu a Tartaruga, como se estivesse pensando em voz alta. Oh, peça-lhe que repita um pedacinho da conversa! disse ao Grifo, como se esta criatura tivesse alguma autoridade sobre a menina.

— Fique de pé e recite “A Vida do Vagabundo”, ordenou o Grifo.

— Como são mandonas estas criaturas! pensou Alice. Querem fazer-me repetir versos, como na escola... Mas apesar disso levantou-se e começou a repetir os versos que sabia de cor. Sua cabeça, entretanto, estêve por demais cheia de lagostas, de modo que cada vez que aparecia a palavra “vagabundo” ela dizia lagosta, e ficou uma grande trapalhada.

— Ésses versos são muito diferentes dos que aprendi na escola, disse o Grifo.

— Eu não os conhecia, mas devo dizer que me soam muito mal, acrescentou a Tartaruga.

Alice nada respondeu. Sentou-se e escondeu o rosto nas mãos, pensando: “Meu Deus! Será que nunca mais me acontecerá nada naturalmente?”

— Gostaria que ela se explicasse, disse a Tartaruga.

— Impossível. Esta menina nunca poderá explicar o que disse, declarou o Grifo. Continuemos com o recitativo. Vamos à segunda parte.

Embora na certeza de que ia recitar tudo errado, Alice não ousou desobedecer e continuou a dizer os versos com voz trêmula. Em meio, porém, a Tartaruga interrompeu-a.

— Pare com isso duma vez! Está tão atrapalhada que já estou ficando com dor de cabeça.

Alice respirou, porque parar com aquilo era justamente o que ela queria. O Grifo, então, perguntou-lhe se desejava vê-los ensaiar outra figura da Dança das Lagostas.

— Não, respondeu Alice. Prefiro que a Tartaruga cante outra cantiga.

— Bem, disse o Grifo um tanto desnorteado. Gostos não se discutem. Cante a "Sopa de Tartaruga", minha cara amiga!

A Tartaruga Falsa suspirou profundamente e começou a cantar, soluçando de vez em quando:

Esperando os convidados na sua terrina, etc.

Bela sopa, gordurenta e cheirosa...

Era comprida a canção e a cantora estava no meio quando um grito ao longe veio interrompê-los: “O julgamento vai começar!” dizia a voz.

— Venha comigo, ordenou o Grifo, tomando Alice pela mão, sem esperar que a cantiga chegasse ao fim.

— Que julgamento é êsse? indagou ela aflita, enquanto corriam.

O Grifo só respondeu: “Corra!” e apressou a marcha, puxando-a com mais força.

De longe ainda ouviram a voz rouca da Tartaruga, repetindo os versos do estribilho:

So-opa cheiro-sa e quentinha

Bela, be-ela so-opa de Tartaru-uga.

CAPÍTULO XI QUEM FURTOU OS BOLOS?

O REI E RAINHA de Copas estavam sentados no trono quando Alice e o Grifo chegaram. Em redor dos monarcas reunia-se grande multidão de aves e animais de tôdas as espécies e todas as cartas do baralho. Em frente do trono via-se o Valete de Copas entre dois soldados; e ao lado direito do Rei, o Coelho Branco, segurando um clarim com uma das mãos e tendo na outra um pergaminho enrolado. No centro do pátio havia uma mesa com uma bandeja e muitos bolos. Tinham tão boa aparência êsses bolos que Alice ficou logo de água na bôca. “Que bom se já tivesse acabado o julgamento e fosse a hora dos comes e bebes!” pensou consigo. E para esquecer os bolos começou a observar o que se passava em redor.

Alice jamais assistira a um julgamento no tribunal do Júri, embora tivesse lido em livros alguma coisa a respeito. Logo que correu os olhos pela sala verificou que quase todos os personagens eram seus conhecidos, o que muito a satisfez.

“Aquêle lá é o Juiz” pensou consigo, “porque usa toga e cabeleira. E quem faz de juiz é o Rei. Lá está a coroa dêle colocada por cima da cabeleira! Os que se sentam em redor da mesa grande são os jurados.”

Alice demorou o pensamento nessa idéia, sentindo-se orgulhosa de saber que coisa eram jurados. Poucas meninas da sua idade sabem o que significa isso — e ela sabia.

Os jurados mostravam-se muito atarefados, escrevendo palavras e números nas pedras que tinham diante de si, sôbre a mesa.

— Que estão a escrever? perguntou ela ao Grifo em voz baixa, não podendo compreender que tivessem o que escrever antes de começados os trabalhos do julgamento.

— Estão a escrever os seus próprios nomes, de mêdo de os esquecerem antes de finda a sessão, respondeu o Grifo.

— Que bobagem! exclamou Alice em voz alta sem querer. Mas calou-se, porque o Coelho Branco fêz cara feia e gritou de longe:

— Silêncio! Ninguém pode falar!

O Rei pôs os óculos e correu os olhos pela assistência para descobrir quem havia falado em voz alta. Então pôde Alice verificar, espiando por cima dos ombros dos jurados, que todos se haviam pôsto a escrever nas pedras “Que bobagem!” Os que não sabiam escrever direito essa palavra, perguntavam ao vizinho. Outros colavam.

O lápis de um dêles não era lápis e sim prego, de modo que arranhava a lousa produzindo guinchos agudos que irritavam os nervos da menina. Isso a fêz deixar a sala e ir dar uma volta pelo pátio. Quando acalmou os nervos e voltou, achegou-se do jurado que escrevia com prego (era o Periquito, o tal lagarto que os leitores já conhecem) e deu-lhe um tapa na mão, fazendo o prego voar longe.

Periquito não percebeu de que modo ficara sem lápis e estêve uns instantes a procurá-lo de todos os lados. Por fim resignou-se a escrever com o dedo, embora seu dedo não conseguisse riscar nem uma só letra na lousa.

— Promotor, leia a acusação! ordenou o Juiz.

O Coelho Branco tocou três vêzes o clarim, para chamar a atenção dos presentes, e desenrolou o pergaminho. “O fato criminoso é êste”, disse êle. “Sua Majestade a Rainha de Copas fêz uma fornada de lindos bolos, em certo dia do mês corrente. O Valete de Copas entrou escondido na cozinha e comeu-os todos, mas todos, todos, sem deixar uma isca.”

— Eis o crime, disse o Juiz. Vamos agora proceder ao julgamento.

— Ainda não, ainda não! apressou-se a gritar o Coelho Branco. Ainda há muito que fazer antes que os jurados possam deliberar.

— Chame então a primeira testemunha, ordenou o Juiz.

— O Coelho Branco tocou novamente o clarim e gritou:

— A primeira testemunha que se apresente!

Era o Chapeleiro. Apresentou-se com uma xícara de chá na mão esquerda e uma fatia de pão-de-ló na direita.

— Peço perdão a Vossa Majestade por apresentar-me assim, mas a explicação é que quando me chamaram para vir testemunhar eu não havia terminado de tomar o meu chá, e não vejo razão nenhuma para interromper tão importante serviço.

— Acho que já devia ter acabado de tomar êsse chá, disse o Rei. Quando foi que começou?

— Creio que no dia 1.º de abril, Majestade, respondeu êle.

— Está enganado! interveio a Lebre Telhuda. Foi no dia dois.

— Dia três! emendou o Rato do Campo.

— Escrevam as datas nas pedras! ordenou o Rei. As três testemunhas lançaram as três datas nas respectivas lousas, somaram-nas e reduziram-nas a tostões e vinténs.

— Tire o seu chapéu! gritou o Rei ao Chapeleiro, notando que êle tinha o chapéu na cabeça.

— Não posso, respondeu o Chapeleiro. Não posso tirar o meu chapéu porque o chapéu que tenho na cabeça não é meu .

— Tomem nota, senhores jurados, do que êle acaba de confessar, disse o Rei. Declarou que o chapéu não é dêle. Logo, é de outro. Logo, furtou-o.

Os jurados escreveram nas lousas o que lhes fôra ordenado, mas o Chapeleiro explicou que não furtara coisa nenhuma; apenas, na sua qualidade de Chapeleiro, havia trazido aquêle chapéu para vender.

A Rainha então ergueu o lornhão e examinou curiosamente o Chapeleiro, que incontinênti se fêz pálido e nervoso.

— Diga tudo quanto sabe, ordenou o Rei, e domine os seus nervos, se não mando decapitá-lo aqui mesmo.

Êste aviso nada tranqüilizou a testemunha, pelo contrário! Mais nervoso ainda ficou o Chapeleiro, sempre de olhos postos na terrível Rainha. Era tal a sua confusão, que em vez de comer o doce e beber o chá, deu uma dentada na xícara e bebeu o pão-de-ló.

Nisto Alice sentiu que estava a crescer novamente, e tanto que teve vontade de sair correndo para o pátio. Pensando melhor, resolveu ficar na sala enquanto coubesse nela. A seu lado estava o Rato do Campo, que principiou a ser espremido pela menina.

— Não me empurre! Você assim me sufoca, disse êle.

— Não é culpa minha, respondeu Alice. É culpa do meu crescimento.

— Pois aqui ninguém tem o direito de ir crescendo assim. Incomoda aos demais, protestou o Rato.

— Não seja tolo! retrucou Alice. Você está a fazer o mesmo.

— Não nego, mas eu cresço normalmente, como todos os ratos crescem, e não despropositadamente, como você. Isso de crescer assim é ridículo e impróprio para uma menina bem educada, concluiu com mau humor, deixando o seu lugar.

Durante todo esse tempo a Rainha não desviara os olhos do Chapeleiro, dizendo por fim a um dos oficiais da guarda:

— Traga a lista dos que cantaram no concerto.

Ao ouvir semelhante coisa, o Chapeleiro tremeu da cabeça aos pés, a tal ponto que os sapatos lhe pularam longe.

— Diga o que sabe! ordenou novamente o Rei em voz colérica. Continue! Do contrário manda-lo-ei esfolar vivo, quer esteja nervoso ou não.

— Sou um pobre coitado, Real Senhor! exclamou o Chapeleiro com voz trêmula. Comecei a tomar chá há uma semana; as fatias de pão-de-ló eram muito finas...

— Que é que está a dizer? berrou o Rei. Pensa que sou algum idiota?

— Sou um pobre coitado! repetiu o Chapeleiro. Depois que comecei a tomar chá as coisas ficaram pretas. Foi, então, a Lebre Telhuda e disse...

— Eu não disse nada! apressou-se a declarar a Lebre.

— Disse, sim, não negue! tornou o Chapeleiro.

— Nego, sim! Não disse nada!

— Basta! interveio o Rei. Já sei que a senhora nega o fato. E virando-se para o Chapeleiro: — Que mais tem a dizer?

— Se não foi ela, continuou êste, então foi o Rato do Campo que disse! continuou o acusado, olhando ansioso para o Rato com mêdo de que êle também negasse. Mas o rato, que dormia a bom dormir, nada negou.

— Depois, prosseguiu o Chapeleiro, cortei mais pão-de-ló, e...

— Mas que foi que disse o Rato do Campo? perguntou um dos jurados.

— Não me lembro mais, respondeu o Chapeleiro. Faz tanto tempo...

— Pois, você tem de lembrar-se, se não morrerá esfolado vivo! berrou o Rei furioso.

— Sou um pobre coitado, Real Senhor! exclamou novamente o mísero.

— Malandro de marca maior é o que você é, seu grande patife! concluiu o Rei.

Nesse instante um porquinho da Índia aplaudiu o Rei com palmas e bravos, sendo interrompido por um dos oficiais de justiça, que o tomou pelas orelhas e o meteu num saco, sentando-se em cima.

— Estou satisfeita de ver como é que se faz no júri, pensou Alice consigo. Nos jornais muitas vezes li nas notícias dos julgamentos: “Houve por parte da assistência uma tentativa de aplauso, que foi abafada pelos oficiais de justiça. Mas só agora aprendi como é que os oficiais de justiça abafam os aplausos dos jurados.”

— Se é isso tudo quanto tem a dizer, continuou o Rei, então sente-se.

— Não posso sentar-me, respondeu a testemunha, porque já estou sentada.

— Então deite-se! berrou o Rei.

Outro porquinho, que achou graça na resposta e aplaudiu, foi metido no saco, e o oficial sentou-se em cima, como o primeiro.

— Acabaram-se os porquinhos da Índia, pensou Alice. Com certeza agora ninguém mais aplaude.

— Eu preferia que Vossa Majestade me desse ordem para acabar de tomar o meu chá, pediu humildemente o Chapeleiro, olhando para a Rainha que nesse momento lia a lista dos cantores do último concêrto.

— Ponha-se daqui para fora! berrou o Rei, erguendo-se do trono com os olhos chispantes.

O Chapeleiro não esperou segunda ordem. Saiu no galope, esquecido até de apanhar os sapatos que lhe haviam escapado dos pés com o tremor.

— E cortem-lhe a cabeça no pátio! ordenou a Rainha, mas já sem tempo, porque o Chapeleiro ia a um quilômetro de distância, correndo mais veloz que dois veados.

A segunda testemunha chamada foi a cozinheira da Duquesa. Trazia um pacote de pimenta na mão, e antes que se colocasse no tablado, onde as testemunhas vinham depor, já os assistentes mais próximos começaram a espirrar que não se acabava mais.

— Preste o seu depoimento! disse o Rei.

— Não posso ! respondeu a cozinheira.

O Rei olhou de revés para o Coelho Branco, que o aconselhou em voz baixa: "Vossa Majestade deve fazer outras perguntas a esta senhora."

— Muito bem, exclamou o Rei em tom melancólico. Se devo, devo. E, chegando-se bem perto da testemunha, perguntou:

— Como é que se faz bôlo de frigideira?

— Com pimenta, respondeu ela.

— Com pimenta, não; com polvilho contestou uma voz. Era a voz do Rato do Campo, que acordara naquele momento.

A Rainha enfureceu-se com o aparte e berrou:

— Prendam esse Rato do Campo! degolem êsse Rato do Campo! Abafem, afoguem êsse Rato do Campo! Arranquem-lhe as barbas e a cabeça!

Houve grande reboliço durante o qual a cozinheira desapareceu. Quando voltou a ordem e deram pela sua falta, o Rei apenas disse:

— Não faz mal. Estamos livres dessa espirradeira. Até eu estava a ponto de espirrar. Chamem a terceira testemunha. E voltando-se para a Rainha disse: — Acho, Rainha, que é você quem deve interrogar agora. Estou cansado e com dor de cabeça.”

O Coelho Branco procurou no pergaminho o nome da terceira testemunha e com grande surprêsa da menina gritou:

— Alice!

CAPÍTULO XII O DEPOIMENTO DE ALICE

P RESENTE ! respondeu ela. E esquecendo-se que havia crescido muito nos últimos minutos, pulou de um salto para a frente de Suas Majestades, varrendo com a saia todo o tribunal do júri.

— Oh, peço que me perdoem! exclamou logo que deu pelo desastre. E começou a juntar do chão os pobres jurados para pô-los de novo nos seus lugares.

— O julgamento não pode continuar sem que todos os jurados estejam direitos nos seus postos, declarou o Rei gravemente, deitando sôbre Alice um olhar terrível.

Alice, que já havia arrumado os jurados, olhou para a mesa para ver se faltava algum, e viu que estavam todos. A única diferença era que havia colocado o Periquito de cabeça para baixo. O pobrezinho sacudia no ar a cauda, feito um chicotinho, não sabendo como desvirar-se. Alice correu a tirá-lo daquela triste posição, refletindo consigo que bem pouco adiantava ao julgamento que a criaturinha estivesse de cabeça para baixo ou para cima.

Assim que os jurados se refizeram do susto, tomaram as pedras e os lápis, começando a escrever a história do acidente. Só Periquito nada escrevia, tal era a sua emoção. Estava de bôca aberta, com os olhos fitos no fôrro.

— Que sabe você a respeito dêste caso? perguntou o Rei afinal.

— Eu? Nada!

— Nada, nada mesmo? insistiu o Rei.

— Nadíssima mesmíssimo! continuou a menina.

— Êste depoimento é muito importante, disse o Rei aos jurados, que imediatamente escreveram nas pedras as reais palavras. Mas o rei distraiu-se com a palavra “importante” e começou a repetir de si para si, em voz alta: “importante, sem importância, importante, sem importância...” e os jurados escreveram as duas coisas, o que era um absurdo. Alice viu o êrro, mas refletiu que no fim tudo dava certo.

Nesse momento o Rei, que também escrevera qualquer coisa no seu livro de notas, exclamou: "Silêncio!" Em seguida passou a ler.

— Diz o artigo 42: Tôdas as pessoas cujo tamanho exceda de um quilômetro, são obrigadas a deixar o recinto do tribunal.

A assistência inteira olhou para Alice.

— Que é que querem de mim? gritou ela. Eu não tenho um quilômetro de altura.

— Tem! afirmou o Rei.

— Tem até dois! ajuntou a Rainha.

— Pois muito bem! declarou Alice com energia. De qualquer forma não sairei daqui, porque êsse artigo não é legal. Foi você quem o inventou agorinha mesmo!

— É o artigo mais velho da constituição dos tribunais, declarou o Rei.

— Se é o mais velho, devia ser o artigo número um e não o número quarenta e dois .

O rei empalideceu e apressou-se em guardar o livro de notas. Estava evidentemente todo errado.

— Vejamos a sentença, disse êle voltando-se para os jurados.

— Há mais provas a examinar, interveio o Coelho Branco. Este papel ainda não foi lido ao tribunal.

— Que é que está escrito nêle? inquiriu a Rainha.

— Não sei. Ainda não o abri, disse o Coelho BranCo. Mas parece-me carta do acusado escrita para alguém.

— Qual o nome do destinatário? perguntou um jurado.

— Não tem enderêço nenhum, disse o Coelho. Nada há escrito do lado de fora — e, enquanto ia falando, desdobrava no ar o tal papel.

— Não é carta, declarou por fim. É uma poesia!

— Escrita pelo próprio punho do Valete de Copas? inquiriu um jurado.

— Não! respondeu o Coelho. A letra não é dêle. Deve ter imitado a caligrafia de alguém.

O tribunal estava boquiaberto de curiosidade.

— Perdão, Majestade! disse o Valete de Copas. Eu não posso ser acusado de ter escrito o que não assinei e o que não representa minha letra.

— Nesse caso, pior ainda! objetou o Rei. Se não assinou e não usou a sua letra natural, então é que tinha algum mau intuito. Se não fôsse assim, assinaria naturalmente e não mudaria de letra.

Todos bateram palmas, porque era realmente a primeira coisa sábia que o Rei ainda dissera.

— Prova, nada! berrou Alice. Pois se nem leram o que está escrito, como prova ou não prova? Súcia de imbecis!

— Então leia, ordenou o Rei achando que ela tinha razão.

O Coelho Branco pôs os óculos e indagou:

— Por onde devo começar, Majestade?

— Comece pelo princípio, respondeu gravemente o Rei.

Carrapato, carrapicho,

Carrapicho, carrapato,

Patocarra, pichocarra,

Pichocarra, patopicho...

Carracarra, pichopato.

— Eis a prova mais evidente que ainda vi em minha vida! exclamou o Rei triunfante, esfregando as mãos. Nada mais resta a provar. Os senhores jurados estão habilitados a dar sentença.

— Esperem um pouco! gritou Alice. Se algum dêles puder explicar o que os versos significam, ganhará um tostão furado. Não creio que haja a menor parcela de prova nas palavras que acabam de ser lidas.

— Os jurados escreveram em suas pedras: “Ela não crê que haja a menor parcela de prova no que acaba mos de ouvir ler.” Mas nenhum tentou explicar o que significava o papel.

— Se não há a menor parcela de prova na poesia, observou o Rei, isso nos evita o trabalho de procurá-la.

Ainda assim, não sei... disse, colocando o papel sôbre os joelhos. Parece-me que há alguma evidência... Pichocarra... Você pichocarra?

O Valete de Copas abanou tristemente a cabeça e respondeu: “Quem me dera pichocarrar!”

O Rei olhou-o de revés.

— Isto aqui tem um sentido oculto, disse. Pichocarra quer talvez dizer o seguinte: “Fui eu mesmo quem comeu os bolos da Rainha e quero ver quem descobre isso.” Notem os senhores jurados que as letras da palavra pichocarra acham-se tôdas repetidas na frase que eu acabo de apresentar.

Os jurados escreveram nas lousas as letras que o Rei grifara e viram que formava a palavra “bichocarra” e não “pichocarra.” Um dêles alegou isso em defesa do réu.

— Sim, concordou o Rei, mas o Valete é dos tais que trocam o B pelo P, vício de pronúncia que nêle notei há tempos. Assim sendo, a prova está provada e agora cumpre aos senhores jurados darem a sentença.

— Não! bradou a Rainha. Primeiro a execução, depois a sentença.

— Que asneira! exclamou Alice. Como é que a execução pode vir sem haver sentença?

— Faça o obséquio de calar essa bôca! disse a Rainha com ironia.

— Sou dona da minha bôca e da minha palavra! Calo ou falo quando me apraz, retrucou Alice colérica.

— Cortem-lhe a cabeça! berrou a Rainha no auge da cólera.

Ninguém se mexeu para executar a ordem.

— Vê? exclamou Alice com desdém. Ninguém liga a mínima importância às ordens de sua Majestade. A senhora não passa de uma simples Rainha de Baralho.

Mal disse aquilo, todo o baralho avançou para ela, numa fúria, fazendo Alice dar um grito de mêdo e abor recimento. Era uma chuva de naipes, de ases, de valetes, de reis, de damas, de setes, de biscas, de coringas que não tinha mais fim. Tantos e tantos naipes, que Alice se sentiu sufocada e... abriu os olhos. Viu-se então no jardim do comêço desta história, deitada no banco, com a cabeça nos joelhos de sua irmã, que lhe passava carinhosamente a mão sôbre a cabecinha loura.

Tradução por IA · Original