Alice no País das Maravilhas (Trad. Lobato, 8ª edição)

Tradução humana · Tradução de Monteiro Lobato (†1948) · Fonte: Wikisource · Domínio público

PREFÁCIO

H á sessenta e tantos anos um professor de matemática de Oxford, Lewis Carroll, muito amigo das crianças, fêz um passeio de bote pelo Tâmisa com três menininhas. Para diverti-las foi inventando uma história de que elas muito gostaram.

Chegando em casa teve a idéia de escrever essa história — e assim nasceu para a biblioteca infantil universal mais uma obra-prima — “Alice in Wonderland.”

Ficou famoso o livro entre os povos de língua inglêsa. Foi traduzido em outros idiomas. Seu autor imortalizou-se.

Hoje aparece em português. Traduzir é sempre difícil. Traduzir uma obra como a de Lewis Carroll, mais que difícil, é dificílimo. Trata-se do sonho duma menina travêssa — sonho em inglês, de coisas inglêsas, com palavras, referências, citações, alusões, versos, humorismo, trocadilhos, tudo inglês, isto é, especial, feito exclusivamente para a mentalidade dos inglesinhos.

O tradutor fêz o que pôde, mas pede aos pequenos leitores que não julguem o original pelo arremêdo. Vai de diferenças a diferença das duas línguas e a diferença das duas mentalidades, a inglêsa e a brasileira.

Há dois anos o original manuscrito de “Alice in Wonderland”, do próprio punho do autor, apareceu num leilão de livros velhos em Londres. Vários pretendentes o disputaram, entre êles o Museu Britânico, que havia destinado para a sua aquisição uma verba de 12.500 libras esterlinas. Essa verba foi insuficiente. Um americano apareceu, que lançou mais e afinal ficou com o manuscrito pela quantia de 15.400 libras, ou 75.259 dólares. Qualquer cousa como um milhão e quinhentos mil cruzeiros ao câmbio de hoje. Isto mostra o alto grau de aprêço em que em certos países é tida a obra literária.

As crianças brasileiras vão ler a história de Alice por artes de Narizinho. Tanto insistiu esta menina em vê-la em português (Narizinho ainda não sabe inglês), que não houve remédio, apesar de ser, como dissemos, uma obra intraduzível.

— Serve assim mesmo, disse ela ao ler a tradução da primeira parte hoje publicada (a segunda “Through The Looking Glass”, inda é mais maluca) . Dá uma idéia, embora “muito pálida”, como diz a Emília”...

CAPÍTULO I VIAGEM À TOCA DOS COELHOS

A LICE ESTAVA sentada com sua irmã num banco do jardim. Como não tivesse o que fazer, começou a aborrecer-se. Olhava com cara de enjôo para o livro que a irmã lia.

— Que coisa sem graça, livro sem figura nem diálogos!...

Do livro o seu olhar foi ter a um canteiro de margaridas que havia perto, e ela pensou lá dentro da sua cabecinha se valeria a pena levantar-se do banco para fazer um buquê. Pensou só, porque o dia estava quente e ela com uma grande preguiça. Nisto um Coelho Branco, de olhos côr de pitanga, apareceu no jardim.

Alice não estranhou aquilo, como também achou muito natural que o Coelho murmurasse consigo mesmo: “Como é tarde, mamãe!”

Em seguida o Coelho puxou do bôlso do colête um relógio para ver que horas eram. Isto, sim, Alice estranhou, pois nunca tinha ouvido falar de Coelho que usasse colête e relógio. Ergueu-se então e dirigiu-se para o animalzinho, o qual fugiu assustado. Alice disparou atrás. O Coelho meteu-se por uma toca. Alice também, sem refletir que é muito fácil entrar em toca, mas muito difícil sair.

Era um túnel estreito e comprido, que em certo ponto virava um buracão de não acabar mais. Alice es corregou e caiu no buraco. Caiu, e foi caindo e não acabava mais de cair. Ou então foi caindo tão devagar que o buraco parecia mais fundo do que realmente era. Alice nunca pôde esclarecer êste ponto.

Enquanto ia caindo, ia olhando para baixo, a ver se enxergava alguma coisa. Nada enxergou; o fundo era escuro como a noite. Olhou então para os lados e viu muitos armários e estantes de livros, e também mapas pendurados. Num dêsses armários havia um pote com letreiro. Alice leu: “ Laranjada ”. Destampou o pote, já lambendo os lábios é com água na bôca. Vazio! De raiva, ia jogá-lo no fundo do buraco; mas lembrou-se que poderia cair na cabeça de alguém e botou-o de novo no lugar. E continuou a cair.

Sim, senhor! “pensou com o seus botões. “Depois duma queda destas fico mestra em tombos. Poderei cair da escada lá em casa sem susto nenhum. E até do telhado! E todos vão arregalar os olhos, espantados da minha valentia.”

Alice caiu, caiu, caiu. Não chegava nunca ao fim do buraco. “Quantos quilômetros já terei descido? pensou. Com certeza estou pertinho do centro da terra, a uns 6.600 quilômetros, talvez.”

Alice tinha aprendido na escola aquilo de quilômetros e centro da terra. Por isso aproveitou o momento para recordar a lição.

Sim continuou. “A distância que já caí deve andar nuns 6.600 quilômetros, pelo menos. Em que latitude e longitude estarei?”

Outra coisa que tinha ouvido na escola: isso de latitude e longitude. Não sabia o que era, mas gostava de repetir palavras tão científicas.

Depois disse: “Gostaria de saber se estou caindo bem a prumo pelo interior da terra. Seria engraçado se atravessasse a terra inteirinha e fôsse sair do outro lado, onde está a gente que anda de cabeça para baixo. Creio que se chamam “antípedes.” Alice pensou isso, mas percebeu logo que tinha errado. Era antípodas que queria dizer. E ficou muito satisfeita de que sòmente tivesse pensado errado, em vez de dizer errado em voz alta. Imaginem se alguém a ouvisse pronunciar semelhante asneira!”

E pôs-se a imaginar a sua chegada à terra dos antípodas. Encontraria na rua uma senhora. Dirigia-se a ela e perguntaria: “Diga-me, cara senhora: é isto por aqui a Nova Zelândia ou a Austrália?” (Fêz a pergunta de modo muito gentil, como é de uso entre as meninas bem educadas.) Mas viu logo que se assim procedesse daria sinal de ignorância, e resolveu que nada perguntaria. Em vez disso, olharia para os letreiros das casas e as placas das ruas para verificar em que país estava, sem ter necessidade de perguntar nada a ninguém.

Alice continuava a cair, cair, cair. Não podia fazer outra coisa senão cair. Para matar o tempo, começou a pensar na sua gatinha Diná. “Coitada! Creio que Diná vai estranhar muito a minha ausência esta noite. Bom será que não se esqueçam de lhe dar o seu pires de leite, à hora do chá. Minha cara Diná, eu só queria ver você aqui neste buraco para caçar uns morcegos. Sim, porque estou caindo no ar e no ar não há rato, há morcegos, que são ratos de asas. Mas será que gato come morcêgo?”

Alice começou a sentir uma certa sonolência e nesse estado o pensamento fica preguiçoso. Entrou a repetir muitas vezes a mesma frase: “Gato come morcêgo?” As vêzes repetia errado: “Morcêgo come gato?” E como não obtivesse resposta continuava a repetir sempre a mesma pergunta. Por fim sentiu que ia adormecer e que começava a sonhar. Sonhou que estava passeando com a Diná e que ia dizendo à gatinha: “Mas será mesmo verdade que você come morcêgo?”

Nisto, zás! tropeçou num monte de paus e folhas sêcas. Tinha chegado ao fundo do buracão.

Alice não se machucou. Ergueu-se de um pulo e olhou para cima. Nada pôde ver; tudo escuro como a noite. Olhou para a frente; havia um corredor por onde naquele momento ia passando o Coelho Branco. Correu-lhe empós e pôde vê-lo murmurar numa esquina: “Como é tarde, como é tarde!” Alice também dobrou a esquina, mas não viu mais o Coelho. Em vez do Coelho deu com uma grande sala iluminada de numerosas lâmpadas pendentes do teto.

Nas paredes havia portas, mas tôdas fechadas. Tentou abri-las; não pôde. Ficou então no meio da sala, a olhar para todos os lados, convencida de que seria muito difícil sair dali.

De repente se achou defronte de uma mesa de três pés, tôda de cristal. Em cima viu uma pequena chave de ouro, que imaginou ser de alguma das portas. Experimentou-a em tôdas as fechaduras, verificando que não servia em nenhuma. Dando outra volta Alice reparou numa cortina que não havia notado antes. Atrás da cortina existia uma portinha de um palmo de altura, na qual a chave de ouro serviu muito bem.

Aberta a portinha, Alice descobriu um novo corredor, estreito e bastante comprido, que parecia caminho de ratos. Ajoelhou-se, espiou e viu, bem no fundo, um belíssimo jardim. Quis ir para lá, mas como passar por uma portinha tão estreita? Nem sua cabeça cabia. “Oh, exclamou, que pena a gente não ser como os óculos de alcance, que espicham à vontade! Se eu pudesse espichar-me, como óculos de alcance ou bala puxa-puxa, iria, já e já, ver aquêle jardim tão lindo.”

Não sendo possível aquilo, Alice ergueu-se e voltou para perto da mesa, esperando encontrar outra chave ou algum livro mágico que lhe ensinasse a virar em óculos de alcance ou bala puxa-puxa. Só encontrou um vidrinho (que antes não estava lá) com um letreiro dizendo: Beba-me .

“Muito fácil dizer “beba-me”, pensou Alice," mas não sou nenhuma tôla para ir bebendo o que não sei o que é. Vou ler o que está escrito em baixo do letreiro para verificar se não é veneno.”

Alice havia lido várias histórias de meninas que se queimaram, ou foram devoradas pelas feras, por não darem atenção ao que os pais ensinam. Sabia que quando a mamãe diz, por exemplo: ferro em brasa queima, faca de ponta espeta, navalha corta o dedo e sai sangue , porque tudo isso é verdade. Sabia também que bebendo qualquer droga de vidro marcado com a palavra Veneno , o certo é morrer de morte horrorosa.

Mas como o vidrinho não trazia a palavra Veneno , Alice resolveu provar o líquido que havia nêle. Provou-o com a ponta da língua; achou-o gostoso. Provou mais e acabou bebendo tudo (de fato era apenas um licor de cereja muito bom.)

“Que coisa esquisita!” exclamou Alice. “Parece que estou a encolher-me tôda, como um óculo de alcance!”

E assim era. Estava encolhendo tanto, e tanto encolheu, que ficou de meio palmo de altura. Chegou a sentir-se nervosa, de mêdo de ficar pequenininha como tôco de vela de árvore de Natal.

Isso também não. Essas velas vão diminuindo, diminuindo, e de repente o pavio cai para um lado e era uma vez a vela. Extinguem-se. Não! Não! Não queria acabar a vida assim. E esperou uns minutos, muito ansiosa, a ver se parava de encolher. Felizmente parou em meio palmo. Ora graças!

Assim que se pilhou pequenininha, correu à portinhola com a idéia de ir ao jardim. Mas lembrou-se que a tinha fechado e pôsto a chave em cima da mesa. E agora? Como tirar a chave de lá? Alice tentou todos os meios. Tentou subir por uma das pernas da mesa; tentou pular. Nada conseguiu e, desesperada, sentou-se no chão e chorou.

De repente disse para si mesma: “Bôba! De que vale chorar?” Alice era menina inteligente e prática, das tais que costumam dar bons conselhos a si mesmas. Às vêzes chegava a ponto de repreender-se com tanta severidade que se punha a chorar. Uma vez estêve a ponto de castigar-se a si própria com pancadas — uma vez que cometeu um erro muito grave numa partida de croquet que estava jogando consigo mesma. Sim, consigo mesma, porque quando estava só e precisava de companheira para brincar, Alice tinha a mania de julgar-se duas pessoas.

“Não vale a pena chorar,” repetiu ela; “também não vale a pena ser duas pessoas. Contento-me em ser apenas uma menina bem educada.”

Mas naquele momento seus olhos fixaram-se numa caixinha de vidro, que estava debaixo da mesa: abriu-a e encontrou dentro um doce muito bonito, com um letreiro de passas que dizia: Coma-me .

“Está bem, vou comer êste doce”, disse ela; “com certeza me fará crescer de modo que eu possa alcançar a chavinha. Se em vez disso me fizer ficar menor ainda, poderei passar pelo buraco da fechadura e assim chegar ao lindo jardim.”

Alice começou a comer o doce, dizendo: “Que irá acontecer?” E punha a mão sobre a cabeça para veri ficar se estava crescendo ou diminuindo. Mas com grande surprêsa viu que permanecia na mesma, nem maior, nem menor. Ficou desapontada com o doce. Era um doce comum, um doce ordinário, dêsses que estava acostumada a comer todos os dias. Um doce natural , em suma, e Alice só gostava das coisas extraordinárias. Lembrou-se de que talvez fôsse diferente se comesse o doce inteiro — e comeu-o todinho.

CAPÍTULO II LAGO DAS LÁGRIMAS

E IS EM que dá o curiosísmo! exclamou Alice para si mesma (sem reparar que estava errando na palavra), ao perceber que começara a aumentar de tamanho como as coisas que a gente olha através dum telescópio. “Adeus, adeus, meus caros pés! (disse assim porque, quando olhou para os pés, notou que estavam lá longe e tão pequeninos que quase se tornavam invisíveis.) Meus pobres pèzinhos! Quem poderá agora fazer sapatos e meias para êles? Só mesmo uma pulga sapateira. Mas a distância entre minha cabeça e meus pés vai ficar tão grande que não vale a pena me preocupar. Que se arrumem como puderem.” Disse isso e logo se arrependeu. “Não, não! Tenho que ser gentil para com êles; do contrário também me abandonam e não mais me levarão para onde eu queira ir.” E para agradar os pés, que deviam estar muito zangados, gritou bem alto, de modo que lá de longe êles pudessem ouvir: “Quando chegar o Natal, hei de dar a vocês um lindo par de sapatinhos dourados, ouviram?”

E começou a pensar como havia de ser para entregar a seus pés, lá longe, o par de sapatinhos dourados. Teria de mandá-los por um mensageiro! E seria engraçado isso de a gente mandar presentes aos pés distan tes... Havia de fazer um pacotinho muito bem feito com um enderêço assim:

Ilmos. Exmos. Srs.

Pé Direito e Pé Esquerdo,

Respeitáveis extremidades do corpo de D. Alice.

(Com muitas saudades da mesma.)

“Arre! Como estou asneirenta hoje!” exclamou em seguida, caindo em si.

Nesse instante bateu com a cabeça no teto da sala, pois fôra crescendo, crescendo, e estava agora com mais de três metros de altura. Lembrou-se então da chave, tomou-a de cima da mesa e correu em direção da portinha.

Pobre Alice! Pôde tirar a chave de cima da mesa, mas, aumentada de tamanho como ficara, era-lhe de todo impossível passar pela portinha. Sentou-se no chão novamente e rompeu a chorar como da primeira vez.

“Que vergonha!” disse em certo momento. “Tamanha moça a chorar que nem criança de peito! Pare com isso, pois você sabe que chorar nunca adiantou coisa nenhuma.”

Apesar do pito que ia passando em si própria, as lágrimas continuavam a cair-lhe dos olhos e breve formaram em redor dela um pequeno lago que tomou metade da sala.

Estava nisso quando ouviu um ruído. Enxugou logo o rosto e voltou-se para ver o que era. Era o Coelho Branco que regressava, esplêndidamente vestido, tendo numa das mãos um par de luvas e na outra um leque. Vinha saracoteando e falando entre dentes: “Meu Deus! Será que a Duquesa não vai zangar-se com a minha demora?”

No desespêro em que Alice estava, lembrou-se de pedir socorro ao Coelho e disse-lhe em voz baixa, com tôda a timidez: “Meu caro senhor...” Mas o ilustre figurão sobressaltou-se e deixando cair as luvas e o leque sumiu-se aos pulos na escuridão.

Alice apanhou o leque e, como estivesse fazendo muito calor, pôs-se a passear pela sala, abanando-se todo o tempo. Enquanto isso, ia dizendo: “Meu Deus! Como tudo me parece estranho hoje! No entanto até ontem as coisas corriam como de costume. Quem sabe me trocaram por outra criatura durante a noite? Estudemos o caso. Será que sou a mesma Alice de ontem? Se não sou, então quem sou? Eis o grande problema.” E começou a recordar tôdas as meninas com quem se dava, para ver se a haviam trocado por algumas delas.

“Cléu! Serei a Cléu? Não. Não pode ser. A Cléu tem cabelos crespos e os meus são lisos. Também não posso ser a Zuleica, porque Zuleica é muito burrinha e eu não me sinto tal. Mas serei eu mesma, a Alice de ontem? Que confusão terrível! Vamos tirar a prova. Vamos ver se sei as coisas que sabia ontem. Quatro vêzes cinco, doze. Quatro vêzes seis, treze. Não, não! Com tabuada a coisa não vai. Experimentemos a geografia. São Paulo, capital Turquia. Londres, capital Venezuela. Está certo ou errado? Está errado. Logo, eu fui trocada pela burrinha da Zuleica!...”

E Alice recomeçou a chorar: “Sou a Zuleica! Terei agora de viver naquela casa feia onde ela mora, e tomar pitos da professôra por nunca saber as lições, ai, ai, ai...” e chorou mais um litro de lágrimas.

“E que sou a Zuleica, continuou, ficarei para sempre dentro dêste buraco. É inútil que a gente lá de cima me descubra aqui e me grite: “Suba, queridi nha!” Se fizerem isso, perguntarei: “Digam primeiro o meu nome, digam quem sou eu, porque se disserem meu nome certo, se disserem que sou Alice, então sairei daqui; mas se disserem que sou a Zuleica, ah, então ficarei enterrada nesta cova tôda a vida.”

E Alice, já cansada de estar no fundo daquele buraco, olhou para cima, ansiosa de ver aparecer por lá alguma cara de gente que a avistasse e dissesse quem ela era.

Nisto olhou para as mãos e notou que sem o perceber havia calçado as luvas do Coelho.

“Como pôde ser isto?” exclamou muito admirada. “Como pude calçar estas luvas tão pequeninas? Querem ver que diminuí de tamanho sem o notar?” Dizendo isto, correu para perto da mesa a fim de medir-se, e verificou que encolhera de novo e estava com apenas sete centímetros de altura. E notou ainda que continuava a diminuir. Descobriu logo que a causa daquilo era o leque que tinha na mão, leque mágico — e jogou-o para longe, de mêdo de desaparecer totalmente.

“De que escapei!” murmurou, ainda assustada da repentina mudança, mas satisfeita por ver que ainda restavam sete centímetros dela mesma e que agora poderia ir ter ao jardim.

Correu então para a portinha; mas logo reparou que esquecera de tirar a chave de cima da mesa quando dispunha de altura para isso, de modo que estava tudo na mesma — isto é, sem poder alcançar a chave e sem poder ir ao jardim.

“As coisas vão de mal a pior,” disse. “As coisas vão péssimas... As coisas vão...” e Alice não pôde concluir a frase. Escorregou e caiu de costas no lago de água salgada, que se havia formado com as suas próprias lágrimas. Sua primeira idéia foi que havia caído no mar, “e nesse caso só poderei voltar para casa de trem”, pensou consigo. Alice só fôra uma vez na vida ver o mar, quando bem pequenininha. E ficou para sempre com a idéia de mar que teve naquela ocasião. Mar era uma praia cheia de crianças brincando na areia, perto de fileiras de casinhas de banhistas, e lá atrás uma estação de estrada de ferro. Mas essa impressão de mar pouco durou. Alice logo percebeu que estava dentro dum lago de lágrimas, que ela mesma formara no chão quando se fêz grandona qual uma giganta.

“Bem feito!” exclamou. “Quem me mandou chorar daquela maneira? Será muito bem feito que me afogue neste lago produzido por minhas próprias lágrimas! Que fim estranho! Creio que jamais aconteceu coisa semelhante no mundo, desde que o mundo é mundo...”

Nisto ouviu um barulho na água e tratou de nadar na direção para ver o que era. Viu um animalão que a princípio lhe deu idéia dum hipopótamo. Depois percebeu que lhe parecia grande assim porque ela estava muito pequena, e não era hipopótamo nenhum e sim um Rato que também caíra nágua.

Valerá a pena falar com êste Rato?” — pensou Alice. “É tudo tão extraordinário neste lugar que com certeza êste Rato é falante, como o Coelho. Vejamos.” E dirigiu a palavra ao Rato, assim: “Senhor Rato, poderá dizer-me qual é a saída dêste enorme lago? Estou cansada de nadar, ó Rato!” Alice achou que era êste o modo correto de dirigir-se a um Rato; nunca fizera semelhante coisa, mas lembrava-se que na gramática latina de seu irmão mais velho, que ela um dia abriu, havia um pedaço assim: “O rato, do rato, ao rato, ó rato.”

O Rato deitou-lhe um olhar cheio de curiosidade e piscou um dos olhinhos, sem nada responder.

“Talvez não entenda a minha língua” pensou Alice. “Talvez seja um Rato francês vindo com Guilherme, o Conquistador.” Alice conhecia muito mal a história dêsse rei e imaginava que fosse algum francês que ainda estivesse vivo e morando perto dali. Assim, repetiu a pergunta em francês, e como só sabia uma frase dessa língua, que era a primeira dum livro de leitura, disse: “ Où est ma chatte? ”

O Rato, assim que ouviu aquilo, deu um pulo fora dágua e pôs-se a tremer de mêdo. Alice apressou-se em sossegá-lo: — Oh, desculpe, Senhor Rato! Esqueci-me que os senhores não gostam de gatos, nem de gatas.

— Está claro que não. Gostaria de gato você, se fosse uma ratinha?

— Talvez não, respondeu Alice com amabilidade. Mas não se irrite. É que tenho uma gatinha da qual nunca me esqueço e por isso não posso ter ódio aos gatos. Deixe estar que um dia hei de apresentar-lhe minha gatinha Diná. O senhor vai ficar adorando os gatos, se conhecer a Diná. Tão boazinha, tão macia e quietinha... continuou Alice, mais falando consigo mesma do que com o Rato, cheia de saudades que estava da Diná. — E como rosna bem! Rosna que nem música, com tôda a delicadeza, cada vez que a deito ao colo, perto do fogo, e lhe corro a mão pelo lombo. Gosta de lamber as patinhas e passá-las pelo focinho... Além disso é habilíssima na caça dos rat... Vendo que ia cometer uma imprudência, Alice tapou a bôca para que a palavra não saísse inteira, e continuou: — Mas mudemos de assunto, Senhor Rato. Vejo pela sua cara que êste assunto gatal não é muito do seu agrado. Nós não falaremos mais da Diná.

— Nós? exclamou o Rato, todo trêmulo ainda. Nós é um modo de dizer. Quem está falando dêsse horrendo animal é você, não eu. Portanto, esse nós está errado. Em minha família essa palavra “gato” ninguém a pronuncia. Faça o favor de não pronunciá-la outra vez, ouviu?

— Perfeitamente, concordou Alice, ansiosa por mudar de assunto. Falemos de... de... de cães, por exemplo. O senhor gosta de cães?

O Rato nada respondeu e Alice continuou:

— Perto de casa há um cachorrinho tão bonitinho que tenho vontade que o senhor o conheça. É um fox-terrier, de olhos muito vivos, pêlo comprido e sedoso, muito crêspo. Sabe buscar os objetos que a gente atira. Fica de pèzinho no canto e mais coisas. Uma galanteza! Pertence a um chacareiro que vive a gabá-lo, e a dizer que nem por um mil cruzeiros dá um tão bom caçador de rat... Alice tapou a bôca de novo, ao perceber que ia pronunciando nova inconveniência. Mas o Rato percebeu o que ela ia dizendo e afastou-se, nadando com quantas forças tinha. Alice nadou atrás dêle, chamando-o com ternura: — Volte, caro Ratinho! Venha conversar comigo. Juro que não falarei mais nem de gato, nem de cachorro, já que o senhor não gosta dêsses entes.

Ouvindo tais palavras, o Rato voltou e veio vagarosamente colocar-se de novo perto dela. Estava pálido de emoção (assim pensou Alice) e mal pôde dizer, em voz débil: — Vamos para a margem. Lá contarei porque não posso ouvir falar de gatos e cães.

Era tempo. O lago estava enchendo-se de bichos. Havia um pato, um ganso, um papagaio e até uma àguiazinha nova. E mais bichos de pena e pêlo. Por entre êles Alice abriu caminho e nadou para a margem, seguida do senhor ratinho.

CAPÍTULO III UMA REUNIÃO ORIGINAL

E RA UMA coisa bem esquisita, aquêles bichinhos à beira do Lago das Lágrimas, rodeando a menina; os de pena estavam com as penas sujas de lama, e os de pêlo estavam com o pêlo todo arrepiado. Como estivessem encharcados, a grande questão se tornou enxugarem-se, e sôbre isso começaram a discutir. Alice, que nada estranhava, achou tudo muito natural, e com êles discutia como se os conhecesse de muito tempo. Começou por falar com o Papagaio, que estava a teimar que era quem devia chefiar a discussão. — Eu sou o mais velho e por isso tenho direito de ser ouvido primeiro, dizia êle. Alice insistiu em saber que idade tinha. O Papagaio parece que ignorava isso, pois recusou-se a contar — e não houve meio de se entenderem.

Finalmente o Rato, que parecia pessoa muito respeitada entre os bichinhos, tomou a palavra e disse: — Sentem-se todos e ouçam-me. Sei um meio muito bom de enxugar penas, pêlo e roupa num instantinho. Todos o rodearam, e Alice ficou bem perto, porque com mêdo de adoecer, queria enxugar-se mais depressa que os outros.

— Atenção! disse o Rato com ar importante. Estão todos prontos? Muito bem. Vou começar. Como os meus amigos sabem, a coisa mais árida e sêca que há no mundo é o comêço da história da Inglaterra. É um poderoso secante . Vou recitar êsse comêço e garanto que a seca fará que todos sequem. Silêncio! Vou começar.

Todos ficaram imóveis e o sabido Rato principiou: “Guilherme I, o Conquistador, cuja causa era favorecida pelo Papa, foi logo aceito pelos inglêses os quais careciam de chefes e estavam acostumados a usurpações e conquistas. Edwin e Morcar, condes de Mercia e da Nortúmbria...

— Chi! murmurou o Papagaio com um arrepio.

— Que é que o senhor disse? observou o Rato, carrancudo mas com delicadeza.

— Nada, respondeu o Papagaio. Eu chiei apenas.

— Pensei que tinha feito alguma objeção, tornou o Rato desfazendo a carranquinha. E continuou a seca: — Como ia dizendo, os Condes de Mercia e da Nortúmbria se declararam por êle; e o próprio Stigand, o patriótico arcebispo de Cantuária, acompanhou-os nisso.

— Acompanhou-os, quem? interrompeu o Pato, que era muito curto de inteligência.

— Acompanhou- os . Não sabe o que os significa nesta frase? Os é um pronome que corresponde a êles . Acompanhou êles, respondeu o Rato já meio zangado.

— Sei que os significa êles , retrucou o Pato. Mas quem são êles? Para mim êles significa sempre uma rã ou um bom verme, minhoca ou bicho-de-pau podre. Quem foi que o arcebispo acompanhou— alguma minhoca ou alguma rã?

O Rato achou o Pato tão estúpido que não lhe deu resposta e prosseguiu na seca: O arcebispo, então, foi ao encontro de Guilherme para lhe oferecer a coroa de rei da Inglaterra. No príncipio o novo rei agiu com moderação; mas a insòlência dos seus companheiros normandos... Aqui o secante interrompeu a seca para perguntar a Alice: Querida senhorita, como está se sentindo agora? Melhor?

— Qual melhor o quê! Estou encharcada como antes, respondeu Alice torcendo a sainha. Parece que sua história não seca roupa, só seca a paciência dos ouvintes.

— Nesse caso, interveio o Ganso em tom solene, requeiro que se levante a sessão para que sejam adotadas enérgicas providências.

— Fale língua de gente! gritou a Pequenina Águia. Sou muito jovem; ainda não aprendi as pala vras dificeis. E acho até que nem o Senhor Ganso entendeu muito bem o que disse, e a Pequenina Aguiazinha meteu a cabeça debaixo da asa para esconder um sorriso, enquanto os outros riam alto.

— O que eu queria dizer, prosseguiu o Ganso um tanto ofendido, era que a melhor coisa para secar é uma corrida sui generis .

— Que coisa é uma corrida sui generis? indagou Alice, não tanto porque o desejasse saber, mas porque o Ganso havia feito uma pausa, como se pensasse que alguém deveria dar algum aparte, que não apareceu.

— O melhor meio de explicar é fazer. Vamos organizar a corrida sui generis .

E começou. Primeiro traçou no chio um circulo muito torto “o feitio exato não importa” foi logo dizendo, e colocou cada um dos presentes ao longo do risco, aqui, ali, lá. Não era preciso nem dizer um, dois, três, para começar. A corrida começava sem isso. Começavam a correr quando queriam e paravam também quando queriam, de sorte que não era fácil saber quando a corrida acabava. Assim se fêz. Correram cerca de meia hora e ao fim dêsse tempo notaram que estavam todos enxutos. Então o Ganso gritou: — Pronto! A corrida acabou. Todos, cansados e resfolegantes, se reuniram em tôrno dêle, perguntando: — Mas quem ganhou?

O Ganso ficou atrapalhado e permaneceu uns segundos com o dedo espetado na testa, pensando. Por fim deu a decisão: — Todos ganharam e todos vão receber prêmios.

— Mas quem vai distribuir prêmios?

— Está claro que é ela, disse o Ganso apontando para a menina. E os bichinhos incontinênti rodearam Alice: — Prêmios! Venham os prêmios!

Alice não sabia o que fazer. Olhou em redor e nada viu que servisse para prêmio. Lembrou-se então que tinha no bôlso uma caixinha de bombons. Tirou-a fora, abriu-a e deu um docinho a cada um. Foi a conta.

— Mas também ela tem direito a prêmio, disse o Rato.

— Pois de certo, concordou o Ganso com tôda a seriedade. E virando-se para Alice perguntou: — Que mais coisas tem vêce no bôlso?

— Só êste dedal, disse Alice, tirando do seu bôlso um dedal de tostão, que deu ao Ganso.

Todos rodearam a menina enquanto o Ganso, com solenidade, lhe apresentava o dedal de tostão com estas palavras: — Pedimos que aceite êste precioso dedal como prova de nossa mais profunda admiração. Todos aplaudiram e Alice meteu o dedal no bôlso outra vez.

A menina achou aquilo um tanto absurdo e cômico, mas não teve coragem de rir, porque os bichos estavam agindo muito a sério. Por isso não destampou nenhuma risada, limitando-se a agradecer com uma cortesia de cabeça.

— E agora? Agora o que tinham a fazer era comer os prêmios — e foi isso uma pequena tragédia. As aves e bichos que não estavam acostumados a comer bombons se atrapalharam. Uma das aves engasgou-se, sendo preciso que lhe dessem socos nas costas. Terminada a comilança dos prêmios, puseram-se novamente em círculo e pediram ao Rato que falasse.

Você me prometeu contar sua história, e explicar por que motivo tem ódio às letras G, e C, disse a menina em voz meio baixa, receosa de que o Rato se ofendesse outra vez.

— A minha história é muito triste e comprida, suspirou o Rato.

Alice, que naquele momento estava com olhos postos na caudinha do Rato, ficou a imaginar que a sua história deveria ser tão comprida como sua cauda, talvez mais comprida ainda e tôda cheia de voltas. E lá dentro da cabeça pôs-se a imaginar que a história do Rato devia ser qualquer coisa assim:

Alice estava assim absorvida na sua história imaginada quando o Rato a chamou a si.

— Você não está prestando atenção! gritou êle com severidade. Em que pensa?

— Desculpe-me! disse Alice com humildade. Julguei que já estivesse acabada a história.

— Ainda não a comecei, disse o Rato zangadíssimo.

— Olhe êste nó! exclamou Alice mostrando um nòzinho na sua saia, querendo à custa do nó mudar de assunto. Ajude-me a desatá-lo.

Mas o Rato estava sèriamente ofendido. Levantou-se para ir-se embora e disse: — Você está mas é a insultar-me essa bobagem de nó na saia.

— Não tive intenção de insultá-lo, Senhor Rato, murmurou a pobre Alice. O senhor também se ofende por qualquer coisinha...

Tão irritado estava o Rato que nem respondeu. Foi saindo. Alice correu atrás dêle, dizendo: — Não seja mau. Volte e conte-nos a sua história. Todos os outros bichinhos a acompanharam naquele pedido: — Volte, volte, não seja mau! O Rato, porém, limitou-se a sacudir a cabeça com energia e apressou ainda mais o passo.

— Que pena que não ficasse! disse o Papagaio assim que o Rato desapareceu. E suspirou. Uma velha carangueja aproveitou a oportunidade para dar uma lição à filhinha que estava com ela: — Aprenda, menina. A gente nunca deve irritar-se, porque faz papel feio. Mas a pequena carangueja, que era muito mal-criada, respondeu à mamã: — Deixe-se de bobagens. A senhora com os seus sermões é capaz de fazer até uma ostra perder a paciência.

— Que pena a Diná não estar aqui! murmuro Alice consigo. Ela teria feito o Rato voltar e lhe daria uma lição para o resto da vida.

— Quem é essa Diná, se me permite a pergunta? indagou o Papagaio.

Alice, que não perdia ocasião de falar da querida gatinha, apressou-se em responder: — É a nossa gatinha. Você não imagina que danada para caçar ratos! E passarinhos também. Apanha-os e come-os num abrir e fechar de olhos.

Aquelas palavras impressionaram sèriamente alguns dos bichos de penas, os quais trataram de afastar-se da dona de tão perigoso animal. Uma velha coruja agasalhou-se dentro de seu xalinho, dizendo: — Preciso ir para casa sem demora. O sereno me pode fazer mal. E uma canária chamou com voz trêmula os filhotes, assim: — Vamos, queridinhos. Há muito tempo que vocês já deviam estar na cama. E dando cada qual sua desculpa, todos se retiraram, deixando Alice sòzinha.

— Antes não tivesse falado em Diná! pensou ela melancòlicamente. Parece que aqui ninguém a aprecia, e no entanto é a melhor gatinha do mundo. Que injustiça lhe fazem...

Sentindo-se muito só e desanimada, Alice pôs-se novamente a chorar, e assim ficou até que ouviu ruído de passos ao longe. Olhou ansiosa na direção do barulho, com esperança de que o Rato viesse voltando para lhe contar a sua história.

CAPÍTULO IV O COELHO DÁ ORDENS

N ÃO ERA O Rato e sim o Coelho Branco que vinha aos pinotes, olhando em tôdas as direções como se andasse em procura de alguma coisa perdida. E Alice ouviu-o dizer, falando sòzinho: “A Duquesa! Oh, minhas pobres patinhas! Minha pobre pele e meus pobres bigodes! Ela manda-me matar, não tenho a menor dúvida. Mas onde eu poderia tê-los perdido?”

Alice compreendeu que o Coelho Branco procurava as luvas e o leque, e como era boazinha começou a ajudá-lo a procurar êsses objetos. Mas parecia que tudo havia mudado depois da sua queda na lagoa. Não via mais nem a sala grande com a mesa de vidro no centro, nem a célebre portinha que dava para o jardim.

Assim que o Coelho notou a presença de Alice, gritou-lhe com voz irritada: — Mariana! Que é que está fazendo aqui? Corra até em casa e traga-me um par de luvas e um leque. Depressa! Vá num pé e volte noutro!

Alice, de tanto mêdo, nem discutiu a ordem. Saiu correndo na direção que o Coelho apontava, pensando consigo: “Com certeza me tomou por alguma criada. Vai ficar muito surprêso quando der pelo engano. Se ria bom que eu pudesse trazer-lhe as luvas e o leque, mas onde a tal casa?”

Foi correndo às tontas e, de repente, achou-se defronte duma casinha muito limpa, que trazia na porta uma placa de metal amarelo com o nome Coelho Branco gravado em letras pretas. Alice entrou sem bater e subiu a galope as escadas, receando esbarrar pelo caminho com a verdadeira Mariana, que certamente a poria no ôlho da rua, sem luvas nem leque.

“Mas isto é um absurdo!” começou Alice a refletir. “É um disparate eu a esbofar-me para fazer o que um coelhinho manda! Qualquer dia a Diná põe-se a me fazer de criada também.” E começou a imaginar as cenas. Imaginou que a sua governanta a chamava para ir ao dentista, assim: “Dona Alice, vamos, são horas do dentista!” “Espere um pouco, Dona Quitéria, respondia a menina aflita. A Diná me pôs aqui de guarda a êste buraquinho de rato e eu não posso sair sem licença dela.”

Assim imaginando tais maluquices, a travêssa menina entrou num quartinho que estava de porta aberta e viu sôbre a mesa do toucador um leque e vários pares de luvas brancas. Escolheu um dêles, agarrou o leque e dispunha-se a sair quando notou uma garrafa perto do espelho. Não havia rótulo dizendo: Beba-me , mas Alice abriu-a e provou o líquido, pensando: “Sei que acontece sempre alguma coisa estranha quando como ou bebo neste país das maravilhas... Quem sabe se êste líquido me faz crescer novamente? Já estou farta de ser pequenininha.”

De fato assim foi. Mal bebeu uma parte do líquido e já espichou de tal maneira que a cabeça esbarrou no teto. Teve de parar de beber, se não ficaria de pescoço torto. Colocou a garrafa no lugar onde a encontrara e disse: "Basta! Espero que não crescerei mais, porque mesmo do tamanho que estou não sei como sair dêste quarto. Não passo mais pelas portas. Fui burra. Bebi demais."

Era tarde. O mal estava feito. Apesar de não ter bebido tôda a garrafa, bebera demais e continuava a crescer lentamente. Alice foi espichando, espichando. Começava a não mais caber no quarto. Teve de ajoelhar-se. Mas nem assim. Como continuasse a crescer, teve de enfiar os braços pelas janelas e os pés pela porta. Felizmente aquêle absurdo crescimento não foi além. Chegado até um certo ponto, parou. Mas a sua situação era das mais embaraçosas. Estava enormíssima, sem poder mover-se, com braços e pernas para fora da casa.

— Que será de mim, meu Deus! exclamou Alice desconsolada, sem saber como escapar daquela terrível situação. Como me arrependo de haver saído de casa! Vivia sossegada, sem êste perigo constante de ora crescer, ora diminuir, e sem ter que aturar coelhos e ratos mandões. Antes nunca tivesse visto o Coelho Branco no jardim. Mas mesmo assim esta vida não deixa de ser curiosa, pensou mudando de idéia. “Quando lá em casa eu lia contos de fadas, não acreditava em nada daquilo, mas agora vejo que acontecem. Que lindo livro dariam estas aventuras em que ando metida! Que pena não escreverem um assim! E por que não escrevê-lo eu mesma? Quando crescer farei isso, estou resolvida. Quando crescer? Oh, agora me lembro que crescida e até demais estou eu! Estou tão crescida que já nem tenho mais por onde crescer...”

E Alice foi por aí afora, nesse eterno diálogo consigo mesma, até que ouviu uma voz dizer do lado da rua: — Mariana, traga logo as minhas luvas e o leque!

Era o Coelho, furioso da vida, que já vinha a subir as escadas. Esquecendo-se que estava mil vêzes maior que êle, Alice pôs-se a tremer da cabeça aos pés, de puro mêdo. E tanto tremeu que abalou a casa tôda.

O Coelho chegou ao alto da escada, e tentou abrir a porta. Não conseguiu. Os cotovelos de Alice estavam a escorá-la como grandes trancas. Vendo que por ali não podia passar, o Coelho retirou-se, murmurando consigo: “Vou dar volta e entrar pela janela.” Mas a janela estava entupida pelo braço de Alice e quando o Coelho se aproximou a mão da menina se fechou como para agarrá-lo. Alice não agarrou coisa nenhuma, mas ouviu um rumor de vidros quebrados. Com o susto que levara diante daquela mão enorme, o pobre Coelho dera um salto para trás, indo cair em cima dos vidros duma estufa de avencas. Caiu e afundou por lá. Alice ainda pôde ouvi-lo gritar com voz irritada: — Pat, Pat! Onde está você?

— Estou cuidando das maçãs! respondeu uma voz que a menina desconhecia.

— Cuidando das maçãs, hein? repetiu o Coelho, sempre irritado. Venha cá, depressa, ajudar-me a sair disto , e ouviu-se mais barulho de vidros quebrados.

Pat ajudou o Coelho a desembaraçar-se dos vidros; depois alisou-lhe o pêlo todo arrepiado.

— Diga-me, Pat, perguntou êle, que é aquilo lá na janela?

— Parece um braço, respondeu Pat, firmando a vista.

— Grande idiota que você é! berrou o Coelho. Onde já se viu braço daquele comprimento e grossura? Enche todo o vão da janela.

— Vossa Excelência é quem decide, mas a mim me parece braço.

— Seja lá o que fôr, está a me estorvar a passagem. Vá tirar aquilo de lá.

Houve um silêncio, interrompido de murmúrios. Alice só pôde perceber uma frase: — Não estou gostando nada disto! Ao que o Coelho retrucou: — Faça o que eu mando, seu medroso!

Nesse momento Alice abriu e fechou de novo a mão. Foi outro reboliço. Pela segunda vez ouviu-se barulho de vidros quebrados. “Quantas estufas de avencas exis tem debaixo da janela!” pensou Alice. “Que será que tencionam fazer de mim? Tirar-me pela janela é impossível — e sinto muito. Daria tudo para safar-me desta horrível situação.”

Um tempo se passou sem que ouvisse coisa nenhuma. Por fim notou um barulho de rodas, e ouviu outras vozes, de gente que falava com espanto. A menina pôde distinguir frases como estas: “Onde está a outra escada? Eu só trouxe uma. Periquito que traga a outra. Aqui, Periquito! Traga-a para aqui! Encoste-a nesse canto. Isso. Não alcança? Que pena! Temos que emendar uma escada noutra. Amarre bem, Periquito! Será que o beiral do telhado agüenta? Cuidado com essa têlha sôlta! Está cai-não-cai. Suba, Periquito, e desça pela chaminé. Não tenha mêdo, vá, ande!”

Alice pensou: “Já sei quem vai aparecer pelo canudo da chaminé: é o tal Periquito. Ele que venha, que quando aparecer lhe prego um pontapé.” E encolheu-se o mais que pôde, à espera, até que um animalzinho, que não pôde perceber qual fôsse, surgiu em baixo da chaminé. Alice deu-lhe um pontapé com tôda a energia.

O pobre Periquito voou pelos ares como um foguete, indo cair longe dali.

Houve nova barulheira e muito corre-corre. — Vá salvar o Periquito! ordenava o Coelho. — Levante-lhe a cabeça. Dê-lhe um pouco de pinga para que volte a si. Vamos, rapaz! Conte lá o que aconteceu.

— Não sei, respondeu Periquito voltando a si e meio tonto ainda. Estou muito atordoado. Uma coisa misteriosa me fêz subir pelos ares que nem foguete.

Mais discussões e cochichos. Por fim disse o Coelho: — O melhor é botar fogo na casa. Tragam palha e fósforos.

Ouvindo aquilo, e receando que a incendiassem, Alice teve uma grande idéia e gritou: — Se puserem fogo na casa, eu chamo a Diná e ela caça vocês todos!

Fêz-se pesado silêncio, durante o qual Alice pensou: “Que será que vão fazer agora? Se fossem mais inteligentes, deitariam abaixo o telhado. Mas aposto que nenhum ainda teve essa idéia.”

Passados uns segundos, ouviu-se de novo a voz do Coelho: “Para começar basta um carrinho cheio”, dizia êle.

“Cheio de quê?” interrogou-se Alice, sem poder atinar com a resposta. Dali a pouco, entretanto, soube de que era cheio o carrinho. De pedras! Começaram a chover pedras na janela. Parecia um bombardeio.

— Parem com isso, seus bobos! Não vêem que estão me machucando? gritou Alice com tôda a fôrça.

Mais uma vez tudo caiu em profundo silêncio. Notou Alice com espanto que ao caírem as pedras iam se transformando em biscoitos e teve uma idéia luminosa.

— Se eu comer um dêstes biscoitos, com certeza alguma coisa acontece que talvez melhore a minha situação. E como não é possível crescer mais, quem sabe se diminuo?

Alice comeu um dos biscoitos e logo sentiu, com imensa alegria, que lentamente começava a ficar menor. Assim que diminuiu o necessário, safou-se da casa e correu para fora, onde a esperava uma multidão de pequenas aves e animais. O tal Periquito não passava dum lagartinho. Estava ainda tonto da queda, escorado por dois porquinhos da Índia que lhe davam a beber goles de pinga. Mal a viram aparecer, avançaram todos para ela; mas Alice pôs-se a correr e logo se achou livre dêles, no seio duma floresta.

“A primeira coisa que tenho a fazer, disse Alice, enquanto vagava pelo bosque, é voltar ao meu tamanho natural; e a segunda é achar o caminho daquele jardim encantador. Não desisto de conhecer êsse jardim.”

Bom era o plano; mas como executá-lo? Alice não tinha a menor idéia a respeito. E começou a andar ao acaso pela floresta.

De repente ergueu os olhos para uma árvore e viu, sentado num galho, um cãozinho. “O coitado!” murmurou com piedade. Mas logo se lembrou que podia ser um cão faminto, dos que comem meninas — e ficou transida de mêdo. Quase sem saber o que fazia, pegou uma varinha e ofereceu-a ao cão. Este saltou da árvore para apanhá-la. Alice escondeu-se atrás dum tronco. Apesar de muito pequeno, aquêle cãozinho era maior que ela, e podia comê-la como comeria um rato. Por isso ficou a rodear o tronco, de modo que o bichinho não pudesse pegá-la, e em certo momento deu uma carreira e escapou para longe. Correu a mais não poder, só parando quando percebeu que o cão estava muito distanciado.

“Que pena! Era tão lindo!” exclamou Alice, sentando-se para descansar e abanando-se com uma fôlha de mato. “Gostaria imenso de tê-lo comigo para lhe ensinar uma porção de prendas, isso caso eu não fosse tão pequenininha. Vejo que tenho de crescer novamente e quanto antes. Mas como será? Que devo fazer? Suponho que tenho de beber ou comer qualquer coisa desta terra das maravilhas. Mas beber ou comer o quê? Eis o grande problema.”

Realmente, era êsse o grande problema. Tinha de comer ou beber alguma coisa, mas o quê? Alice olhou para as ervas e flôres em redor e nada viu que lhe parecesse de beber ou comer. Nisto avistou um grande cogumelo da sua altura. Examinou-o de todos os lados e lembrou-se de examiná-lo também do lado de cima. Trepou a uma pedra perto e de lá pôde ver, sentado no tôpo do cogumelo, um Bicho-Cabeludo que fumava calmamente o seu cachimbo e parecia indiferente ao que se passava em redor.

CAPÍTULO V CONSELHOS DO BICHO-CABELUDO

A LICE E O Bicho-Cabeludo entreolharam-se por alguns instantes em silêncio. Por fim tirou êle o cachimbo da bôca e perguntou-lhe em voz sonolenta:

— Quem é você?

Era um comêço bem pouco animador para Alice, que respondeu com timidez:

— Para falar a verdade, ignoro. Quando me levantei esta manhã, eu sabia quem era; mas durante o dia mudei tanto que não sei mais quem sou.

— Que é que quer dizer com isso? indagou o Bicho-Cabeludo com severidade. Explique-se.

— Não posso explicar-me, retrucou Alice, porque, como vê, eu não sou eu mesma.

— Como vê , é modo de dizer. Não estou vendo coisa alguma, disse o Bicho-Cabeludo.

— Receio não poder ser mais clara, observou Alice muito gentilmente. Começa porque não sei por onde começar. Isto de no mesmo dia ser de diversos tamanhos causa-me grande confusão.

— Não causa nada, disse o Bicho-Cabeludo.

— Por enquanto talvez seja essa a sua opinião, replicou Alice. Mas quando chegar sua vez de virar em crisálida e depois em borboleta, talvez o senhor mude de idéias, e estou certa de que achará o caso bastante esquisito.

— Está muito enganada.

— Bem, talvez o seu cérebro seja diferente do meu. O que sei é que estas mudanças me parecem muito estranhas, a mim .

— Mim? replicou o Bicho-Cabeludo. Quem é mim?

Essa pergunta fêz a conversa voltar ao comêço e Alice irritou-se com as impertinências do Bicho. Em vista disso respondeu-lhe com secura: — Acho que o senhor é que devia me dizer quem é.

— Por quê? indagou o Bicho-Cabeludo:

A pergunta embaraçou Alice, que não soube explicar porque devia o Bicho explicar-se primeiro; e como não o visse de muito bom humor, resolveu afastar-se daquele ponto.

— Venha cá, menina! gritou-lhe o Bicho. Tenho coisa muito importante a dizer.

Tentada na sua curiosidade, Alice voltou. Ao aproximar-se do Bicho êste lhe murmurou em tom mais amável: — Não se zangue.

— É tudo quanto tem a me dizer? observou Alice, um tanto desapontada com as frases curtas do Bicho.

Alice estava aborrecida, mas como não tivesse nada a fazer resolveu ficar por ali. Quem sabe se o Bicho mudaria de tom e lhe diria alguma coisa de proveito?

O Bicho permaneceu calado uns instantes, baforando o seu cachimbo. Depois descruzou os braços e, tirando o cachimbo da bôca, disse:

— Então pensa que está trocada?

— Creio que sim, respondeu Alice. Não posso lembrar-me das coisas que sabia, nem conservo o mesmo tamanho por mais de dez minutos.

— De que coisa não pode lembrar-se? perguntou o Bicho.

— De muitas. Daquela poesia que começa assim, por exemplo: Minha terra tem palmadas...

— Palmeiras, emendou o Bicho. Minha terra tem palmeiras onde canta o... Acabe!

— Onde canta o crocodilo, completou Alice.

— Está errado, disse o Bicho. Vejo que você está mesmo atrapalhada da cabeça. Diga-me: de que tamanho quer ser?

— Não faço questão de tamanho. O que quero é ficar sempre do mesmo tamanho. Nada atrapalha tanto a vida da gente como esta história de mudar de tamanho diversas vêzes por dia. O senhor deve compreender isto muito bem.

— Não compreendo, foi a resposta do esquisito Bicho.

Alice mordeu os lábios e calou-se. Nunca ninguém a havia contrariado tanto. Sua paciência ia chegando ao fim.

— Está satisfeita com a altura que tem agora? Quer ficar sempre assim? perguntou depois duma pausa o Bicho.

— Não, senhor. Quero crescer um pouco mais. Dez centímetros não é altura de gente.

— É uma excelente altura! retorquiu o Bicho quase zangado. E endireitou-se todo para mostrar que êle era um grande figurão e tinha exatamente aquela altura.

— Para mim não é, replicou Alice. Não estou acostumada a ter dez centímetros. Mas não se ofenda, senhor Bicho, Não há razão para isso.

— Não está acostumada, mas com o tempo se acostumará, disse o Bicho, e levando o cachimbo à bôca tirou uma longa baforada.

Alice esperou com paciência que êle acabasse de fumar e retomasse a conversa. Ao cabo de alguns instantes o Bicho-Cabeludo pôs o cachimbo de lado, bocejou três vêzes, espreguiçou-se e, descendo de cima do cogumelo, meteu-se por entre as ervas, dizendo:

— Um dos lados aumenta a estatura; o outro diminui.

“Um dos lados do quê?” pensou Alice consigo.

— Do cogumelo, respondeu o Bicho-Cabeludo, como se ela houvesse falado em voz alta — e, isto dizendo, desapareceu.

Alice ficou muito preocupada, olhando para o cogumelo a ver se adivinhava que lado aumentava e que lado diminuía estatura de gente. Como o cogumelo fôsse perfeitamente redondo, o problema se tornava difícil, porque pròpriamente não havia lados. Por fim resolveu experimentar. Espichou as duas mãos e arrancou ao mesmo tempo dois pedaços do chapéu do cogumelo, tomados de lados opostos. E ficou a olhar para êles refletindo:

— E agora, qual será? Por fim, com muito cuidado, fincou os dentes no pedacinho que estava na mão direita — e imediatamente sentiu uma pancada no queixo. É que diminuíra com tanta rapidez que seu queixo viera bater no chão. Assustada com a mudança e receosa de diminuir a ponto de desaparecer para sempre, mordeu o pedacinho da mão esquerda. O efeito foi justamente o contrário. Pôs-se a crescer com a maior velocidade! Seu pescoço espichou mais que o de uma girafa e breve surgiu como um mastro acima da floresta. Alice olhou para baixo e viu lá longe os seus ombros...

"Meus ombros!" exclamou. "Tão longe de mim que mal os vejo! E minhas mãos? Coitadinhas! Nem enxergá-las consigo..."

Moveu-se enquanto falava e ouviu lá em baixo um farfalhar de árvores. Como não tivesse fôrças para erguer as mãos até à cabeça, baixou a cabeça até às mãos e ficou encantada de ver que o pescoço dobrava em qualquer direção, como borracha de regar plantas no jardim. Ela então enrolou o pescoço e pôde mergulhar a cabeça dentro da floresta. Nem bem fêz isso e um grito agudo se fêz ouvir, seguido de furioso bater de asas. Era uma pomba que pousara em seu nariz e batia as asas com desespêro, em atitude de defesa contra o pescoço enrolado.

— Serpente! gritava a pomba.

— Não sou serpente, nada! berrou Alice furiosa. Saia do meu nariz!

— Serpente, serpente! continuava a pomba a gritar, agora em tom de chôro. Já experimentei todos os meios e não consigo livrar-me dela, ai, ai!

— Não entendo nada do que você está dizendo, gritou Alice.

— Experimentei tudo, continuou a pomba como falando para si mesma. Experimentei as raízes das árvores, as rochas escarpadas, os barrancos mais íngremes — nada, nada serve...

Cada vez mais intrigada, Alice não interrompeu a lamentação da pomba. Queria ver se das suas queixas era possível entender do que se tratava.

A pomba continuou na lamúria: “Além do trabalho de chocar os ovos, tenho de conservar-me em vigilância dia e noite. Há três semanas que não fecho os olhos, e nem aqui, nesta copa tão alta, encontrei paz...”

— Sinto muito tê-la inquietado, Senhora Pomba, disse Alice sem compreender ainda o sentido das suas palavras de queixume.

— Nem aqui!... continuou a pomba. Embora escolhesse a mais alta árvore da floresta para armar o meu ninho, nem aqui me vejo livre das malvadas serpentes...

— Mas, observou Alice, compreendendo afinal, eu não sou nenhuma serpente!... Sou... sou...

— Que é que você é? interrompeu a pomba. Estou vendo que é uma traiçoeira criatura que está procurando inventar uma história.

— Eu sou uma menina, Senhora Pomba! disse por fim Alice, sem ter grande certeza de que realmente ainda fôsse uma menina.

— Que graça! retrucou a pomba com ironia. Tenho visto muitas meninas, mas nunca vi nenhuma com pescoço de serpente. Não, não! Você é uma serpente! Por que negá-lo? Daqui a pouco acaba afirmando que também jamais comeu os ovos que nós pombinhas pomos nos nossos ninhos. A inocentarrona...

— É claro que tenho comido muitos ovos, mas de galinha. Como você sabe, tôdas as meninas comem ovos, tal qual as serpentes. Comer ôvo não é crime para nenhuma menina.

— Não acredito que assim seja, replicou a pomba, porque se fôsse verdade que as meninas comem ôvo, então não haveria a menor diferença entre elas e as serpentes.

Tais idéias eram tão novas para Alice, que ela desnorteou por uns instantes e conservou-se calada. Enquanto isso a pomba prosseguiu na sua triste fala, di zendo: — Você anda à procura de ovos, bem sei, e sendo assim que me importa que não seja serpente e sim menina?

— Não importa a você, mas importa muito a mim, apressou-se Alice a retrucar. Não estou à procura de ovos; e, se estivesse, não estaria à procura de ovos de pomba, que não valem nada. Além disso, só como ovos fritos, nunca os como crus.

— Então, suma-se daqui! gritou a irada pomba, indo acomodar-se novamente no seu ninho.

Alice obedeceu. Agachou-se por entre os galhos das árvores e foi dando jeito de afastar-se dali. Às vêzes o seu pescoço enganchava num cipó e tinha ela de parar para desembaraçá-lo. Súbito, lembrou-se que ainda conservava nas mãos os pedaços do cogumelo. Pôs-se a comê-los. E tanto lidou que conseguiu finalmente voltar ao seu tamanho natural.

Tanto tempo levara aquilo, de aumentar e diminuir, que chegou a estranhar a volta ao natural. Mas acostumou-se em poucos minutos.

“Arre!” monologou. Conseguiu finalmente realizar metade dos meus planos. Estou atordoada de tantas mudanças, mas voltei ao que sempre fui. Essa parte está conseguida. Resta agora o jardim. Tenho de descobrir meio de entrar naquele jardim.

Foi andando ao acaso, até que se achou num sítio onde havia uma casinha de um metro e meio de altura. Quis entrar. Como não coubesse, comeu uma isca do pedaço de cogumelo que diminuía. Conseguiu assim reduzir-se a trinta centímetros e entrou pela casinha a dentro.

CAPÍTULO VI PORQUINHO E PIMENTA

F ICOU POR uns instantes a examinar a casinha e a pensar no que faria; súbito, surgiu do seio da floresta um criado (Alice achou que devia ser um criado por vestir libré, mas a julgar pelo seu físico mais parecia peixe.) Chegou e bateu com fôrça na porta. A porta foi aberta por outro criado, também de libré mas com cara de rã. Alice observou que ambos tinham os cabelos encaracolados e empoados. Ficou imóvel, curiosa do que ia acontecer.

O criado-peixe tirou de baixo do braço uma enorme carta quase do tamanho dêle e entregou-a ao outro, dizendo em tom grave:

— Da parte da Rainha para a Senhora Duquesa. Convite para jogar croquet .

E fizeram ambos tamanha reverência que as duas cabeças se encontraram, poct! Alice riu-se tanto que teve de tapar a bôca, de mêdo que êles ouvissem. O criado da Rainha foi-se embora e o outro ficou por ali, olhando estupidamente para o céu. Aproximando-se dêle, Alice bateu na porta.

— É inútil bater, disse o criado. Primeiro, porque estou do mesmo lado da porta em que você está. Segundo, porque estão fazendo barulho lá dentro e ninguém ouve.

Reinava, de fato, grande barulho dentro da casa, e de vez em quando ouvia-se rumor de pratos quebrados.

— Diga-me então, observou Alice, que devo fazer para entrar?

— Podia haver razão para que você batesse, continuou o criado sem responder ao perguntado, se a porta estivesse entre nós dois. Isto é, se eu estivesse do lado de dentro e você do lado de fora. Ou o contrário. Se você estivesse do lado de dentro e eu do lado de fora, eu poderia abrir para você sair. O criado dizia isso sem tirar os olhos do céu, o que Alice achou muito pouco delicado.

— Mas, pensou a menina consigo, talvez êle não tenha culpa disso. Seus olhos são quase no alto da ca beça e com certeza não pode baixá-los. Em todo caso nada lhe custaria responder à minha pergunta. E repetiu-a: “Diga-me, senhor, por onde poderei entrar?”

— Ficarei sentado aqui até amanhã, foi a estranha resposta do criado e nesse momento a porta abriu-se e um prato veio voando lá de dentro, que esbarrou no nariz do criado e foi quebrar-se na árvore próxima.

— Ou talvez até depois de amanhã, continuou êle no mesmo tom, como se nada houvesse acontecido.

— Como devo entrar? perguntou Alice elevando a voz e já irritada.

— Você vai entrar mesmo? perguntou o criado. É esta a primeira questão que temos de resolver.

Alice não gostou que êle lhe fizesse tal observação. “É horrível como estas criaturas se implicam com tudo! Acabam pondo-me maluca.”

Parece que o criado achou boa a oportunidade para voltar à sua idéia do começo, e disse: — Ficaria sentado aqui durante dias e dias.

— Mas, camelo, que devo fazer para entrar? berrou novamente Alice, furiosa.

— Faça o que quiser, foi a resposta do criado, que se pôs a assobiar muito fresco da vida.

“Oh, é inútil falar a êste imbecil! Trata-se de um perfeito idiota” — e abrindo ela mesma a porta, entrou.

Dava a porta para uma grande cozinha fumarenta. Estava a Duquesa sentada num mocho de três pernas, tendo uma criança ao colo. A cozinheira mexia no fogão uma grande panela de sopa.

— Há de haver muita pimenta naquela sopa, disse Alice espirrando três vêzes seguidas. Irra!

E havia mesmo. Na sopa e no ar. A própria Duquesa espirrava de vez em quando; e a criança que tinha ao colo alternava chôro com espirros. Só não espirravam a cozinheira e o gatão amarelo que a um canto fazia caretas.

— Pode ter a bondade de me dizer, Senhora Duquesa, por que motivo o seu gato faz caretas? perguntou Alice com alguma timidez, pois não estava certa de ter direito de falar em primeiro lugar diante de nobre dama.

— Porque é o Gato Careteiro. Essa é a razão. Porcalhona! foi a resposta da Duquesa.

Alice recuou ao ouvir esta última palavra, dita em tom de cólera. Mas logo percebeu que não fôra dirigida a ela, e sim à criança que estava no colo da dama e que com certeza fizera alguma coisa merecedora da palavra.

— Não sabia dessa raça de gatos careteiros, disse Alice. Nem nunca supus que gato pudesse fazer careta.

— Todos podem e muitos fazem, ensinou a dama.

— Nunca vi nenhum que fizesse, nem sei de nenhum que faça.

— É que você não sabe muita coisa, disse a Duquesa.

Alice não gostou da observação e pensou que seria melhor mudar de assunto. Enquanto pensava nisso, a cozinheira tirou do fogo a panela de sopa e começou a jogar na Duquesa e na criança tudo quanto se achava ao seu alcance — primeiro as caçarolas, depois os pratos e as terrinas. A Duquesa não ligou a mínima importância àquilo, nem mesmo quando uma sopeira lhe esborrachou o nariz. Quanto à criança, não se podia dizer que estivesse chorando das caçaroladas e pratadas que ia recebendo, porque já estava chorando desde o começo.

— Pare, mulher! gritou Alice. Olhe o que está fazendo!

— Se todos só olhassem para os seus próprios negócios, o mundo andaria muito mais depressa do que anda, grunhiu a Duquesa.

— Se o mundo andasse mais depressa, retrucou Alice muito contente de mostrar ciência, não haveria vantagem nenhuma. Os dias e noites ficavam muito mais curtos do que são. Como a senhora sabe, a terra leva 24 horas para girar em tôrno do seu eixo.

— Por falar em eixo, corte o queixo dela, cozinheira! gritou a Duquesa.

Alice olhou ansiosa para o lado da cozinheira com mêdo de que cumprisse estranha ordem, mas vendo-a totalmente indiferente e absorvida em temperar outra panela, teve coragem de continuar:

— Vinte e quatro horas, disse eu. Ou doze só? Ando meio atrapalhada...

— Ora não me aborreça! interrompeu a Duquesa, pondo-se furiosamente a embalar a criança com uma canção muito sem jeito.

Ralhe co'a criança e bata-lhe quando espirra,

Porque a malvadinha isso faz de pura birra.

Enquanto a Duquesa cantava essa horrível canção, jogando a criança violentamente para o ar, o chôro foi tanto que Alice não pôde ouvir o resto da cantiga.

— Vamos! disse a Duquesa para Alice. Embale a criança, se quiser. Tenho de aprontar-me para jogar o croquet com a Rainha — e sem esperar a resposta, jogou-lhe a criança nos braços, como se fôsse um pacote de qualquer coisa; em seguida retirou-se da cozinha.

A cozinheira atirou-lhe com a frigideira à cara, sem conseguir acertar.

Alice pegou da criança com alguma dificuldade, porque era um ser de formato muito fora do comum. Parecia um peixe-estrêla, todo cheio de pernas e pontas. A criaturinha urrava como se fosse locomotiva e tanto se remexia que por um triz Alice não a deixou rolar por terra.

Logo, porém, descobriu meio de bem segurar a criança e levou-a correndo para fora da casa. “Se a não tiro daqui, com certeza que a matam em dois ou três dias.”

Estas palavras foram ditas em voz alta, e a criança que havia parado de espirrar, grunhiu como em resposta.

— Fique quieta! gritou Alice. Não meta o bedelho em conversa dos mais velhos.

A criança grunhiu novamente, e Alice examinou-lhe a cara pela primeira vez. Tinha um nariz muito revirado para cima, que mais parecia focinho — o que muito aborreceu Alice. Além do mais, aquêles grunhidos suspeitos...

“Quem sabe se não foram grunhidos e sim soluços?” pensou a menina, examinando os olhos da criança para ver se estavam molhados de lágrimas.

Não estavam. Não havia chorado. Não fôra soluço, portanto, e sim grunhido dos bons. Alice fêz uma carranca e disse-lhe: — Se você vai transformar-se num porquinho, então não conte mais comigo. Veja lá!

Tradução por IA · Original